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quarta-feira, fevereiro 27, 2013

A Janela

Contrariando uma tendência, hoje começo esta crónica já com título. Acho que pelo simples facto de  a maior parte da história se ter desenvolvido a partir de uma janela.
É a mesma janela cujas grades aparecem na primeira foto desta postagem. As outras duas imagens foram feitas a partir do mesmo andar do edifício e eu só as coloco para darem uma melhor ideia do local. Era um andar com três sacadas para essa Praça do centro da cidade de Évora --- a Praça de Sertório.
Ao lado esquerdo vê-se a actual Caixa Geral de Depósitos (antigo Banco Nacional Ultramarino); no topo, ao fundo, a Igreja do Salvador Velho; do lado direito, o edifício da Câmara Municipal. Não aparecendo nas imagens, mas ponto principal da história, ao lado da igreja fica o edifídio dos Correios.
Nos idos de 1965 e 1966 eu tinha de vinte para vinte e um anos de idade e trabalhava numa daquelas salas como escriturário no então "Escritório de Advogados Camarate, Azevedo e Rapazote". Trabalhava bastante e quase saía fumaça daquela máquina de escrever que não parava o dia inteiro... De entre outras experiências aproveitadas, a de dactilógrafo foi-me muito útil e o é até hoje no teclado do computador. Ali, também decorei muitas frases de latim que me incentivaram a um superficial estudo da língua, mais especìficamente na parte etimológica da língua portuguesa.
Mas... com quase vinte e dois anos, eu jamais tivera uma namorada. Não que não desejasse uma, mas porque a minha timidez não cabía em mim. Fazia tudo para pedir namoro às garotas, mas na hora H eu não conseguia nem ao menos me aproximar...
Quatro lindas raparigas estiveram nas minhas preferências e com quase todas se passou a mesma coisa. Falarei de cada uma noutras crónicas que aqui pretendo escrever, pois que cada caso foi um caso, com o mesmo tipo de fulcro mas de forças e resistências diferentes. Hoje só me lembro do nome de duas das personagens que passaram por esse estágio da minha vida. Da que faz parte da crónica de hoje eu não me lembro. Chamá-la-ei de Désiré --- algo muito desejado na língua fracesa...
Désiré era estagiária nos Correios. Esse estágio demorava alguns meses, não me lembro quantos, e depois cada uma das estagiárias era alocada em algum lugar do país. Esse controle eu tinha, pois todos os dias lia o então "Diário do Governo" (hoje "Diário da República"), no qual eram publicadas todas as matérias referentes a concursos públicos e estágios.
Todos os dias pela manhã Désiré passava sob a minha janela quando se dirigia aos Correios. À tarde fazia o percurso inverso. Eu ficava na sacada vendo ela passar com seu ar gracioso. Era uma moça um tanto ou quanto frágil, mas muito bonita. E tenho a certeza que ela percebia a minha presença.
Esse interesse avivou a minha habilidade de pesquisador e, dentre outras coisas, vim a saber que ela era do Ameixial, uma Freguesia da minha cidade de Estremoz. Epa! éramos conterrâneos e, por isso, efervesceu mais o meu interesse por Désiré...
Coloquei em campo a minha irmã que morava em Estremoz e que conhecia todo o mundo. Nem sei se ela chegou a comentar alguma coisa com a moça, pois sempre gostou de meter o bedelho nessas transas, principalmente sabedora que era do quanto eu era tímido. É possível, até, que eu desejasse isso mesmo, como uma pequena alavancagem na minha empreitada. Mas acho que isso não aconteceu e agora também é impossível saber. A não ser que alguma vez haja um contacto com Désiré.
Sabendo que ela era do Ameixial e que passava todos os fins de semana em casa, fui saber os horários da automotora que fazia a ligação ferroviária entre Évora e Estremoz.Consegui, pois todas essas coisas eu conseguia...
Todas as segundas-feiras eu saía de casa cedinho e caminhava pela arcada em direção à Estação dos Caminhos de Ferro. E todas as segunfas-feiras Désiré caminhava da Estação em direção à arcada. Inevitàvelmente nos cruzávamos em algum ponto desse trajecto. À distância os nossos olhares se fitavam e quando ao lado um do outro passávamos eles se cruzavam parecendo querer dizer algo que jamais foi dito por palavras.
Dali a pouco nos olhávamos nòvamente quando eu já estava na janela do meu emprego e Désiré passava a caminho dos Correios. E todos os dias a Praça do Sertório assistia à nossa silenciosa troca de olhares. E nas segundas-feiras aquela mesma cena. E assim por mais de um ano.
Foi um namoro jamais declarado e silencioso. Um diálogo de surdo-mudos.
Na última vez que estive em Évora, em 2011, dirigi-me algumas vezes à Caixa lá na Praça de Sertório e nalgumas dessas oportunidades sentei-me por ali olhando para aquelas janelas. Lembro-me que passei muito templo nessa contemplação de saudade e a memória viajou por grandes distâncias de mil recordações. Désiré fez parte desses momentos também e, para mim, será eterna. Se ela fôr internauta, como eu, talvez leia a minha crónica e assim tenha confirmadas e esclarecidas as suas deduções e dúvidas de antanho.

