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quarta-feira, junho 02, 2010

A Coroa

Lembra a saga do rei português que foi lutar nas Cruzadas, em 1578, e não voltou -e, como se esperava que voltasse, seus sucessores no trono de Portugal tornaram-se guardiões da coroa, jamais a usando na cabeça. A imagem clássica do nosso dom João 6º ao ser aclamado rei, em 1818, mostra-o com a cabeça nua e a coroa a seu lado.
Assim se referia hoje Ruy Castro a El Rei Dom Sebastião na sua crónica do jornal Folha de S. Paulo.
Não foi isso que eu aprendi na escola e ainda pensei que o cronista, por ser brasileiro, não estivesse tão familiarizado assim com a História de Portugal. Mas logo emendei o meu raciocínio na medida em que, naquela época, o Brasil e Portugal eram um país só e, portanto, com a mesma história…
De imediato procurei na minha biblioteca desde os mais elementares livros de história até aos mais sofisticados calhamaços. Todos batiam na mesma tecla e que se resume mais ou menos ao seguinte:
Após a derrota na tão tristemente famosa Batalha de Alcácer Quibir, no norte de África, D. Sebastião não mais regressou a Portugal. Ficou a lenda sobre que reapareceria num dia de nevoeiro. Foi cognominado, por isso, de “O Desejado”.
Nessa sequência e mercê do governo desastroso do Cardeal D. Henrique “O Casto”, perdemos a nossa independência por 60 anos para os espanhois.
Em 1640 a independência foi restaurada por D. João IV “O Restaurador”. O rei ofereceu a coroa de Portugal a Nossa Senhora da Conceição e, a partir dele, todos se faziam retratar  com a coroa a seu lado e não mais sobre a cabeça.
E agora?

sexta-feira, julho 31, 2009

Crónicas de José Sarney

Segundas e Sextas-Feiras são os meus dias de folga na actividade profissional e, por isso, é quando mais me dedico ao meu singelo blogue mesmo sabendo, de ante mão, que nada mudará no Mundo...
Mesmo sabendo que só uns poucos passam os olhos pelas minhas crónicas, escrevo porque nisso sinto prazer e é uma forma de desabafo que em muito me alivía e, no frigir dos ovos reconheço que não o faço para as paredes.
Às vezes escrevo sobre assuntos sem que a respeito dos mesmos tenha total e sólido conhecimento, mas isso flui mais como uma opinião que, afinal, pode ser ou não contestada. Nesse rumo algumas vezes fui tentado a formular uma pergunta: porque um jornal paga pelas crónicas que a maioria dos seus leitores ignora e, mais, quando escritas por alguém que a sociedade abomina?
Como nunca tive a certeza se esse espaço do jornal é remunerado ou não, contive-me. Mas pergunto: as crónicas que normalmente José Sarney escreve no jornal Folha de S. Paulo são remuneradas? é um bico além das funções de senador?
Se se trata de uma participação remunerada, entendo que o jornal já deveria ter, há muito tempo, cortado essa despesa na sua folha de pagamentos. Se é uma participação gratuita, em nada contribui para a valorização do conteúdo daquele veículo informativo. E aqui não se trata de classsificar o jornal como um espaço democrático, pois isso é outra questão. Resumindo, o certo seria um "Fóra Sarney!", grito que já ecôa por este país afóra.
Sou leitor do jornal em questão há 37 anos. Há quanto tempo José Sarney escreve no mesmo eu não sei. Sei que nunca li mais do que o primeiro parágrafo, além do título, de algumas das suas crónicas semanais, o suficiente para ter uma ideia de que a coisa não tinha interesse. Não tanto por não ir com a cara do sujeito, pois isso já seria preconceito.
Hoje quebrei essa regra. E porquê? --- porque o título "O fim dos direitos individuais" era sugestivo e inteirei-me que, finalmente, a coluna estava sendo usada em sua defesa pessoal num momento já tão conturbado da sua situação de morto-vivo, na qual até o Presidente da República acaba de tirar-lhe o seu desastrado apoio.
Depois de tanto tempo colocando ali as suas opiniões sobre assuntos irrelevantes em relação à actualidade, porque só agora usou o espaço para escrever a certa altura "Como julgar uma democracia em que não se tem lei de responsabilidade da mídia nem direito de resposta....." e outros absurdos que tais? Hoje eu li. Mas não vou ler mais nada do que se vier a publicar, porque é tempo perdido.

