Hoje vou abordar um assunto melindroso. Melindroso em relação à mentalidade de alguns. Passei parte do dia com o pensamento direccionado para a questão e, porque assim, achei que deveria abordá-la aqui neste meu espaço que é, afinal, o lugar onde me posso exprimir livremente e espernear o quanto a tal me obrigam...
Antes do mais, ilustrarei esta crónica com algumas passagens nas quais fui protagonista o que, por si só, me dá autoridade e liberdade para a escrever.
1) Nos idos de 1992 fui representante comercial em Portugal e viajava muito pelo meu Alentejo. Um belo dia, argumentando e tentando vender produtos da linha que representava, senti muitas dificuldades e pressenti que o meu presumível cliente me estava discriminando só porque o meu sotaque abrasileirava o meu "português", do mesmo modo que aqui no Brasil aportuguesa o meu "brasileiro"... Então, deduzi que ele não gostava de brasileiros. Sem querer substimar os brasileiros, a certa altura, quando senti que não conseguiria nada ali, chamei o indivíduo mais perto de mim, mostrei-lhe o meu Bilhete de Identidade português e disse-lhe: "O senhor é um filho da puta de um xenófobo, um racista! Eu nasci aqui nesta mesma cidade e há muito mais tempo! Não sou brasileiro, como pensa e, se por acaso o fôsse, com a mesma veemência o repreenderia quanto ao seu comportamento porco e imundo. O senhor é um filho da puta!"
2) Há uns cinco anos atrás estava eu num dos bares que costumo frequentar e do qual era freguês há muito tempo. A certa altura a TV estava mostrando passagens da Copa de 1966 na qual Portugal se classificou em 3º lugar, tendo ganho do Brasil num dos jogos que disputou. Comentando com um dos meus amigos sobre o evento e num tom saudável de brincadeira, disse eu que naquele tempo nós eramos muito melhores que o Brasil. Foi o estopim para que o dono do bar me abordasse com uma pergunta que já ouvi muitas vezes de outros seres inteligentes como ele: "Você cospe no prato em que come! Porque não vai para a sua terra?".
Costumo ouvir algo parecido quando, rebatendo uma piada de português que me contam, conto uma piada de brasileiro...
3) Ontem recebi na minha caixa de e-mails um anexo que exibia vídeo com pronunciamento do conhecido jornalista brasileiro Olavo de Carvalho, em que este fazia críticas contundentes à classe política, chegando mesmo a usar de linguagem chula. Fortíssimo! Encaminhei-o a todos os amigos que constam da minha lista, como costumo fazer com muitos outros que recebo e que abordam os mais variados assuntos.
Em resposta, recebi hoje um e-mail de um amigo, que não é virtual. É amigo há mais de 30 anos. Será mesmo?... Diz ele o seguinte: "oi portugues voce e meu amigo , mais nunca mais passa qualquer coisa sobre o que refere ao governo Lula, porque não tem o direito de depreciar , que não e´ o seu Pais no qual gostamos muito , e não esqueça eu sou BUGRINO.... um abraço .... afratopiza....". (sic). Exactamente como escreveu eu transcrevi...
Teria muito mais o que aqui escrever a respeito deste assunto, referindo-me tão sòmente a casos comigo passados. Nem precisaria recorrer a outros que me relataram.
Aqueles que me dão a honra de passar por este meu espaço e que teem a paciência de ler o que escrevo, decerto que já deduziram sobre a mentalidade dos três protagonistas que comigo se relacionaram. A análise a vós pertence. Eu abstenho-me...
Poderei acrescentar só mais o seguinte: Vivi em Portugal 27 anos; vivo no Brasil há 35. Ao abrigo do Acordo Internacional de 1972, assinado pelo então Presidente Médici (Brasil) e Américo Thomaz (Portugal), adquiri em 1990 a "Igualdade de Direitos e Deveres", status que me libera da naturalização e me deu um RG (documento de identidade brasileiro). Sou igual a qualquer cidadão brasileiro; posso votar e ser votado aqui. Porém, perdi os direitos políticos em Portugal, sem deixar de ser português.
Estou consciente que o meu dia está estragado. Não obstante, vou trabalhar, apesar de ser feriado, e emitirei as devidas notas fiscais das minhas vendas. Tudo certinho como sempre! Tenho a certeza que contribuo com amor e honestidade para o desenvolvimento deste País que me acolheu!