segunda-feira, agosto 06, 2012

Amadorismo Olímpico

Ao mesmo tempo em que digito as linhas que compõem esta crónica, ainda correm na tela da tv imagens da premiação dos medalhistas olímpicos na prova de argolas na ginástica.
O campeão foi o brasileiro Arthur Zanetti, um jovem que palmilhou uma carreira muito difícil.
Neste exacto momento ele, Zanetti, está dando uma entrevista à reporter da Record e vejo na simplicidade e fluência das suas palavras, na sua alegria e postura, na sua modéstia, algo que vai cativar muito o povo brasileiro e, finalmente, fazer com que este pense muito sériamente na educação física e desportiva no Brasil e comece a pressionar os seus governantes para que desenterrem a enorme capacidade e competência de futuros atletas.
Fiquei muito emocionado, comovido, com estas imagens e até a interpretação do hino brasileiro me humedeceu os olhos. Isto não só porque quarenta dos meus sessenta e sete anos de idade foram e estão sendo passados no Brasil, mas também porque a ginástica olímpica e o atletismo fazem parte da minha vida.
Na década de sessenta o Lusitano Ginásio Clube (de Évora) que até então fizera parte do futebol de elite em Portugal, mantendo-se por muitos anos na primeira divisão, começava a decair. Já na segunda divisão, tinha grandes dificuldades para manter em dia o pagamento dos salários dos seus jogadores.
Pela capacidade e interesse que eu sempre demonstrara nas aulas de educação física do curso secundário da Escola Industrial e Comercial de Évora, fui convidado a participar das classes amadoras de atletismo e ginástica do citado clube e aceitei.
No atletismo, nunca tinha visto aqueles sapatos especiais com uma espécie de prego no solado para agarrar bem ao solo e jamais havia tocado um dardo, peso ou martelo. Na ginástica, a classe especial de mesa alemã, a barra fixa, cavalo de arção e as argolas eram também uma novidade. O Presidente do clube, senhor Nunes, era gerente bancário na cidade e se entregara de coração a essas actividades e tudo ele pagava do seu bolso. Puro amadorismo!
Especializei-me nos saltos da mesa alemã, argolas e nos 100 metros rasos. Eu tinha grande poder de elevação, muita força e muitíssima velocidade.
O atletismo durou muito pouco tempo. Não passou de um ano. Ainda tentei participar do mesmo no Juventude, clube rival, mas não me aceitaram exactamente por causa da burrice dessa rivalidade... Assim, continuei na ginástica do Lusitano até ingressar nas fileiras do Exército e, após os quatro anos do cumprimento obrigatório dessa missão, nada mais de tudo aquilo existia. Foi bom enquanto durou.
Até aos dias de hoje eu continúo apaixonado pela ginástica olímpica e pelo atletismo. Sempre que posso assisto a algumas exibições ou competições. E nas Olimpíadas deixo de assistir a muita coisa aguardando a vez dessas especialidades.
Às vezes eu vivo a coisa tão intensamente que parece haver dentro de mim, ainda, a capacidade de fazer igual ao que estou vendo. Sei, porém, que na primeira tentativa haveria fisgada nos músculos meio fácidos, nos nervos meio atrofiados e quebra dos ossos desgastados...


sábado, junho 16, 2012

Sôpa de Igrejas

Já passei por algumas situações em que, identificado como alentejano que sou, de imediato ser discriminado. A ideia dessas pessoas imbecis é que ser alentejano é também comunista e ateu.
Eu até posso ser as duas coisas. Porém, posso garantir que no Alentejo estão as mais belas e ricas igrejas e todas elas recheadas de história.
Vejam que nesse gráfico são assinaladas 25 só na cidade de Évora. E então?!...

segunda-feira, abril 30, 2012

A namoradinha

Um destes dias visualizei uma foto no Facebook com a legenda "Parque da Ponte -- Braga". E como nós nos lembramos com mais facilidade de detalhes de há 50 anos atrás do que outros de ontem, logo achei que aquele lugar me era muito familiar. E nem foi necessário pensar muito a respeito, pois logo me lembrei  que ali estivera com uma "namoradinha" lá no começo dos anos 60. Ali mesmo numa daquelas pontes.
Tratei imediatamente de procurar nos meus arquivos por uma outra foto que com ela ali tirara. Estava gravada na minha mente aquela guarda da ponte, em cimento, imitando troncos de árvores. E achei!
Naquele dia eu fui numa excursão que saíu da cidade de Évora com destino a Braga, pois teria lá o jogo entre o Lusitano e o Braga. Naqueles anos o Lusitano de Évora era um time forte e encontrava-se na 1ª divisão.
Apesar de eu gostar de futebol, a finalidade dessa minha participação na excursão era a de me encontrar com aquela rapariguinha que morava e estudava em Braga e com a qual eu me correspondia. Iriamos conhecermo-nos pessoalmente e, a partir daí, talvez as coisas ficassem mais sérias...
O seu nome era Maria de Lurdes Pinto e estava hospedada numa casa de freiras na Rua do Carvalhal. Isto eu tirei agora da memória que é muito boa para esta coisa de nomes...
Eu era tímido a dar com um pau e ainda hoje eu não sei onde consegui arrumar coragem para enfrentar a situação. Mas lá fui...
Como andámos muito pela cidade e principalmente pelo Sameiro, Bom Jesus do Monte, o papo parece ter-se resumido a temas culturais. A colega dela que nos acompanhou sempre, inibia-nos na tentativa de algo mais ousado e eu, sinceramente a tal não me propunha; seria uma grande empreitada... Eu próprio, olhando agora para a minha expressão de antanho, naquela foto, concordei que devia estar muito "pra lá de Bagdad"...
Já depois de ter regressado a Évora, escrevi-lhe uma carta em resposta a outra que recebera. Sei que um dos assuntos abordados era religião e confessei-lhe que a tal era avesso e, ainda por cima, com a veia pulsando a rebeldia da década. Nunca mais dela obtive notícias!
Depois de tudo isto já estive em Braga algumas vezes e a última foi no passado Novembro. O clima continúa o mesmo: muito padre, muita freira. Mas a cidade é bonita.

segunda-feira, abril 16, 2012

Reencontros

Uma informação para os Antigos Alunos da Escola Industrial e Comercial de Évora (antes de 1993)
e
Escola Gabriel Pereira (depois de 1993)

sexta-feira, março 09, 2012

Nome da Rua ?

