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quarta-feira, abril 25, 2012

O Cravo Vermelho

Em todo o Brasil, em qualquer lugar público, um cara com um cravo vermelho na lapela é algo meio ou até muito estranho. Muito estranho!... Alguns podem até pensar que se trata de um viado (paneleiro) ou um daqueles velhos que costumam enbonecar-se, enfeitar-se com uma flor e ir para algum baile da saudade...
Mas foi assim que hoje eu fui trabalhar na feira. Providenciei um cravo vermelho na florista e, acreditem, foram-me oferecidos três --- 2 vermelhos e um branco --- dos quais nada me foi cobrado não sei porquê, pois não informei da finalidade da aquisição.
Porque ali tenho muitos amigos ou simplesmente conhecidos, fui alvo de muita xacota, mas tudo numa brincadeira saudável e dentro dos limites que cada um usufrui na gozação. Claro que não perdi tempo para a um por um explicar o motivo ou significado do meu gesto. Confesso que expliquei a três ou quatro que eu sabia que tinham a inteligência desenvolvida para a captação, destrinche e assimilação da informação. Esses esboçaram um gesto de aprovação e admiração.
Não me cruzei com nenhum patrício, pelo menos que eu soubesse que o era, mas a grande maioria dos portugueses residentes no Brasil, mesmo que saibam que é feriado em Portugal, se é que sabem, desconhecem a simbologia de actos como o meu...
Posso informar a todos que a cada ano que passa, eu de algum modo assinalo a efeméride e o faço com grande espírito de patriotismo e alma alentejana. O Alentejo está arreigado nisso até às mais profundas raízes.
A todos os que estão imbuídos do espírito original da Revolução dos Cravos, um grande abraço.
Aos que já se fôram e que do grande feito foram artífices e participantes, o eterno respeito e contemplação.

terça-feira, abril 24, 2012

Abril em Portugal

Parece incrível, mas é verdade que eu jamais passei um 25 de Abril em Portugal, depois de 1972. Naturalmente que senti muito não estar presente em 1974, mas comemorei o feito intensamente aqui no Brasil e por isso alguns me olhavam de soslaio. Coisas das ditaduras...
Da mesma maneira que esses cravos vermelhos abraçam a nossa bandeira, eu abraço todos os meus camaradas e amigos portugueses. Ainda acredito num novo 25 de Abril no rumo traçado originalmente. Palavra de Alentejano!

