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segunda-feira, abril 06, 2009

Caligrafia

Um dos meus netos, o que mais fica na minha casa e o que mais comigo convive, vai fazer nove anos no mês que vem. Até aí nada de mais, como nada de especial ele ser um óptimo aluno na escola em todas as matérias. Muitos outros da sua idade assim são também e não me refiro a ele pela óptica do avô coruja...
O que realmente sobressai nele que muito me despertou a atenção e, consequentemente, me levou a incentivá-lo sobremaneira, é a bela caligrafia. Isso é muito raro nos dias de hoje e a cada dia que passa será pior mercê de vários factores que para isso contribuiem, principalmente o desinteresse pela escrita e a imperatividade do computador.
Nós, os mais velhos, temos um certo orgulho quando escrevemos algo manualmente com aquela letra bonita e decifrável. Na escola primária do meu tempo tinhamos um tinteiro na carteira e tudo tinhamos que escrever com uma caneta de pau com um aparo de cursivo, pois era a maneira de ir desenhando as letras. Mais tarde, no ensino secundário, a disciplina de Caligrafia fazia parte do currículo e aprendíamos o cursivo inglês, o bastardinho francês e o gótico. Essa arte, como a natação e o ciclismo, jamais se esquece. A caligrafia da escola foi assimilada na escrita normal e corrida, com uma ou outra variante, mas sempre mantendo o estilo básico. Manifestei sempre o interesse de passar isso ao meu neto e fico feliz por ver nele um dos que contribuiem para que o interesse pela escrita racional continue e não se perca na onda dos modismos.

domingo, dezembro 30, 2007

PRAZER DA ESCRITA

Nestes últimos dias do ano não fui muito assíduo na minha página; quase nada escrevi aqui. São momentos que me impelem para outras ocupações, mesmo que algumas delas não me transmitam o mesmo prazer que tenho quando escrevo. Este, aliás, o prazer maior em toda a minha vida, em tudo o que faço.

A maioria das matérias, dos assuntos, tem origem em acontecimentos do dia a dia e que trago para aqui sob a minha óptica e numa crítica muito pessoal. Todavia, vezes há que considero esse campo saturado e aborrecido e casualmente enveredo por substituí-lo com alguma crónica de cunho pessoal. Reconheço, também, que essas histórias pessoais poderão não ser interessantes para os meus leitores, mas são muitas vezes um desabafo e uma abertura ao compartilhamento.

O gosto pela escrita e as histórias pessoais. Eis aqui os ingredientes certos para o “prato” a ser servido hoje. Deveria ter abordado este assunto no passado dia 9, data marcante para o mesmo, mas passou...

Naquela noite de 8 de Dezembro de 1967 lá estava eu e um grupo de amigos entrando na alfaiataria do Baiôa. Porta entreaberta, uma olhada em redor para certificação de que ninguém estava vendo e, um a um, íamos entrando. Nenhum de nós ia tirar medidas para a confecção de um fato (terno) e nem àquela hora o estabelecimento estava em funcionamento; íamos todos para mais uma jogatina de cartas, o célebre “abafa”, um jogo de azar proibido...

Começou o jogo. Ganhando uma rodada, perdendo outra, foi-se desenrolando a tarefa com a intercalação de uma piadinha aqui, outra ali, enfim. Apesar de o jogo ser a dinheiro grosso, não deixava de ser uma reunião agradável de amigos.

Perto dali estava a igreja de Santo Antão dividindo a imponência com a Fonte Henriquina, mas aquela sobressaindo mais quando o relógio dava as suas badaladas a cada quarto de hora. Assim, a passagem do dia 8 para o dia 9 foi anunciada com as doze badaladas da praxe. Nesse exacto momento elevei o tom de voz e pedi para que se parasse o jogo. Todos me olharam surpreendidos querendo saber o porquê da minha atitude. Foi então que eu proferi as seguintes palavras: “Meus amigos! Enquanto escutava o bater da meia-noite os meus pensamentos voaram para muito longe daqui e por lá ficaram durante alguns instantes. Neste dia, estar-se-á realizando o meu casamento!”.

Naturalmente que todos ficaram estupefactos e não era para menos... Na verdade, um relacionamento de oito anos através da troca de correspondência entre eu e uma amiga brasileira, que nunca tinha conhecido pessoalmente, estava tendo o seu ápice com o nosso casamento por procuração. De algum modo tinha que haver uma comemoração naquele momento. Providenciámos uma garrafa de vinho do Porto e todos brindámos...

Hoje os meios são outros, principalmente a Internet, mas atingem-se fins idênticos. Sempre gostei de escrever, como já citei, e naquele tempo --- década de 60 --- a essa arte eu me dedicava de alma e coração. Era um escape para a minha timidez; era a maneira que encontrara para me relacionar com as moças da minha idade. Na escrita eu dizia tudo o que pensava sem entraves e engasgos. Estava integrado num universo amplo, pois tinha correspondentes em muitos países. Hoje vivo no Brasil...