Tenho que confessar que admiro blogueiro que escreve todos os dias. Entenda-se escrever com substância porque, escrever por escrever e sem nexo, qualquer um faz... Digo isto porque faz um bom tempo que eu não escrevo nada aqui. Um dos motivos é a preguiça, um outro é a falta de inspiração ou até mesmo de assunto que não esteja surrado. Então, faço as pazes com o meu blog hoje, mas não prometo que volte a escrever amanhã.
A matéria que me propuz a escrever poderá ser proveitosa para a Câmara de Vereadores da cidade onde moro há muitos anos --- Campinas. Se é que por  tal eles se interessem e que porventura venham a visitar a minha página alguma vez na vida.
Sei que esses vereadores tiram leite até de pedra... Notei qua há meia dúzia de anos atrás, talvez nem tanto, foram colocadas placas de identificação das ruas e sem olhar a gastos, pois afixavam-nas nos postes do inicio, meio e final. Certamente que houve aí um terço de exagero... Placas de chapa de aço carbono pintadas de azul e letras em branco. O azul ainda lá está, meio desbotado, e as letras sumiram. Hoje ninguém mais consegue ler o nome das ruas. Mais uma vez foi dinheiro do povo que se esvaiou pelo ralo.
Ou eu tenho que acreditar que o conjunto de vereadores mamou na mesma teta ou, então, não existe um número com a inteligência necessária para provar que está tudo errado e abortar esse tipo de projeto.
Vejam no outro quadro, ao lado direito, que na mesma cidade existem meia dúzia de ruas identificadas coerentemente, tanto pelo tipo de placa usada como também no que se refere ao local exacto da colocação da mesma.
Dessa maneira, colocando a placa sempre na parede da casa ou prédio da esquina, quem procura sempre saberá onde o fazer. Evita-se até a colocação de canos nas calçadas que são mais um obstáculo para os pedestres, além de enfeiar ainda mais a cidade que já é horrível com esse emaranhado de fiação aérea e postes de concreto por todo o lado.
Também concordo se alguém disser que esse tipo de placa (ferro fundido ou chapa esmaltada) é muito cara. Todavia, elas duram uma eternidade.
Na bela cidade de Évora em Portugal, onde vivi e tenho a minha família, as ruas são todas identificadas com uma placa de azulejos amarelos e letra preta (poderia-se dizer amarelejos em vez de azulejos, talvez...) a cada esquina e sempre colocada nas casas das pontas ou tôpo de alguma travessa confluente. São placas grandes e bem visíveis. Jamais existe o desconforto de perder muito tempo precioso procurando. Sabe-se de antemão onde procurar a placa que identifica a rua com a certeza que as letras não sumiram com o rigor do tempo. Até mesmo, se um dia a casa tiver que ser demolida ou reformada, a placa será reaproveitada com toda a certeza.
Não posso afirmar neste momento, por falta de documentação, qual a idade desse tipo de placa. Mas sei que muitas têm mais de cem anos. Coloco um quadro de fotos ao lado direito que comprova isso.
A foto do canto inferior esquerdo é de um tempo muito remoto; talvez uns 120 anos. Repare-se que na esquina do prédio tem lá a placa do mesmo tipo que as demais.
A foto do canto inferior direito é referente a um famoso restaurante dos meus amigos irmãos Fialho e, como esquina que é tem a toponímica está correcta. Além disso, a placa do restaurante também é em azulejo.
Notaram que também existe uma placa em mármore com as letras em baixo relevo e pintadas de preto. Aparecem algumas em ruas que ficam externas ao centro histórico, fóra das muralhas medievais, portanto. Esse tipo de placa é o que se usa na minha cidade natal --- Estremoz. Afinal, lá é a terra do mármore. Esse tipo de placa perde em relação às de azulejos por a letra ser menor e a tinta desaparecer com o tempo. Aí eu proponho uma medida de que talvez ninguém se tenha lembrado: pintar as letras como pena alternativa decretada pela Justiça a réus de pequenas causas que tenham sido condenados.
E já que abordei aqui políticos, réus e placas de azulejos, ofereço-vos o quadro de duas fotos a seguir. Foi-me enviado por um amigo que móra lá em Oeiras, Portugal e a copiou da internet.
Sei que essa placa existiu lá, que foi colada sobre uma outra de mármore ou basalto durante campanha eleitoral. Agora parece que não está mais, até porque o gajo continúa sendo o manda-chuva do pedaço... Mas é uma ideia que poderá ser copiada. Afinal, colocam-se em ruas, pontes, avenidas, etc., nome de personalidades várias que de algum modo marcaram positiva e relevantemente a passagem por este mundo. Nada mais justo! Porém, acho que também devem ser lembrados para a posteridade os canalhas. Tudo isso dará lugar a que se analisem as duas vertentes e, assim, se tentará construir um mundo melhor com muito menos picarêtas e picaretagens.

sexta-feira, janeiro 06, 2012

O Placar

A Praça do Geraldo, em Évora, é a sala de visitas da antiquíssima cidade alentejana. Muitos que ali vão pela primeira vez ou que lá regressam, quase sempre vão com a ideia fixa de visitar dois dos pontos mais interessantes, que são o Templo Romano e a Capela dos Ossos. Porém, inevitavelmente estarão na Praça a qualquer momento.
Mas hoje não me vou ater à Praça em si. A sua bela fonte manuelina, a arcada, os prédios, serão tema de outra oportunidade. Vou, antes, focar algo que faz parte do dia a dia dos eborenses.
Este trecho da Praça é, sem dúvida, o mais movimentado pelos pedestres. Há dez anos atrás, quando lá estivera da última vez, não tinham sido ali colocados os actuais bancos que, este ano que findou,  foram ponto de descanso para as minhas pernas e de proseado com alguns amigos. É um reduto da chamada terceira idade e ali reencontrei uma penca de conhecidos e amigos...
Ali, numa das colunas da arcada, tem um placar mantido pela Câmara Municipal e aos cuidados do velho amigo Lisboa, um engraxador de profissão e que como bico se encarrega de colocar e retirar avisos e cartazes. Na verdade, quase que exclusivamente notícias do obituário.
Os eborenses que por ali passam, todos eles se dirigem ao placar para saber quem morreu. Alguns até chegam a telefonar a algum amigo que por ali esteja para lhe perguntar as notícias...
Eu, claro, nunca fugi à regra. Não só durante os anos em que vivi em Évora, como também nos períodos em que lá venha a permanecer actualmente.
Pela óptita do observador atento e mantendo uma certa distância do placar, notam-se expressões, as mais diversas, pelos que acabam de ler os avisos de falecimento: estupefacção, ironia, tristeza e frustração. Jamais de alegria porque, mesmo a sentindo, nunca ninguém se propõe a exteriorizá-la em público...
Não sou psicólogo para poder oferecer uma exlicação científica, mas notei que a mais comum das expressões é realmente a de frustração. Não exactamente por ali não estar o nome e fotografia de um conhecido, mas por ali só estar gente desconhecida. É complicado o ser humano!...


segunda-feira, dezembro 26, 2011

Velho Artesão

Tinha prometido a mim próprio que iria contar esta vivência no blog e cá estou eu, apesar de quase 3 meses já se terem passado sobre o acontecimento.

Outubro passado, logo nos primeiros dias de estadia em Évora, fui buscar um dos meus netos na Escola de São Mamede. Velha conhecida esta escola pois que, além de eu ter endereço naquela Freguesia (quando em Portugal), um dos filhos brasileiros também estudou lá.