domingo, março 11, 2012

Herois Esquecidos

No passado dia 29 de Fevereiro faleceu em Odivelas (Portugal) o sr. José Aldeia Soares, que teria entre 65 a 67 anos. Não consegui obter a sua data de nascimento mas, pela época que entrou no exército, enquadro-o na minha faixa etária que é essa.
Afinal, quem foi José Aldeia Soares? --- Ele foi um soldado de Cavalaria mobilizado para cumprir uma comissão de dois anos na então Província Ultramarina da Guiné.
A Companhia de Cavalaria 1748 a que pertencia, embarcou para a Guiné em 20 de Julho de 1967 onde chegou no dia 25, ficando instalada em Bissau, com a missão de protecção e segurança das instalações e das populações da área.
Entre 12 e 20 de Setembro desse ano, escalonadamente, seguiu para Bula, afim de efectuar o treino operacional, tomando parte de patrulhamentos, emboscadas e batidas nas regiões de Inquida, Quitamo, Blequisse e Bofe, recolhendo a Bissau em 6 de Outubro de 1967. 
Em 8 desse mês a companhia assume a responsabilidade pelo subsector de Contubuel, destacando pelotões para Sare Bacar e Sumbungo, sendo este deslocado para Geba e posteriormente para Dulo-Gengele. 
Em 18 de Fevereiro de 1969 a subunidade é rendida, fica transitoriamente em Bissau e segue mais tarde para Farim, onde assume a responsabilidade deste subsector, integrado no dipositivo do Comando Operacional nº 3, até 1 de Julho de 1969. Regressa à Metrópole em 7 de Junho desse mesmo ano.
Na foto aqui publicada, José está à nossa direita e a seu lado o seu irmão António que foi combatente em Angola.
Gostaria de ter uma foto dos dois, daquele tempo em que foram valorosos soldados, mas não consegui e acredito que seja uma tarefa muito difícil. Cavalaria, por exemplo, era uma Arma de elite e à qual eu também pertenci. O José certamente que estaria imponente e galhardo numa foto contemporãnea. Infelizmente, a exemplo de outros meios de comunicação, a foto disponível é esta e mostra uma terrível realidade --- a dos Antigos Combatentes Sem-Abrigo.
São algumas centenas de camaradas que preambulam por esse país fóra (Portugal) ou que vivem em praças e jardins ou sob as marquizes dos prédios. Encontramo-los fàcilmente. Se um indivíduo nessa condição aparentar ser sexagenário, podemos ter a certeza de que se trata de um antigo combatente que acreditou estar defendendo o território pátrio num qualquer dos 5 continentes... Ninguém escapava a uma dessas missões.
Os sucessivos governos jamais se preocuparam em providenciar os vários tipos de assistência a que esses antigos soldados têm direito e de muito precisam. Uma "pensão de guerra" deveria ser atribuída a cada um de todos nós que démos 4 anos das nossas vidas no serviço militar com todas as consequências pessoais negativas. Uma assistência médica gabaritada e constante, principalmente aos traumatizados, seria mais importante ainda. Infelizmente não temos nada disso e mostraram essa realidade estes dois irmãos da foto.
Num apêndice, lembro aqui que muitas vezes, na minha idade de criança, via andar pelas ruas de Estremoz um senhor mal cuidado a que todos chamavam de "gaseado". Era como uma alcunha e a maioria, como eu, não fazia a mínima ideia do porquê da mesma. Anos mais tarde, juntando todas as peças, descobri que aquele senhor fôra um dos soldados portugueses que combateram na França e, devido às bombas de gás ficou gaseado. Vê-se aqui a ausência da devida assistência por parte do governo de antanho e leva-nos a confirmar que todos fôram e continúam sendo omissos. 
Agora o António continúa sózinho lá em Odivelas aguardando o momento de se juntar nòvamente ao seu irmão José.
Quem sabe se um dia um governo decente olha para essas mazelas e imita os de outros países que também tiveram as suas guerras e tratam os seus antigos combatentes como herois e com dignidade.
Um grande abraço ao camarada José Aldeia Soares com o desejo que, finalmente, descanse em paz. 

quinta-feira, novembro 03, 2011

Crise Portuguesa

Crise? --- Tá bem, ò parente!
Estou aqui na terrinha há quase um mês e, adicionando no prato da balança os conhecimentos teóricos da informação que trouxe com o que tenho vivido no local, o fiel indica para a ignorância, estupidez, erros macro e micro económicos, comodismo e uma enchente de adjectivos mais. Este é um país que poderia ter uma situação análoga à Suissa, Luxemburgo e outros pequenos que sempre estão na crista da onda quanto a estabilidade e níveis de cultura e vida dos seus cidadãos.
Tenho necessidade premente de uso de um carro para as minhas deslocações a outros pontos do país, pois é mais viável que estar dependendo de autocarros ou comboios com tudo o que os horários atrapalham no desajuste e as hospedagens que poderão ser evitadas. Assim, tentei alugar um carro pela internet e achei o mais barato oferecido por 130 Euros por 13 dias na Eurocar. Isso daria 10 paus por dia. Tentei fechar a reserva antecipada, mas não obtive êxito porque o meu cartão é de débito e só aceitam de crédito...
No dia seguinte dirigi-me à loja de rent a car referida, na agência local de Évora. Aí recebi o primeiro baque ao ser informado que na internet o aluguer custaria os referidos 130 Euros, e que o preço passaria para 450. Porra! É mais que o triplo. Uma justificativa para isso a funcionária não me soube dar. E foi confirmado que, mesmo que eu aceitasse pelo novo preço fóra da internet, só com cartão de crédito. E nem com dinheiro vivo e caução extra... Não houve negócio e eu continuei a pé.
Há duas semanas atrás, ao passear pelo Rossio de Estremoz, notei que um grupo grande de turistas se dirigiu a uma daquelas tendas que vendem artesanato, principalmente artigos de barro. Não tinha ninguém para atendê-los, mesmo eles tendo rodeado o local e ali terem gasto 2 ou 3 minutos. Retiraram-se! Depois é que a proprietária do local abriu a porta do carro, onde estava refastelada num banco, saíu para fóra, bocejou, se espreguiçou e voltou a dormir a sesta.
Hoje voltei ao Mercado de Évora e lá fui comprar umas frutas. Claro que não me dirigi àquele box onde na passada semana fui mal tratado, caso que relatei aqui numa crónica.
Estes são pequenos exemplos de coisas que estão erradas por aqui e que certamente se verificam por todo o país. Imagine-se o estrago que é, junto com o que os sucessivos governos pós 25 de Abril por aqui plantaram.