domingo, fevereiro 01, 2009

Grilos

Não basta gostar de escrever; tem que ter assunto. E aí é que a porca torce o rabo, pois não é a todo o momento, num estalar de dedos, que o novo assunto aflora em linhas gerais e possa ser desenvolvido depois. Esse é um problema sobre o qual eu já li lamentações até de grandes cronistas. Por isso se nota aqui alguma falta de produtividade de quando em vez...
Num destes dias recebi um pps de uma amiga, pessoa muito querida lá de Minas Gerais e a música de fundo era uma modinha portuguesa, antiga, que falava do gri, gri do grilo no buraquinho. Lembro-me perfeitamente dessa música, entendi o erotismo e gozação da mensagem e, de imediato lhe respondi descrevendo um pouco da arte e costume de apanhar grilos na toca.
Após isso comecei a matutar sobre que o assunto renderia uma crónica. Comecei a escrevê-la directamente neste espaço, decrevendo todo o ritual da apanha dos grilos no campo e do seu aprisionamento nas pequenas gaiolas confeccionadas para o efeito. Embelezava e substanciava mais a prosa, uma série de detalhes vivenciados naquele tempo da minha infância.
Crónica pronta e revisada, faltava a ilustração para a mesma. Como sempre, se eu não tenho a imagem apropriada nos meus arquivos, tento achá-la na internet. Durante a minha navegação fiquei realmente surpreendido com dois detalhes: a única gaiola de grilos igual às que eu comprava ou mesmo confeccionava --- uma tabuinha superior e outra inferior ligadas por um circundação de arames --- não era liberada para cópia da imagem e outras eram de plástico, artefacto muito mais moderno; descobri, também, uma série de crónicas e artigos que versavam o mesmo assunto, havendo até, em alguns casos, muita semelhança com o que eu tinha escrito.
A decepção foi muito grande! Todavia, não tendo publicado o que antes tinha pronto, faço-o agora de outro modo, com a explicação do ocorrido e com a justificativa das minhas gazetas no meu espaço...