Parece meio confusa esta colocação, não é? Sim, para os que não me conhecem ou pouco sabem a meu respeito, eu sou um cidadão do Mundo e por muitos lugares já assentei arraial com uma ou outra família. Realmente uma verdadeira confusão...

Voltemos ao âmago da questão para eu falar do Sr. Isidro. Velho artesão de 96 anos de idade que tem uma aparência muito semelhante à minha de 66... Parabéns para ele!

A Rua da Mouraria desemboca no Largo de São Mamede e por ela eu ía caminhando desde o seu começo na Rua de Avis. Quase no final, pegado onde outrora morou o falecido grande amigo Gabriel (Lambuça) notei haver ali um grande portão, aberto, e lá dentro um senhor idoso rodeado de inúmeros trabalhos artesanais que ele próprio confecciona. E o que mais me chamou a atenção fôram as esculturas em cortiça pois que, modéstia à parte, era coisa que eu fazia muito bem nas aulas de trabalhos manuais do curso secundário que eu fiz em Évora. Era meu parceiro na confecção  dessas esculturas o Sardinha colega que eu não vejo desde antanho e tão pouco sei se  vivo será.

Lògicamente que não lhe contei sobre a minha veia artística neste campo, pois conheço muito bem o interior dos alentejanos, principalmente no que diz respeio à sua sensibilidade. Mas outros tipos de trabalho eu verifiquei que aquele artista fazia bem: latoaria com peças perfeitas e funcionais e pintura. Ali eu vi alguns esboços e um retrato do grande toureiro português que foi Manuel dos Santos. Versatilidade!
 
Mostrou-se muito interessado em me falar sobre o seu trabalho da multidão de turistas que pela sua oficina passa. E eu ía fazendo as minhas perguntas, mais até para que ele mantivesse toda a disponibilidade. E às tantas, apontando para duas fiadas de garrafas perguntou-me se eu sabia do que se tratava. Parece que quase todos erravam na resposta quando indagados como eu. Mas o meu olho de lince viu que a primeira garrafa tinha uma pequena etiqueta com as letras "do" o que ràpidamente me levou a deduzir e afirmar que se tratava de uma escala musical e, portanto um tipo de instrumento. Na môsca!

Acertei e o senhor Isidro ficou feliz por isso. Foi quando ele pegou em duas batutas e começou a tocar Aquarela do Brasil. Eu não queria acreditar no que estava vendo e ouvindo e vocês podem ter a certeza que foi isso mesmo.


sábado, outubro 29, 2011

Eu e a Loira

O Mercado Municipal de Évora, nas suas instalações originais, era um belo e funcional lugar. Principalmente aos Sábados. Ali me desloquei muitas e muitas vezes, se não para comprar algo, pelo menos para passear, observar e tomar um copo num dos tradicionais bares internos. Sempre achei muito interessante, principalmente a área das bancas de venda de peixe.
Quando da minha última estada em Évora, há dez anos atrás, todo aquele espaço estava a passar por grandes transformações e reformas. Lembro-me, até mesmo, de se terem encontrado inúmeras ossadas em toda a cercania, o que me parece ter sido uma continuidade do antigo cemitério franciscano que deu origem à mundialmente famosa Capela dos Ossos, anexa à Igreja de São Francisco.
Hoje voltei àquele local, mas mais embuído de curiosidade e a tentar fazer uma comparação dos produtos ali à venda com os do mesmo género que se comercializam nas feiras e mercados do Brasil. Afinal, eu trabalho no ramo...
Houve grandes mudanças arquitetónicas e de lay out, se bem que se tenha mantido a sua estrutura básica original nas paredes externas e cobertura. Mas perdeu-se muito espaço útil e perdeu-se principalmente aquela comunhão de freguês com comerciante.
Ao adentrar a parte coberta, comecei pelos boxes de frutas. Parei ali em frente dos de número 2 e 4 que são acopolados. A numeração é par de um lado e ímpar do outro. Comecei a comparar as frutas dali com as que vendemos nas feiras no Brasil e fiquei impressionado com a gritante diferença de qualidade e apresentação. As do Brasil são infinitamente melhores e eu, como filho aqui da terrinha portuguesa, tenho que dar a mão à palmatória...
Enquanto eu estava nas minhas observações e conjecturas, percebi que a vendedora, uma loira espampanante, dirigia-se à vendedora da banca ao lado com a frase "Eh pá! paraste de comer?". Duas vezes fez a pergunta e eu, pelo canto do olho, percebi que a coisa era a meu respeito. A outra, percebendo que eu tinha captado a mensagem, ficou um pouco encabulada e nada respondeu. É lógico que eu entendi, pois ùltimamente tenho-me relacionado muito com os amigos alentejanos e comecei a relembrar muitos dos ditos e frases típicas no seu jeito cantado. Ela simplesmente estava gozando com o meu barrigão. Deve ter percebido que eu ainda sou aquele cara gostosão, mas barrigudo...
Claro que eu não iria dizer nada. Tranquilamente me afastei e fui visitar outros pontos, principalmente as bancas de venda de peixe noutro pavilhão. Lògicamente que dali já fui articulando tudo para poder vir a escrevar algo relacionado com o acontecimento. Tudo eu ando a aproveitar para matéria do meu blog e, a par deste assunto de agora, já tenho um punhado de outros para desenvolver. São a continuação das minhas impressões de viagem.
Todas as matérias que aqui posto têm uma ilustração condigna e, por isso, eu teria que fotografar aquela banca de fruta... E lá voltei eu com a minha máquina fotográfica em punho. Fui fazendo algumas fotos antes de lá chegar perto e, quando me preparava para tirar a derradeira foto, a loira me interpelou dizendo: "o senhor não pode tirar fotografias aqui!" O meu esperneio foi imediato e contestei. Respondi que talvez não pudesse tirar foto das pessoas sem autorização das mesmas, mas mesmo isso dependia do quanto o cenário fôsse ou não público, etc., etc., mas o local eu poderia fotografar com toda certeza. A certa altura da discussão alertei-a que eu tinha entendido o que ela estava querendo dizer à vizinha quando eu ali parara pela primeira vez e, como ela não esperava isso, só faltou vomitar fogo... Como a coisa começou a descambar para a baixaria, eu me afastei. Ainda pensei em fazer uma reclamação oficial, mas desisti.
Por portas e travessas eu até descobri  o nome da loira  e consegui informações sobre o proprietário antigo e o actual. E, mais importante, que a mãe dos meus filhos daqui é freguesa daquela banca...
Na linguagem castiça alentejana e se se tratasse de homem, o desabafo soaria, mesmo no plural, mais ou menos assim: "são uns cabrões"...