segunda-feira, maio 23, 2011

Eleições em Portugal

Recebi há este envelope pelo Correio hoje. Abri, vi que era o formulário e o envelope para votação nas próximas eleições portuguesas para a Assembléia da República. Porém, estou até agora a pensar no que realmente deva fazer com esses papeis, pois não vejo um candidato ou um Partido em que possa depositar a minha confiança. Que situação! Eu sei que uma andorinha não faz a Primavera, mas acredito que deverão existir muitas andorinhas no meu bando...
Hoje ainda e durante dois ou três dias, trocarei idéias com alguns dos meus amigos em Portugal. Vou usar o Skype, MSN e outros meios de comunicação rápida.
Não quero que se repita em Portugal o que aconteceu na Espanha onde a esquerda era confiável e, mesmo assim, deram uma guinada vertiginosa à direita. Claro que sei que a esquerda, ou mais exactamente o PS, em Portugal deixa muito a desejar mas, votar na direita vai ser pior a emenda que o soneto. Aguardo mais um pouco...

quinta-feira, julho 15, 2010

Séca-Pimenteiro

Revolta-me, cada vez mais, do mesmo modo que ao Ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, essa ingerência do governo israelita nos assuntos dos demais países. Se são os brasileiros que trocam visitas com os iranianos, eles chiam; agora que os chanceleres português e iraniano se encontram em Portugal, mais chiadeira.
Acho que eles se julgam senhores do Mundo. Mas deixa que a capa americana não os acoberte mais e veremos para onde irá essa nojenta arrogância.

sexta-feira, maio 14, 2010

Meia volta, volver!