sábado, fevereiro 23, 2008

ORO-PRO-NÓBIS

Voltei pra Minas Gerais. Viagem louca e urgente. Quando retornava, na segunda de manhã, comprei um maço de orapornobis já com segundas intenções; faria um franguinho ou uma costelinha de porco do jeito mineiro. Pode se dizer também orapronobis o nome dessa planta encontrada em Minas Gerais ou oro-pro-nobis. Normalmente os galhos da planta viram uma moita.
As coisas se encandeiam quando se trata de mineiros. Cambada de "comi-queto" esse povo das alterosas que fica na moita quando o assunto tende a comprometê-lo. Na roça também, quando mineiro quer desaguar é atrás de uma moita que dá o serviço. Também os mineiros se amoitam quando quer dar "uns pega" na namorada ou no namorado (porque hoje em dia as meninas são tão ou mais assanhadas) pra não serem notados e do "pega" tem nascido muitos mineirinhos temporões. Fala-se que o mineiro vive na moita para dar o bote nos outros e teve até um que vendeu um lote na lua para um carioca na avenida principal.
Estava falando da moita de orapornobis, cujos galhos fincados na terra são espinhentos, mas as folhas são macias de uma textura igual a couve. Escrevi que comprei mas o correto é que consegui com uma dessas conversinhas mole de beira de estrada que a gente vai aprendendo. Encostei a barriga num desses fogões de tijolo cimentado, taipa e chapa quente de uns três metros por três metros de largura, com comida de todo tipo e lasquei o comentário certeiro: Não tem frango com orapornobis? Lógico que já sabia que não tinha. Daí pra segunda pergunta foi um pulo: Cês num tem a planta? Tinham e logo me arranjaram um maço devidamente embrulhado e na sacola. Na hora de pagar a conta do almoço não quiseram cobrar; era brinde da casa. Díficil foi mantê-la verdinha durante o restante do dia e a noite toda até chegar em casa. Imaginem que era segunda e o jantar foi terça de noite. Deu tudo certo. Vim jogando água mineral nela o tempo todo e depois em casa coloquei num desses vasos de cerâmica que parece que revigora as plantinhas.
Mas interessante é que depois do almoço, adiante de Diamantina, terra do presidente JK e dos caminhos do ouro e de diamantes, tinha numa dessas banquinhas de beira de estrada umas mulheres vendendo pequí, fruta do conde e marolo. Não tive dúvida de mandar parar e encostar o carro para dar uma geral. Valeu a pena. Imagine se ia perder de comprar pequí prum arroz tipo goiano (mas feito em todo Brasil) já que tinha conseguido a planta do frango no restaurante. Dei um virada no tempo nessa hora porque quando pequeno (uns oito anos) colhíamos no campo o tal de araticum que chamávamos de urticum ou urticum cagão e outros sitiantes falavam que era marolo, planta que é praga em alguns lugares por ser resistente a seca e ser de cerrado. Mas o cheiro é encantador e o sabor diferente de outras frutas. Acho que é o cheiro de minha infância que senti naquela hora. Lembrei-me do lugar onde colhíamos os marolos numa larga formação de pedra misturada com terra onde não adiantava plantar nada. Só as plantas nativas cresciam insistentemente igual nossas vidas secas naquelas regiões onde o sol um dia nos empurrou expulsando para outras estradas e caminhos.
Mas tinha também umas goiabinhas do campo com cheiro delicioso e sabor doce-azedinho que brotava naquelas terras entre pedregulhos. Cresciam também pés de marmelo cujas frutas nunca mais vi e pitanga que acompanhávamos as frutinhas pequenininhas e verdes, depois amarelas e finalmente vermelho-sol que derretiam na boca quando chegávamos antes dos pássaros.
É bom diferenciar a fruta do conde que veio de Portugal por volta de uns 375 anos trazida pelo Conde de Miranda e plantada na Bahia com o araticum ou marolo que é do nosso cerrado. Acho a pinha ou fruta do conde mais palatável se observar só características de leveza e sabor, mas o marolo é grosseiro, azedo e rústico como nosso povo do mato e de minha origem. No cheiro do marolo e no seu azedume busco meu avô, meus tios e toda aquela gente de chapéu de palha com rostos queimados e enrugados em terra e sol. E mais importante no olhar áspero de meu pai quando ralhava conosco. Nem precisava falar nada. Ali estavam incrustados todos esses cheiros azedados dos nossos dias e aprendizado de moleques de roça.
Mas vieram os pequís e os ramos de orapornobis e fizemos um tremendo jantar. Convoquei meus grandes amigos da hora e da vez e tudo saiu direitinho. Sabia que a Rosa manjava do arroz com pequí por que ela também é sertaneja de bons costado e com conhecimento de causa. Sabe tudo essa grande irmã que me socorre sempre nos apuros da vida. Passou e passa pelas fieiras do conhecimento da vida ralando o corpo e a alma nunha sofreguidão e alegria contagiante. Nos entendemos de muitos séculos porque a vida quis que enveredássemos atalhos semelhantes e próximos. Trocamos figurinhas colando muitas vezes nos mesmos cadernos. A Rosa é catingueira lá da Bahia com couro curtido de sol e muito suor. (Tua bênção minha irmã-comadre Rosa).
Ficou para a Carminha fazer as honras dos convites espalhando a notícia das iguarias de Minas e do jantar anunciado. Importante sempre é que só pessoal da Diretoria (como chamamos) entra nessas listas. Como nossa empresa é grande a gente divide por setores e departamentos. É para ninguém ficar com ciumes por não estar num ou noutro evento. Todos vão tendo vez.
Mas a Carmen coordenou tudo direitinho e de sobra fez o frango ficar delicioso com sua mão de mestra que só não vi fazer cair chuva ainda. Rápida e certeira. No decorrer do dia a Rosa enviou uma receita com fotos e tudo que estava coerente com nossos planejamentos gastronómicos. Deu tudo certo. Quem veio viu e se esbaldou. Quem não veio perdeu uma chance apenas porque inventaremos outros encontros pra jogar mais conversa fora e tomar umas e outras. Que teve inclusive umas pinguinhas que o Eduardo e o Serginho mataram, fóra as caipirinhas da Rosa que já estão ficando famosas.
São assim as coisas. Simples. Frango com arroz.
Orai por nóis!... --- Orapornobis --- Amem .
Autor e colaborador: Marcílio de Freitas

domingo, janeiro 20, 2008

CASA DE POBRE

Foi a maior mancada .O Lalau deu-se tão mal que precisou do S.U.S. Invadiu o barraco do irmão na esperança de recolher algumas hortaliças mas ficou só no susto. Não tinha nem vintém. Deram goela ou chegaram primeiro.

Em vez de mesa tinha um caixote; aliás, um engradado vazio de cerveja faltando duas tábuas. Olhou do lado e viu um pobre vira-lata que nem conseguiu latir de tão magro. Com medo, tentou se levantar para correr e precisou encostar-se na parede para não cair.

Foi no quarto e viu sobre vasto material jornalístico um velho colchão de camping com cobertor rasgado. Ficou desesperado.

Pensou em deixar algo para nobre irmão mas também não tinha. Ouviu umas vozes na cozinha e vislumbrou um velho "três em um" com estações misturadas. Pensou que era uma reunião de malandro falando a linguagem do morro.O radio sintonizava duas emissoras em ondas curtíssimas, junto com uma rádio pirata do morro vizinho.

Tinha também um velho violão sem cordas e poucos traços. Arranhou o arame e não saiu nada. Estava sem os fundos e sem som.