quinta-feira, outubro 20, 2011

49 Degraus

Propuz-me a escrever a crónica de hoje em que uma escada muito íngreme, com os seus 49 degraus, faz parte do tema. Na verdade, a escada pròpriamente dita tem 48 degraus que, somados ao poial da porta  entrada, dá aquele total. Ficou pairando no ar a dúvida quanto ao título.
A princípio lembrei-me do nome de um filme que eu vira na minha juventude. Um filme do cineasta Alfred Hitchcock baseado na obra homônima de John Buchan. Pensei que tinha como título "Os 49 Degraus", mas pesquisei na internet e vi que eram 39 degraus... Era para jamais esquecer esse título, pois considerei aquele filme um grande barrete, usando expressão muito usada aqui no Alentejo para filmes fracos ou decepcionantes. Este começava com a imagem de um grande navio e que depois se viu que era um barquinho de brinquedo, filmado num plano maior. Coisas de Hitchcock...
Como uma coisa leva a outra, lembrei-me do livro de ensaios do italiano Roberto Calasso, "Os 49 graus". Fiquei outra vez num impasse, pois fujo de plágios, naturalmente. Resolvi então suprimir o artigo e ficou só o numeral, pois a escada tem mesmo os 49 degraus e isso não pode ser alterado...
Com esta introdução acabei por já ter escrito meia crónica quase sem dar por tal. Garanto que tudo o que escrevi não foi conversa para boi dormir nem ar para encher pneu...
Minha mãe fez 87 anos no pretérito Agosto. Vim a Portugal para a rever depois de 10 anos passados, bem como os filhos e netos que aqui tenho.
Por opção, ela passa o dia num Centro de Dia e volta para casa no início da noite. Esperei-a na hora da chegada para lhe fazer uma surpresa.
Depois que ela chegou e após os muitos beijos e abraços, ela se apoiou no corrimão com a mão esquerda e na canadiana com o sovaco direito. Subiu os 49 degraus sem descansar um único momento. E ela faz isso todos os dias há 6 anos. Eu fui atrás, parei duas vezes (uma em cada vão) para retomar o fôlego e cheguei ofegante em estado lastimoso. Para eu chegar aos 87 da minha velhota vou ter que promover grandes e radicais alterações no meu modo de vida. Promessa a ser cumprida imediatamente!


domingo, setembro 25, 2011

Cesária Évora

Há uns anos atrás, quando ainda Timor Leste se tentava livrar dos tentáculos da Indonésia, Ramos Horta passou pelo Brasil na sua incansável caminhada pelo Mundo e, sinceramente, não sei se pela primeira vez. A situação estava efervescente, pois isso tudo se passava após o massacre de Santa Cruz.
Sorrateiramente eu sempre andei envolvido em algo que de alguma forma pudesse ajudar o sacrificado povo timorense. Sempre fiz uma grande propaganda de Timor, explicava a muitos o que foi, o que era e o que aspirava a ser aquele Território. Por incrível que pareça, muita gente culta jamais tinha ouvido falar...
Nessas andanças de Ramos Horta, ele passou aqui por Campinas, mas eu não tive oportunidade de conversar com ele ou, pelo menos, de vê-lo. Mas tentei envolver-me mais e contactei algumas Organizações. Fiz alguns comentários em matérias publicadas na Imprensa e abordei certas passagens de que me lembrava de quando estive cumprindo comissão militar em Díli.
Por tudo isso, pela minha exposição no momento, surgiu um convite da Rádio Transamérica de São Paulo para que eu desse uma entrevista. Claro que de imediato recusei, pois a timidez sempre foi o meu fraco e eu sei que me iria engasgar ou entrar num buraco negro a qualquer momento. Além disso, acho que não seria a pessoa indicada para falar daquele Timor do momento.
Nessa mesma altura recebi um telefonema do então Director da Tv Cultura de São Paulo que me fez algumas perguntas sobre a situação em Timor e, lá pelas tantas, inquiriu-me sobre alguns dados pessoais como, por exemplo, a minha origem portuguesa. Citei-lhe Estremoz, a minha cidade natal e Évora onde mais vivi e estudei.
Não percebi a confusão que ele engendrou naquele momento ao confundir Évora com Cesária Évora e sobre esta tecer alguns comentários, pois a nobra caboverdiana não estava na pauta em discussão e um director de um Canal cultural jamais poderia cometer uma gafe dessas...
Após tudo o que escrevi até aqui nesta crónica só um detalhe assinalado na mesma me trouxe aqui. Exactamente a diva Cesária Évora.
Sim! desta vez é ela o personagem central da peça e vim até ao seu nome passando por Timor e São Paulo porque o seu nome foi citado naquelas situações e até se sobrepôs ao da cidade que é Património Mundial da Humanidade.
Cesária Évora também é Património Mundial para todos aqueles que ouviram as suas maravilhosas interpretações no titmo de mornas e coladeras.
Surgiu na Imprensa que Cesária Évora sofreu um acidente cerebral vascular nestes dias e isso me deixou estupefacto e muito aborrecido. Possìvelmente ela não voltará a cantar, mas teremos sempre o prazer de escutar as suas gravações, ver os seus clips e passar tudo isso e muito mais sobre ela às gerações futuras.

domingo, julho 24, 2011

Ramal Lisboa - Évora

Esta é uma notícia publicada no jornal da minha terra "Brados do Alentejo". Ela diz o seguinte:

"A CP vai lançar no próximo domingo, 24, uma nova oferta de Lisboa para Évora com quatro "intercidades" diários em cada sentido (dois de manhã e dois à tarde) que vão demorar apenas uma hora e vinte e um minutos entre Sete Rios e Évora, segundo anunciou o jornal "Público" na sua edição de terça-feira, dia 19.
De acordo com aquele diário, os "Intercidades" para a capital alentejana serão compostos por locomotivas 5600 (aptas a circular a 200 km/h) e três carruagens. O jornal adianta ainda que não haverá serviço de bar e que os comboios partem da Estação do Oriente, com paragens em Entrecampos, Sete Rios, Pragal, Pinhal Novo, Vendas Novas e Casa Branca. Mas um em cada sentido terá paragem em mais estações para assegurar algum serviço regional (demorando mais 10 minutos na viagem).".