Não só uma, mas várias vezes, ouvi a sentença sobre que Portugal deixou de ser um país pobre e atrasado e, passando a fazer parte da U. E. e totalmente integrado, é hoje moderno e desenvolvido.
Como sempre fui um eurocéptico, o que aqui escrevo é tendencioso para essa vertente, como tudo tenderá a circunscrever-se na minha linha de pensamento e formação.
Nunca entendi como fruto do desenvolvimento a guinada que os portugueses deram na sua vida e comportamento. Tudo mais fino, todos viajando além fronteiras nas férias de cada ano, carro novo, descarte de bens recuperáveis, etc. etc..
Entrou muito dinheiro fácil. Injecções cavalares de dinheiro. De Bruxelas vinha a ordem para arrancar todas as oliveiras de determinada região ou as videiras de outra e assim, deitado na sombra e com água frêsca do lado, o indivíduo não produzia nada e ganhava bem para isso.
No sector público a coisa virou um mar de rosas. Sei que os maiores aproveitadores fôram os caciques, como sempre, mas a galera também se promoveu bem.
Essa bola foi aumentando, mas de modo a que o núcleo jamais tenha sido preenchido. Assim, aumentou também o vazio interno, o ôco, juntamente com a capa que, lògicamente, afinava na espessura. Tudo propício a um grande estouro. Aguardemos.
Na aderência a essa nova civilização, dita moderna e desenvolvida, fôram querendo nos tirar quase tudo aquilo que de melhor e identificado com a nossa cultura tínhamos. Pequenas coisas, muitas delas, mas a nossa cara e a nossa raiz.
A integração na zona do euro foi uma verdadeira arapuca; um tipo de colete de forças. Não tendo um sector produtivo à altura dos demais, os fortes, e com uma dívida pública sempre em expansão, tudo sob uma moeda forte que não nos dá chance de desvalorização para regularização da ecomomia, o rastilho foi acêso e só resta esperar o bum da bomba.
Acreditem que eu gosto quando a nós, do sul de Portugal ,nos chamam de mouros. E relançando o olhar por esse sul, Gibraltar, Mediterrâneo, creio, como sempre acreditei, que somos como líquido não miscível em vasos comunicantes: ou ficamos por cima ou por baixo; nada de misturas…
Acredito que ainda um dia voltemos aos antigamentes. Comer aquele petisquinho regional no balcão da taberna, matar um porquinho no quintal de casa.
Não somos super industrializados, mas poderemos auferir de muitos lucros nas nossas artes, côres e sabores; emprestemos, até mesmo, muitos dos nossos crânios aos grandes industriais. Tudo isso e desse modo, gerido pela batuta de lideres competentes, honestos e que se identifiquem com a nossa raça, levar-nos-à um dia ao tôpo por mérito próprio.

sábado, abril 24, 2010

Portugal Maior

Camaradas: embêbam-se do espírito do 25 de Abril de 1974 e, juntos, mudemos o status quo, mesmo que outra revolução tenhamos que fazer. Àqueles que se empenharam na conquista da liberdade deveremos prestar as nossas homenagens; aqueles que com interesses próprios e não democráticos a desvirtuaram deverão ser extirpados e punidos.

sábado, dezembro 05, 2009

Copa 2010

Mais uma vez fico revoltado. Pensando bem, nem deveria ficar mais, pois o motivo dessa revolta é uma constante, coisa enraizada na cabecinha fraca de uma grande maioria dos jornalistas brasileiros. Existe, claro, uma minoria consciente e que não usa desse nacionalismo exarcebado.
Dos seis colunistas desportivos do jornal Folha de S. Paulo, um só aventa o palpite de Portugal passar para as oitavas junto com o Brasil; os outros apostam na Costa do Marfim. Muitos da rádio e da tv também seguem esta maioria e apoiam-se muito no resultado do último jogo em que Portugal perdeu de 6 x 2 para o Brasil, além da repescagem a que os lusos se sujeitaram agora.
Uma Copa é sempre uma Copa e sempre há muitas surpresas. Nunca se deve substimar quem quer que seja. Porque não apostar na Coreia do Norte em vez da Costa do Marfim? --- Parece que ninguém mais se lembra, a não serem os portugueses, daquele jogo da Copa de 66, na Inglaterra, em que os coreanos começaram com 3 x 0 em cima de nós. Tínhamos Eusébio e procedeu-se à virada para 5 x 3.
Durante uma Copa do Mundo muitos factores alteram o que parece ser a norma. Esta, na África, de certo modo faz-nos sentir em casa.
Atenção cabeçudos: analisem as coisas através de prismas bem lapidados e deixem-se dessas baboseiras de uma vez para sempre. Imaginem que passam às oitavas a Costa do Marfim e a Coreia. Isso é uma possibilidade.

sábado, outubro 10, 2009

Passo em frente


O mais difícil passou. Agora só falta vencer a equipe de Malta, pois não dependemos de terceiros. Acredito muito que estejamos na Copa na África do Sul. Porém, mudanças significativas ter-se-ão que operar na cartolagem e não levar mais as coisas na gaiatagem. Queiroz: dou-te o meu voto de confiança!

