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quinta-feira, junho 18, 2009

Ilhas Malvinas ou Falklands

À primeira vista é um caso ultrapassado. Não consta da agenda das diplomacias envolvidas com relação a datas próximas. Não quer dizer que, mais tarde ou mais cêdo, não se venha a incluir numa pauta de conversações bilaterais, sem recurso a medidas drásticas e irracionais como as de antanho na década de 80.
Lògicamente que a minha crónica de hoje não vai abordar especìficamente o problema das Ilhas, pois seria descabido. Mas mantenho o título --- um dos que excepcionalmente coloquei antes de organizar as ideias e escrever o texto. Por isso, esta minha introdução explicativa... Só falta explicar o porquê da minha navegação nestes mares, mas isso surgiu mercê dos últimos contactos com os velhos camaradas de Faculdade (que continuam), visando o nosso Encontro-Almoço de Julho próximo. O momento veio trazer à tona essas lembranças e, mais ainda, porque fui cutucado...
Naquele ano de 1982, entre Abril e Junho, período da duração da Guerra das Malvinas ou Falkland War, era frequente comentar-se a respeito nas aulas de Técnicas de Vendas, do curso de Administração de Empresas. Numa Faculdade é perfeitamente normal haver abordagens a assuntos extra curriculares pois que, afinal, tudo concorre para uma melhor formação dos alunos e até dos professores...
O assunto em questão era apaixonante e, naturalmente, gerou correntes diversas de opinião, umas a favor e outras contra, no âmbito geral. Eu era declaradamente a favor dos britânicos, atitude raríssima na medida em que sempre critiquei e continúo a criticá-los por causa das muitas arbitrariedades em que se envolvem. A minha virada de casaca, nessa altura, devia-se a outros componentes.
Sempre fui uma pessoa muito tímida e continúo sendo. Porém, numa roda de amigos eu consigo vencer algumas barreiras e sei que transmito uma imagem diferente; inconscientemente uma imagem virtual. Assim, sobressaía-me na exteriorização das minhas ideias e opiniões e isso levou o professor a mobilizar-me para um debate em sala de aula e com dia marcado, mesmo perante a minha contrariedade.
O meu oponente era um colega que se sentava numa das carteiras do fundão (cujo nome não me vinha à memória, mas fui agora informado que se chama Osni) e acirrado admirador dos argentinos e sua posição na disputa das Ilhas. Aliás, a sua postura era de declarada admiração dos regimes de então no Cone Sul.
Certa altura, durante os meus estudos na escola secundária em Portugal, fiquei escalado para uma palestra na aula de História. Era sobre os 500 anos das Descobertas. Lembro-me que passei muitas horas na Biblioteca de Évora folheando calhamaços e, com isso, adquiri conhecimentos importantes. Nessa linha de estudo e pesquisa mergulhei em tudo o que se relacionava com as Malvinas no campo da história. E esse era, cria eu, o meu grande trunfo no futuro debate. A par disso, recortava todos os dias dos jornais o que se publicava sobre a guerra e montei um dossier. Estava muito confiante na minha performance...
Uns dias antes do programado debate, numa das habituais conversas com o meu amigo Marcos, aluno do curso de Economia, abordámos o assunto. Tracei um esboço do meu trabalho e, de pronto, ele me aconselhou a rever o que eu pensava incluir (nada mais, nada menos, que uma abordagem política). E, porquê? --- perguntei-lhe. A resposta foi clara e incisiva: atacar a ditadura argentina era como se atacasse a brasileira; isso publicamente e ainda por cima vindo de um estrangeiro-residente, erra barra pesada.
Pensei muito a respeito e cheguei à conclusão que era mais prudente não enveredar por esse caminho. Pensei, sobretudo, na minha família. Assim, no dia do debate e antes de entrar na sala de aula, procurei o professor e pedi-lhe que anulasse ou adiasse o evento. A resposta foi negativa!
Entrei na sala nervoso. Notei que estava cheia e havia convidados. Alguns colegas levaram as esposas para assistir. O acto revestia-se de muita importância.
O primeiro a ser chamado para falar foi o meu oponente. Quando ele começou a dissertar sobre a parte histórica, notei que estava ali quase tudo o que eu pesquisara e isso já me iria reduzir a munição. E não passou disso --- só história.
Chegou a minha vez. Cheguei lá na frente e as palavras não saíam. E não saíram. Apercebia-me do ridículo da minha postura e isso me enterrava mais. Nunca tive o dom de falar em público para uma plateia assistente e, além disso, como um pássaro, as asas já me tinham cortado e eu não poderia voar.
Voltei para o meu lugar cabisbaixo e sujeitei-me a ouvir um monte de impropérios vociferados pelo mestre. Lembro-me que o já falecido colega Duarte dissera naquele momento: "eu era a favor da tese pró ingleses, mas mudei de lado"; o Schmidt segredou-me: " estou estranhando você! um cara que andou nas guerras de África não reage?!". Até hoje eu carrego esse peso na consciência. Porém, publicando isso tudo aqui hoje, sinto-me um pouco mais aliviado. Quem sabe, até, se compreendido?