Tenho 66 anos e fui usuário contumaz dos comboios daquele trajecto em toda a minha juventude e mais esporàdicamente na idade adulta. Sempre tive preferência pelos comboios porque me ofereciam mais tranquilidade e segurança, mesmo sabendo que poderia demorar o dobro do tempo ou até mais nas minhas idas de Lisboa a Évora e vice versa.
Durante o período do serviço militar que cumpri nas cidades de Santarém, Sacavém e Lisboa, por imperativo da ultra frágil situação económica pessoal, o meio de locomoção mais usual era a tradicional boleia (carona), mesmo sendo imprevisível o sucesso e horário de chegada ao destino. Muitas vezes dormi na estrada... Porém, "viciado" que me tornei nas boleias, vez ou outra usava o comboio.
Nas boleias a variedade de personalidades que encontrava era impressionante e, porque assim, gradativamente fui-me formando em psicologia nas verdadeiras estradas da vida. Para todo o tipo de assunto puxado à conversa, eu acabava por vencer a minha natural e exacerbada timidez e surfava, entendido, por uma multiplicidade de temas.
Nos comboios era muito diferente. Não havia pròpriamente a obrigatoriedade ou necessidade de entabular uma conversação com quem quer que fosse. Principalmente por se tratar de uma viagem maçadora e demorada, a maioria dos passageiros cochilava, fingia que dormia ou dormia mesmo, alguns até ao ponto de passar o destino sem acordar...
Para mim a viagem já era aproveitada de maneira diferente. Por ser "chata" para a maioria, sempre havia uma explosão de reclamações, algumas com e outras sem fundamento. Pela vagareza e quando de dia, a paisagem oferecia mil mistérios a desvendar. As paragens nas estações com embarques, desembarques e baldeações, estas últimas sempre na Estação de Casa Branca atendendo passageiros que íam ou vinham do Baixo Alentejo e Algarve, eram um verdadeiro maná de detalhes que eu guardava na cachola e muito me divertiam. Muitos eram militares e os assuntos por eles tratados eram para mim de suma importância, principalmente os que íam ou vinham de Tavira. Claro que isto quando eu também era militar...
A última vez que usei essa linha ferroviária, já lá vão alguns anos, oi numa ida a Portugal e coincidiu com uma greve geral nesse tipo de transporte. A travessia do Tejo num do barcos da CP já foi um pouco conturbada, mas completou-se até ao Barreiro. Ali o embarque no comboio já foi complicado e a partida demorou horas. Em todas as estações ficava parado por tempo sem fim, numa verdadeira afronta aos utentes. Sempre achei que jamais deveria haver greve nos serviços essenciais, apesar das minhas preferências esquerdistas...
Muito bom saber que no momento em que escrevo esta crónica já terá sido inaugurado esse novo serviço ferroviário. Nem preciso dizer que já estou ansioso por embarcar num desses comboios quando agora for a Portugal. Colherei muitos detalhes e imagens para poder colocar aqui depois. Posso até já adiantar que, mesmo ainda não ter conhecido tudo isso, seria uma boa ideia as autoridades estudarem a possibilidade do prolongamento do trecho até à fronteira com a Espanha em Elvas.
Muitas das linhas e belas estações estão desactivadas por esse país afóra. Que maravilha seria este ser um exemplo a seguir, pois ajudaria até na superação da actual e futuras crises. Os transportes mais baratos, seguros e gostosos. Afinal, em toda a Europa sempre foi e é assim.



sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Ontem e hoje

Ano de 1959. Cincoenta e dois anos são passados, mas a lembrança perdura. O meu grande sonho era ser oficial da Marinha de Guerra e, mais tarde, comandante de um qualquer navio mercante ou de passageiros, passaporte para conhecer o Mundo. E nesse ano esse sonho terminou...

Naquele ano eu cursava o 4º do Curso Geral de Comércio e era, como sempre fui, aquele aluno do meio da tabela; aprendia o que ouvia e não perdia horas decorando o que quer que fosse; situava-me, sempre, naquela faixa entre o medíocre + e o suficiente...

Companheiros inseparáveis naquele e nos anos anteriores da Escola, além do Calhau, Raúl Silva, Zé Baião, Constantino Pereira, Correia da Costa, Guilhermino, Chico Garcia, etc., tinha o Gualter Cabral. Este último e eu entrávamos na primeira aula de inglês e a professora, imponente no corpo e na voz disse: “vocês dois estão chumbados! Se quiserem entrar, entrem, mas não adianta”.

Um outro dia tinha Exercício de Contabilidade. Não me lembro o nome da professora; sei que era muito feia, hospedava-se num prédio do Cabido gerido por freiras e tinha um insuportável mau hálito. Eu, que não sabia patavina de Contabilidade, respondi a algumas questões e coloquei na folha a finalizar: “Continúa no próximo folhetim”. Isto dos folhetins estava em moda por causa dos da Emissora Nacional e que eu ouvia alternadamente com os Parodiantes de Lisboa.

O corpo docente reuniu-se extraordinàriamente só para avaliar o meu comportamento e eu lembro-me que fui punido com dois dias de suspensão.

Quando do regresso da punição, coincidiu haver um Exercício de Inglês. Imaginem! Sentei-me na carteira como todos os demais, rapazes e raparigas. Esquecia-me de assinalar que a turma era mista e lembro-me da Edite Garcia, Cristina entre outras. E aí aconteceu que a professora Dona I... chegou do meu lado e disse: “como não sabes merda nenhuma, faz aí uns desenhos iguais aos do Exercício de Contabilidade”. Claro que, como respeitador, cumpri e segui a sugestão... O resultado disto foram 10 dias de suspensão e estava configurada a minha reprovação de ano. Morreram os meus sonhos. No ano seguinte fui trabalhar no meu primeiro emprego em Lisboa e estudar à noite na Escola Dona Maria II, tendo como professor de História o inesquecível Talhante que no ano anterior estava em Évora.

Fui na residência da Dona I..., na Praça do Geraldo naquela época, casa de seus pais para pedir-lhe que reflectisse sobre a questão. O resultado disso foi que, quando eu voltei para as aulas ela disse para toda a classe e na minha presença: “o gajo foi na minha casa ajoelhar-se a meus pés”. Senti, definitivamente, que nada mais era possível.

Naqueles tempos tudo o que relatei se colocava num plano 180 graus oposto em relação à actualidade. Os meus pais nem do ocorrido tiveram conhecimento. Jamais foram chamados à Escola. E imaginem hoje uma professora dizer aos alunos o que me disse a mim. No mínimo apanhava do aluno e era expulsa da Escola...