quarta-feira, setembro 23, 2009

Manuela e Judite

O título, numa primeira impressão, até parece relacionar-se com um livrinho de contos infantis. Mas não é!
Manuela Moura Guedes e Judite de Sousa são os nomes completos (?) dos personagens a que me refiro. Vale frisar que uso “personagens” como substantivo comum de dois, porque assim aprendera um dia e não vou na lenga lenga das novas ortografias…
Volto ao assunto dessas duas jornalistas portuguesas muito conhecidas e ùltimamente muito na berlinda, mas só para izer que não gosto e jamais gostei delas.
São, como se diz aqui no Brasil, duas inchações de saco, duas cricas, mesmo que com estilos diferentes. Não sei porque razão os telespectadores portugueses as aguentam há tantos anos!?
Uma, há anos atrás, numa idade mais formosa, ainda nos cativava pelos seus lábios carnudos e disso eu gosto; mas só. A outra é uma chata, independentemente da sua inquestionável  cultura, pois tem o péssimo hábito de cortar a fala de seus interlocutores e isso eu detesto.

segunda-feira, julho 20, 2009

África -- Pós colonialismo

Entrevista com Mia Couto - Julho 2009
João Fellet 07/07/2009
Não contei aqui sobre um dos pontos mais altos da minha viagem: quando, em março, em Maputo, entrevistei o escritor Mia Couto ­ cuja obra costuma ser comparada, no Brasil, à do Guimarães Rosa.
Por uma hora, conversei com ele, entre outros temas, sobre a relação da África com o mundo, o cinismo que houve na comemoração da eleição do Obama no continente africano, o falatório gerado pelo acordo ortográfico nos países lusófonos e como moçambicanos e angolanos lidam com a sua antiga metrópole, Portugal.
Editar esse material provou-se quase impossível, já que, como notarão, em momento algum o Mia deixa de apresentar pontos de vista instigantes e originais sobre os assuntos propostos.
***
O continente africano está vivendo o ciclo de crescimento econômico mais vigoroso desde o fim da era colonial. Entretanto, há casos notáveis de retrocesso, como o do Zimbábue, e vários outros países, como o Congo Democrático e o Sudão, vivem grande instabilidade política e social. No geral, a África está avançando?
MIA - Sim, o problema é que não se sabe para onde, qual é a direção desse progresso – progresso entre aspas. A África tem 30, 40 anos de independência e, feito um balanço, não se sabe se houve um crescimento. No conjunto, provavelmente sim, não sou da tribo dos “afropessimistas”.
Mas vive-se hoje em grande parte do continente africano pior do que se vivia no tempo colonial!?
MIA-A relação da África com o mundo não mudou e continua sendo uma relação colonial – nem sequer vale a pena chamá-la de neocolonial. A África não pode mais se entregar às mãos dessas elites que são predadoras e vorazes no consumo da riqueza, no que também não houve uma mudança. A África sempre teve uma relação em que elites minoritárias vendiam todos os recursos para o exterior. O que houve foi uma espécie de passagem de testemunho, uma mudança de turno, e só.
Como contrapor essas elites num continente em que praticamente não há classe média?
MIA - Imagino que surgirá uma pequena classe média a partir de conflitos internos. A África não é diferente do resto e sempre evoluiu por motores internos. São conflitos que estão surgindo hoje e são visíveis por exemplo aqui, em Moçambique, e na África do Sul, onde, além daquilo que são as forças históricas de contraposição política, estão surgindo outras. Há qualquer coisa nova no panorama em que a divisão não é mais aquela herdada do pós-independência, em que há os heróis libertadores de um lado, intocáveis, e do outro aqueles tidos como saudosistas do passado colonial.
Os confrontos em Maputo no ano passado causados pelo aumento do preço dos transportes e que resultaram em quatro mortes mostram que o país tem uma bomba-relógio nas mãos?
MIA – Sim. Para explicar o que houve, o governo recorre à teoria da conspiração: há uma mão organizou aquele movimento com intenções malévolas. Do ponto de vista da realidade social, isso corresponde a uma profunda insatisfação. As pessoas entraram em choque de incompatibilidade com esse sistema de funcionamento, de administração da sociedade.
