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terça-feira, maio 12, 2009

Alentejanices em 1934

Ao Excelentíssimo Senhor Ministro da Agricultura
Exposição
Porque julgãmos digna de registo a nossa exposição, Senhor Ministro, erguêmos até vós, humildemente, uma toada uníssona e plangente em que evitámos o menór deslise e em que dãmos razão da nossa crise.
Senhor! Em vão, esta província inteira, desmoita, lavra, atalha a sementeira, suando até á fralda da camisa.
Falta a matéria orgãnica precisa na terra, que é delgada e sempre fraca. _ A matéria em questão, chama-se cáca.
Precisamos de merda, senhor Soisa! E nunca precisámos de outra coisa.
Se os membros desse ilustre Ministério querem tomar o nosso caso a sério, se é nobre o sentimento que os anima, mandem-nos cagar toda a gente em cima dos maninhos torrões de cada herdade. E mijem-nos, também , por caridade!
O senhor Oliveira Salazar quando tiver vontade de cagar venha até nós!...
Solícito, calado, busque um terreno que estiver lavrado e,... como Presidente do Conselho, queira espremêr-se até ficar vermelho!
A Nação confiou-lhe os seus destinos?... Então, comprima, aperte os intestinos; se lhe escapar um traque, não se importe,... quem sabe se o cheirá-lo nos dá sorte? Quantos porão as suas esperanças num traque do Ministro das Finanças?... E quem vivêr aflicto, sem recursos, já não ditingue os traques dos discursos.
Não precisa falar! Tenha a certeza que a nossa maior fonte de riqueza, desde as grandes herdades às courelas, provém da merda que juntármos nelas.
Precisamos de merda, senhor Soisa!
E nunca precisámos de outra coisa.
...Adubos de potassa?... Cal?!... Azote!?!... Tragam-nos merda pura do bispote! E todos os penicos portuguêses durante, pelo menos, uns seis mêses, sobre o montado, sobre a terra campa, continuamente nos despejem trampa!
Terras alentejanas, terras núas, desespêro de arados e charrúas, quem as compra ou arrenda ou quem as herda, sente a paixão nostálgica da merda...
Precisamos de merda, senhor Soisa! E nunca precisámos de outra coisa.
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Ah!... Merda grossa e fina! Merda bôa das inúteis retretes de Lisbôa!... Como é triste saber que todos vós andais cagando sem pensar em nós!
Se querem fomentar a agricultura, mandem vir muita gente com soltura. Nós daremos o trigo em larga escala, pois até nos faz conta a merda rala.
Venham todas as merdas, à vontade, não faremos questão da qualidade. Fórmas normais ou fórmas exquisitas! E, desde o cagalhão às caganitas, desde a pequena pôia à grande bósta, de tudo o que vier, a gente gosta.
Precisamos de merda, senhor Soisa! E nunca precisámos de outra coisa.
Évora, 13 de Fevereiro de 1934
Pela Junta Corporativa dos Sindicatos Reunidos do Norte, Centro e Sul do Alentejo
O Presidente
Dom Tancredo (o Lavrador)

segunda-feira, abril 06, 2009

Caligrafia

Um dos meus netos, o que mais fica na minha casa e o que mais comigo convive, vai fazer nove anos no mês que vem. Até aí nada de mais, como nada de especial ele ser um óptimo aluno na escola em todas as matérias. Muitos outros da sua idade assim são também e não me refiro a ele pela óptica do avô coruja...
O que realmente sobressai nele que muito me despertou a atenção e, consequentemente, me levou a incentivá-lo sobremaneira, é a bela caligrafia. Isso é muito raro nos dias de hoje e a cada dia que passa será pior mercê de vários factores que para isso contribuiem, principalmente o desinteresse pela escrita e a imperatividade do computador.
Nós, os mais velhos, temos um certo orgulho quando escrevemos algo manualmente com aquela letra bonita e decifrável. Na escola primária do meu tempo tinhamos um tinteiro na carteira e tudo tinhamos que escrever com uma caneta de pau com um aparo de cursivo, pois era a maneira de ir desenhando as letras. Mais tarde, no ensino secundário, a disciplina de Caligrafia fazia parte do currículo e aprendíamos o cursivo inglês, o bastardinho francês e o gótico. Essa arte, como a natação e o ciclismo, jamais se esquece. A caligrafia da escola foi assimilada na escrita normal e corrida, com uma ou outra variante, mas sempre mantendo o estilo básico. Manifestei sempre o interesse de passar isso ao meu neto e fico feliz por ver nele um dos que contribuiem para que o interesse pela escrita racional continue e não se perca na onda dos modismos.