Na realidade, a Escola era uma verdadeira ditadura. Naqueles Conselhos Docentes os alunos ou responsáveis não participavam e isso, per si, configurava arbitrariedade.

O Director, Guedes do Amaral, que também foi meu professor, era temido por todos nós. No fundo, porém, era boa pessoa. Lembro-me dele alguns anos mais tarde quando frequentemente eu ficava nas estradas pedindo boleia (carona) e várias vezes me abriu a porta do seu carro. Ele tinha um problema nos pés que se agravava ano a ano e lembro-me do seu sofrimento com isso. Foi o único dos docentes que referi aqui nominalmente. Da professora de Contabilidade não me lembro o nome. Da professora de Inglês sei o nome mas não o coloquei aqui por uma questão de ética, pois mesma se suicidou num dos anos da década de 90, possìvelmente por ter a consciência muito pesada.

A vida dá muitas voltas e eu acabei por me formar num curso superior, Administração de Empresas, aqui no Brasil em 1983. Sei que muitos dos meus antigos colegas não seguiram os estudos além do curso secundário e eu fi-lo já com idade avançada. Nas aulas de Ciências Contábeis, neste curso, eu fui sempre o melhor aluno, mesmo não escrevendo o nome das contas e a descrição com o bastardo francês e o cursivo inglês que muito bem aprendi... Quanto a inglês, não gosto. Falo e escrevo fluentemente espanhol e francês, mas fiquei com trauma do inglês... Não fui para a Marinha, mas a viagem que fiz para Timor como militar --- 60 dias de ida e mais 60 de volta de navio --- afagaram o meu ego...

Adios amigos! Au revoir!

quarta-feira, outubro 28, 2009

Desconhecidos

No decorrer das nossas vidas deparamo-nos com certas situações inusitadas que, do mesmo modo que factos de impacto, marcam para sempre. E convivendo com essa memória, que esporàdicamente aflóra, continuamos sem uma explicação plausível.
Nos meus tempos de juventude eu era frequentador assíduo do jardim público e mata anexa, na cidade de Évora. Até hoje não entendi o porquê dessa distinção dos lugares, pois acabava por tudo ser um mesmo espaço físico dentro de um conjunto de muralhas medievais. O jardim ficava aberto até à meia-noite (Verão) e a mata tinha o acesso bloqueado por um guarda depois das 18 horas para coibir excessos no relacionamento dos namorados…
Gostava de frequentar aquele espaço aprazível e tranquilo. Assistia aos concertos da banda militar do Regimento de Infantaria 16, que incluía muitas zarzuelas entre as marchas. Outras vezes retirava um livro da biblioteca sanzonal para o ler sentado num daqueles  bancos de jardim que, apesar de tudo, eram cómodos e anatómicos. Havia, também, os momentos de gaiatice quando fazia uma espécie de forca corrediça, na extremidade de um caule de capim, e ía caçar lagartixas, ou provocávamos um dos guardas --- o Pé de Xarinha, que era um tipo muito chato e carêta e sobre o qual ainda aqui escreverei um dia.
Na escola sempre acabamos por formar um grupo mais homogénio de amigos e o meu resumia-se a quatro elementos. Adávamos sempre juntos para o que désse e viésse. Num espaço de tempo livre entre as aulas ou mesmo na gazeta às mesmas, íamos para o citado jardim que ficava perto da escola, outras vezes íamos nadar no Rio Dgebe; acompanhávamos turistas estrangeiros pelo burgo como cicerones e frequentávamos eventos culturais; jogávamos bilhar no Café Portugal ou matraquilhos na cave do Diana-Bar e Bar do Cachatra.
Eramos ecléticos nas nossas andanças e costumes. Porém, não só por timidez, uma das características de todos do grupo, mas também porque não nos interessava muito essa coisa de amarração, nenhum de nós se preocupou em arrumar uma namorada antes dos dezoito anos.
Claro que muitos dos nossos colegas de escola já namoravam a partir dos doze ou treze e, por isso mesmo, não se misturavam connosco nas actividades extra escolares e os seus gostos e ocupações descambavam para outras órbitas…
Num certo dia, caminhando os quatro da vida airada pelas estradinhas e veredas da mata, cruzámo-nos com o Romero e a Cristina, colegas da escola e namorados desde sempre e para sempre… Cumprimentei-os com um “boa tarde” sonoro, mas não obtive qualquer tipo de resposta.
Gualter, o mais velho de nós quatro, numa espécie de repreensão, disse: “ Ò pá! Não sabes que não se cumprimenta um gajo quando ele está acompanhado da miúda ou vice-versa!?”.
É verdade! eu não sabia disso naquele tempo e, até hoje, não entendo o porquê, pois jamais alguém me explicou…