Como fazer com que o país mantenha o ritmo de crescimento e reduza as tensões sociais?
MIA – Darei a pior resposta, porque, sendo escritor, tenho muito pouco a dizer sobre o assunto. Mas acho que o que mais falta faz é criar um pensamento produtivo. Perceber que esse discurso de culpabilização do outro, de invenção de inimigos, está gasto, sem perceber que é preciso encontrar caminhos novos, que é preciso encontrar uma outra maneira de construir a economia. Esse é o grande desafio.
Com a crise econômica mundial, o discurso sobre a importância do Estado na economia ganhou força no mundo todo, e em Moçambique o presidente Armando Guebuza disse que é preciso evitar que Moçambique se globalize. Isso não é nocivo para um país que, aos poucos e com sucesso, vinha abrindo a sua economia?
MIA – Acho que Moçambique não notou grande diferença porque nunca saiu desse discurso dirigista. Passou de um socialismo para um capitalismo de Estado, digamos assim, em que há uma enorme promiscuidade entre assuntos do Estado e negócios pessoais.
Moçambique tem sido considerado um “caso de sucesso” por muitos organismos internacionais, por ter conseguido conciliar abertura política com desenvolvimento econômico. Esses elogios não fazem mal ao país?
MIA – Fazem muito mal. Enquanto não houver razões endógenas para estarmos felizes conosco próprios e sermos confrontados com o modelo que nós próprios criamos, seremos os bons rapazes, mas da festa dos outros.
Na reunião da União Africana (UA) em fevereiro, o ditador líbio Muammar Gaddafi foi mais uma vez o centro das atenções com a sua defesa da unificação política imediata do continente. Qual o mal que atitudes e lideranças como essas causam ao continente?
MIA - Acho que isso tudo é uma obra de fachada. Nenhum país africano tem crença na UA a ponto de abrir mão da sua posição no mundo. A UA serve como um patamar para que a maior parte das elites dirigentes da África possa ter alguma posição de consenso, algum ponto de força, mas, de resto, ninguém acredita nela. É mais uma obra de teatro a que eu, como escritor, tiro o chapéu.
E a complacência em relação ao ditador do Zimbábue, Robert Mugabe? Até onde vai a lealdade da classe política dos países vizinhos, Moçambique incluído?
MIA – É preciso que novas gerações, como em Botsuana, surjam. Pessoas que não estejam ligadas a esse tipo de laços históricos, a compromissos pessoais que prejudicam todo o resto. Essa gente se conhece toda, são amigos, fazem parte de um clube. E mesmo que tenham divergências políticas, nunca vão o declarar publicamente. Há aqui uma espécie de sabedoria palaciana. Alguns terão vontade de criticar, porque acham que a posição do Mugabe é insustentável, mas há outros que o admiram, embora não tenham a coragem de dizer, como alguém que teve coragem de bater o pé contra os ricos, o Ocidente. E há um grande desconhecimento sobre a situação interna no Zimbábue. A ideia é que tudo isso que chega é terrível, mas não é verdade, foi fabricado pelo Ocidente.
E Moçambique? Aqui ainda é forte o discurso de atribuir aos outros o atraso do país?
MIA – Moçambique teve um percurso diverso. O discurso de demagogia está presente, mas não é predominante. Hoje já há uma apreciação de que é preciso buscar as responsabilidades dentro. Mas isso foi fruto de muita briga na sociedade civil, para que os dedos que estavam apontados para fora fossem apontados para dentro.
Como é a relação de Moçambique com Portugal? Em Angola, a outra grande ex-colônia portuguesa na África, jornalistas portugueses foram impedidos de cobrir as últimas eleições, em 2008, acusados de participar de um complô contra o país…