Quanto “misere” em cima de uma criatura de Deus. Pensou em fugir rápido para não se contaminar, mas a janela pela qual havia entrado fechou-se com o vento. Viu uma porta semi -aberta e do lado em vez de fogão tinha uma espiriteira com um caldeirão preto por dentro e por fora. Teve vontade de chorar de tristeza. Foi sair de fininho mas enroscou-se na tramela e a bendita porta tombou sobre ele.

Acordou a palafita de frente e foi um deus nos acuda. Um mais louco puxou de um ferro mandando brasa em toda direção. Jogaram granada, bombas de festim e o bicho.

O malandro se jogou na lama na esperança de safar-se. Era uma podridão dos diabos; esgoto puro de outros cortiços. Ralou peito e cara no mesmo tempo.

Não teve outra saída. Levantou-se, lembrou de um velho refrão e gritou a todo pulmão: PEGA EU QUE SOU LADRÃO!

Marcílio de Freitas
Imagem da Web

domingo, dezembro 30, 2007

TEM GENTE QUE...

Tem gente que se envergonha de um monte de coisas...

Sempre uma interrogação sobre quanto custa; como é feito; como é esse prato; se pode trocar a guarnição; estou perdido; pode me informar o melhor caminho. E outras situações diversas.

Já vi pataquadas de fazer rir e chorar. Amigo meu, que nem vou citar nome, comeu um "engasga-gatos" daqueles, simplesmente por não perguntar que molho era aquele do menu. Pagou caro e não desfrutou do almoço.

Outro ficou perdido em São Paulo e perdeu a hora da entrevista porque não teve a simplicidade de perguntar onde era o prédio daquela empresa. Chegou lá e foi barrado. Atrasado! Isso falando de coisas simples.

Tem gente que perde a grande oportunidade da vida por falta de ousadia. De fazer o que poucos fazem e se dão bem. Depois ficam reclamando que Deus não ajuda. Que não tem sorte. Que não tiveram chances e outras ladainhas e terços rezados e cantados.

Outro dia saquei um cara de fazer dó de tão feio que o coitado aparentava. Mas estava com uma moça linda, de parar o trânsito, no maior pega. E não tinha pinta de caixa alta não. Li um estudo de uma revista que são comuns esses casos. Simplesmente o sujeito é ousado e ataca as criaturas e se dá bem. É um bom papo, um bom sujeito, uma formação diferente; algo que encanta de primeira e vai ficando.

Tem um outro tanto de pessoas que falam que estão na pior porque não tiveram oportunidade de estudar. Quando? Na infância? Porque os pais não puderam pagar? Tudo balela. Quem quer faz. Quem se habilita consegue. Hoje existem oportunidades infinitas

.

Gente que fica reclamando e ainda por cima com sequelas psicológicas. Muitos com inveja, inseguranças, desqualificados para a vida te batendo olho gordo. Malucos que secam pimenteiras. Uma energia complicada que ninguém aguenta meia hora de prosa. E os que ficam esperando milagres da vida? Gente que não dá o primeiro passo? Culpam os amigos, os irmãos, os pais e depois os filhos.

Pessoas que viveram a vida toda de subempregos, casas alugadas, carros velhos caindo os pedaços, nunca fizeram uma viagem de lazer; enfim, não desfrutaram a vida.

Está cheio de pessoas assim. Esperando, esperando... Esperando que alguém ofereça o bilhete premiado. Ou o bilhete numerado com direito a paisagem da janela rumo a Passárgada. Esperando a sorte que não chega. Esperando o grande amor. Esperando o emprego dos sonhos. E pior, sonhando com tudo isso.

Nos dias de hoje é bom que se proteja; como na antiga canção do Ivan Lins. Não a proteção de Deus que existe de todo e sempre e quase ninguém entende!... Mas a proteção da alegria, do bom humor, da boa formação, da fé baseada no conhecimento, do bom ânimo e, sobretudo, a proteção das virtudes desenvolvidas quando se troca informação uns com outros. Trocas de experiências.

Como dizem os especialistas: o tempo urge. Não existe vaga grátis na garagem. Almoço na aba dos que usam chapéu já era. Aliás; até a cachaça que qualquer um oferecia nos botequins ficou escassa. Poucos fazem aquele gesto de levantar o copo em sua direção compartilhando o gole ou mesmo por educação. Fica então o velho refrão: Nada é de graça; nem o pão e nem a cachaça.

Portanto, hoje em dia temos que aprender o caminho das pedras. Saber pelo menos o endereço do alambique. Ou que em qual esquina existe uma padaria. Comer um pão ou tomar um trago?

É bom que se proteja!...

Crónica de Marcílio C. Freitas

Adaptação autorizada