segunda-feira, agosto 17, 2009

Alentejo e Alentejanos


Palavra mágica que começa no Além e termina no Tejo, o rio da portucalidade. O rio que divide e une Portugal e que, à semelhança do Homem Português, fugiu de Espanha à procura do mar. O Alentejo molda o carácter de um homem. A solidão e a quietude da planície dão-lhe a espiritualidade, a tranquilidade e a paciência de monge; as amplitudes térmicas e a agressividade da charneca dão-lhe a resistência física, a rusticidade, a coragem e o temperamento do guerreiro. Não é alentejano quem quer. Ser alentejano não é um dote, é um dom. Não se nasce alentejano, é-se alentejano.
Portugal nasceu no Norte, mas foi no Alentejo que se fez Homem. Guimarães foi o berço da nacionalidade; Évora o berço do Império Português. Não foi por acaso que D. João II se teve que refugiar em Évora para descobrir o caminho marítimo para a Índia. No meio das montanhas e das serras, um homem tem as vistas curtas; só no coração doAlentejo um homem pode ver ao longe.
Foi preciso Bartolomeu Dias regressar ao reino, depois de dobrar o Cabo das Tormentas, sem conseguir chegar à Índia, para D. João II saber que só o costado de um alentejano conseguiria suportar o peso de um empreendimento daquele vulto. Aquilo que para um homem comum fica muito longe, para um alentejano fica já ali... Para um alentejano não há longe, não há distâncias, porque só ele percebe, infinitamente, que a vida não é uma corrida de resistência onde a tartaruga leva sempre a melhor sobre a lebre.
Foi por esta razão que o sucessor de D. João, D. Manuel I, decidiu entregar a chefia da armada a Vasco da Gama. Mais de dois anos no mar... E, quando regressou, ao ser inquirido se a Índia era longe, Vasco da Gama respondeu: "Não, é já ali.". O fim do mundo, afinal, ficava ao virar da esquina...
Para um alentejano, o caminho faz-se caminhando e só é longe o sítio onde não se chega sem parar de andar. Vasco da Gama limitou-se a continuar a andar de onde Bartolomeu Dias tinha parado. Um dos grandes problemas de Portugal é precisamente este: muios "Bartolomeu Dias" e poucos "Vasco da Gama". Demasiada gente que não consegue terminar o que começa, que desiste quando a glória está perto e o mais difícil já foi feito. Ou seja, muitos portugueses e poucos alentejanos.
D. Nuno Álvares Pereira, aliás, já tinha percebido isso. Caso contrário, não teria partido tão confiante para Aljubarrota. D. Nuno sabia bem que uma batalha não se decide pela quantidade, mas pela qualidade dos combatentes. É certo que o rei de Castela contava com um poderoso exército composto por espanhois e portugueses, mas o Mestre de Avis tinha a vantagem de contar com meia dúzia de alentejanos nas suas fileiras. Não se estranhe, assim, a resposta dele aos seus irmãos quando o tentaram convencer a mudar de campo argumentando da desproporção numérica: "Vocês são muitos? O que é que isso interessa se os alentejanos estão do nosso lado?!".
Mas o alentejanos não servem só as grandes causas, nem servem só para as grandes guerras. Não há como um alentejano para disfrutar plenamente dos mais simples prazeres da vida. Por isso, se diz que Deus fez a mulher para ser a companheira do homem. Mas, depois, teve que fazer os alentejanos para que as mulheres também tivessem algum prazer. Na cama e na mesa, um alentejano nunca tem pressa. Daí a resposta de Eva a Adão quando este, intrigado, lhe perguntou o que é que o alentejano tinha que ele não: "Têm tempo e tu tens pressa.". Quem anda a correr, não chega a lugar algum. E muito menos ao coração de uma mulher. Andar a correr é algo que os alentejanos não fazem. Até porque o Alentejo e os alentejanos fôram feitos no sétimo dia, precisamente aquele que Deus tirou para descansar.
Até nas anedotas os alentejanos revelam a sua diferença humana e intelectual. Os brancos contam anedotas dos pretos; os brasileiros dos portugueses; os franceses dos argelinos... Só os alentejanos as inventam e contam sobre si próprios. E divertem-se imenso, ao mesmo tempo que servem de espelho a quem as ouve. Mas, para que uma pessoa se ria de si própria, não basta ser ridículo, pois ridículos somos todos nós; é necessário ter senso de humor e só isso é um extra disponível nos seres humanos topo de gama.
Não se confunda, no entanto, senso de humor com alarvice. O senso de humor é um dom da inteligência; a alarvice é um tique de gente bronca e mesquinha. Enquanto o alarve se diverte com as desgraças alheias, quem tem senso de humor ri-se de si próprio. Não há honra maior do que ser objecto de uma boa gargalhada. O sentido de humor humaniza as pessoas, enquanto a alarvice as diminui. Se Hitler e Staline se rissem de si próprios, nunca teriam sido as bestas que foram. E as anedotas alentejanas são autênticas pérolas de humor: curtas, incisivas, inteligentes e desconcertantes, revelam um sentido de observação, um sentido crítico e um poder de síntese notáveis.
Como bom alentejano que me prezo de ser, deixei o melhor para o final.
O Alentejo, como todos sabemos, é o único sítio do mundo onde não é castigo uma pessoa ficar a pão e água. A água é aquilo por que todo o alentejano anseia. E o pão... Mas há melhor iguaria do que o pão alentejano? --- o pão alentejano come-se com tudo e com nada; é aperitivo, refeição e sobremesa. É o único pão do mundo que não tem pressa de ser comido... É tão bom no primeiro dia como no dia seguinte ou ao fim de uma semana. Só quem come o pão alentejano está habilitado para entender o mistério da fé. Comê-lo, faz-nos subir ao céu!... É por tudo isto que, sempre que passeio pela charneca numa noite quente de Verão, ou sinto no rosto o frio cortante das manhãs de Inverno, dou graças a Deus por ser alentejano. Que maior bênção um homem poderia almejar?
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Adaptação de um texto de Carlos Barreto

domingo, julho 26, 2009

EMBRAER alentejana

Hoje, finalmente, é lançada a primeira pedra no local onde serão construídas as duas fábricas da Embraer em Évora. A coisa já estava demorando muito a acontecer, o que nos chegou a deixar um tanto ou quanto céticos quanto à realidade do empreendimento.
Serão 570 postos de trabalho directos e mais de mil indirectos previstos pela empresa aeronáutica brasileira, um autêntico combate ao desemprego na região (4,7% da população). Apesar de vir a atender um grande número, do universo em que se englobam todos os que não encontram condições para fixação na região, não deixa de ser uma brisa agradável. A maior dificuldade é a falta de formação específica em aeronáutica por parte dos candidatos, mas isso será solucionado gradativamente. E não se enganem, pois um alentejano tranquilo pode, de repente, voar...

O investimento inicial está orçado em 148 milhões de euros, e as fábricas serão construídas em 40 dos 107 hectares do parque aeronáutico junto ao aeródromo de Évora. Uma será destinada à produção de estruturas metálicas (asas) e outra à produção de materiais compósitos (caudas). Inicialmente, as unidades serão dedicadas ao apoio logístico de jactos executivos construídos pela Embraer.

Como alentejano, filho adoptivo eborense e brasileiro ao mesmo tempo, manifesto uma satisfação muito especial perante o acontecimento. Comi o pão que o diabo amassou nos tempos da minha juventude vivida na região, bem como a maioria dos jóvens do meu tempo. O cenário não teve alterações profundas até hoje, mas talvez isto seja um sinal de novos tempos e que outros grandes empreendedores lancem o seu olhar para a planície alentejana. Os alentejanos corresponderão com a sua natural grandeza.

sexta-feira, maio 22, 2009

Templo de Diana

Templo de Diana em Évora (Portugal)
Como era no tempo dos Romanos, ninguém sabe, ninguém viu...
Depois que foi inventada a fotografia, estas são as suas duas últimas versões