MIA – Isso tem a ver com questões que não são só políticas. Lembro-me de uma vez em que estive em Angola e, numa mesa de 20 angolanos, todos negros, perguntei como se dizia feiticeiro numa língua nacional angolana – queria saber as semelhanças com as palavras usadas nas línguas moçambicanas. Ficou um silêncio gelado. Nenhum deles sabia falar uma língua de Angola, exceto o português, que também é uma língua angolana. Aquele silêncio congelou-me e de repente começaram todos a explicar que não se sentiam verdadeiramente africanos. Era uma coisa quase, digamos assim, psicanalítica. Era preciso encontrar uma explicação de sua angolanidade. E isso tinha a ver com a necessidade de marcar Portugal por uma via ainda de briga, de afirmação.
E em Moçambique, isso não ocorre?
MIA - Não. A relação da língua que citei não é inócua. A língua é uma forma de estar no mundo, é uma relação consigo própria. Grande parte dos dirigentes angolanos não fala nenhuma língua bantu. Já os dirigentes moçambicanos sabem e têm uma relação diferente com isso, resolvida. Resolver essa relação com o português enquanto língua passa muito por resolver a relação com o português enquanto povo. Aqui, a questão não está completamente resolvida, claro, mas os portugueses são para nós como os franceses, os ingleses…
Lembro-me de amigos brasileiros cá em Moçambique que foram ver um jogo entre Brasil e Portugal. Eles esperavam que os moçambicanos fossem torcer pelo Brasil, afinal Portugal foi o colonizador. Mas não, torceram para Portugal. Não acho que seja nem bom bem mau, mas há uma relação livre com isso.
No Brasil, muito pouco se sabe sobre Moçambique. A recíproca vale?
MIA - Não. Os moçambicanos têm aquele complexo de ilhéu, como se vivessem numa ilha, e portanto voltam-se ao mundo. O moçambicano médio, que tem escolarização baixa, sabe do Brasil o que os brasileiros não sabem sobre Moçambique, mesmo os brasileiros acima da média.
Embora a relação do Brasil com os outros países lusófonos seja distante, com a exceção talvez de Portugal, o acordo ortográfico teve uma repercussão enorme no país. Como acompanhou a questão?
MIA - Faz parte da nossa cultura, enquanto países lusófonos, enquanto família, celebrar as coisas dessa maneira: ou em carnaval, em grandes festas, ou em dramas existenciais, coisa que nem os francófonos, nem os anglófonos têm. Estamos sempre a indagar: será que existe a lusofonia? É uma coisa quase paradoxal: existimos na medida em que duvidamos da nossa própria existência e investimos nessa polêmica. O que vale é que, para além disso que é o lado oficial da lusofonia, há outras coisas que acontecem e que estamos a discutir aqui, como o como o fato de os moçambicanos se informarem sobre o Brasil, a ligação histórica entre os países…
Acho que essa polêmica em relação ao acordo foi muito insuflada pela parte portuguesa – os países africanos nunca fizeram grandes questionamentos. Também acho que é preciso justificar tão intensamente a razão de ser desse acordo ortográfico que, logo à partida, já tenho dúvidas se algo que precisa ser tão justificado tem alguma razão de ser. O triste é que se deu tanta importância a essa discussão e outros debates essenciais e que têm a ver com a nossa ligação mais profunda ficaram à margem, e assim vão continuar.
Depois de irem para Angola, as empresas brasileiras começam a chegar a Moçambique – a Vale e a Odebrecht recentemente anunciaram investimentos no país. Será que essas relações comerciais podem aproximar os dois países?
MIA – Acho que sim. Essas companhias vêm para cá para fazer negócios, mas elas se apresentam como tal, não têm uma fachada de cooperação, de troca de amizade. São relações comerciais, empresariais, mas que por arrasto trazem outras coisas, como brasileiros trabalhando em Moçambique ou em Angola, moçambicanos trabalhando nessas companhias, e assim surgem coisas em paralelo.
Acredito mais nesse tipo de relação do que em qualquer outra. O resto é sabotado por intenções políticas, é fabricado como uma bola de sabão.
Qual a sua opinião sobre a crescente presença chinesa na África?
MIA - Não vejo isso como um problema. Devia era haver chineses, indianos, brasileiros, vários povos cumprir a nossa vocação. Já que temos de ser colonizados por uns, seremos por todos.
Mas não acha que a troca com a China, em particular, é nociva na medida em que não resulta em transferência de tecnologia?
MIA – Isso, sim. Os chineses têm dessas atitudes. Na área ambiental, que é a minha, não existe nenhum cuidado nem pressuposto… é um paradigma que está ausente. Existe também uma dificuldade, que faz parte da história dos chineses – os chineses nunca tiveram esse tipo de relação com outros povos –, e com eles troca-se muito pouco. Há outra coisa perigosa, que é a posição mais pragmática em relação regimes políticos. Não lhes interessa o regime político que há em África. Mas, na verdade, a posição seletiva do Ocidente sobre quem são os bons e os maus é um critério muito falível. Achavam maus os dirigentes da Guiné Equatorial até se encontrar petróleo – de repente, já eram bons rapazes. Mas, de resto, os chineses têm uma cultura de trabalho que pode nos ser útil.
Quando o Obama venceu a eleição nos EUA, você escreveu um artigo dizendo que ele jamais seria eleito num país africano (porque, entre outros motivos, ele não seria considerado um “africano autêntico”, por ser mulato e filho de imigrantes). Acha então que a vitória dele foi exageradamente comemorada no continente?
MIA - O artigo que escrevi para um jornal em Moçambique não estava a falar do Obama em si, mas dos regimes africanos, e contra esse cinismo de celebração do Obama. O principal fator pelo que o Obama é celebrado – a questão racial – foi construída.
De repente, o Obama aqui já era negro. Em Moçambique, e na maior parte dos países africanos, na rua, ele seria um mulato. Mas havia uma necessidade de construir um ídolo. Obviamente ele vai desencantar esse tipo de pessoa que investiu nele – como fez até o Mugabe, ao dizer que “finalmente um irmão chega ao poder”. Para essas pessoas, ele vai passar de herói a vilão num clique de dedos.
A identidade de alguém é definida pela cor da pele, por relações de natureza genética, ou pela sua própria história individual? No caso do Obama, todos sabemos que ele é muito pouco ligado à África. Ele é filho de um africano que se desligou, de um imigrante americano. Isso foi esquecido, posto à margem para a celebração, o que também mostra que há um sentimento de falta de auto-estima, uma necessidade de ter projeção em pessoas, ídolos, que continua a ser muito forte na África.
A África é provavelmente o lugar do mundo em que a telefonia celular mais transformou a sociedade ­ até porque, em muitos lugares do continente, ela chegou antes que a telefonia fixa. E em países como o Quênia e a Tanzânia, os celulares já são usados para fazer transferência de dinheiro, mesmo por camponeses. Você acompanha essa revolução tecnológica?
MIA – Tenho uma relação muito difícil com o celular – fui o último da família a tê-lo, porque achava que perderia a minha privacidade e não queria depender de uma máquina. Mas percebo que, do ponto de vista social, é uma espécie de instrumento de democratização, que de fato mudou a vida de muita gente. É preciso pensar que num país onde as pessoas não se comunicam, onde tudo é distante, de repente tudo se tornou mais próximo. Há aqui uma porta, um canal de unificação, que coloca o rico e o pobre em pé de igualdade perante essa possibilidade de se comunicar. É fantástico.
Fonte: http://candongueiro.wordpress.com/2009/07/07/mia/

sexta-feira, junho 05, 2009

Ilusões

Quantos portugueses, quantos dos meus camaradas de armas fôram sacrificados nessa terra endiabrada!? E para quê?

Não quero dizer com isso que a Guiné deveria continuar a ser uma colónia portuguesa. O que eu quero dizer é que, aqueles que nos enfrentaram na guerra, embuídos de um ideal que começaria com a independência, foram, como nós, traídos.

A nós enfiávam-nos goela abaixo a grande ilusão de que se tratava de uma extensão do nosso território metropolitano, como as demais e então denominadas Províncias Ultramarinas. Na escola primária já tínhamos que ter na ponta da língua as respostas sobre perguntas histórico-político-geográficas. A eles, os seus líderes lavavam-lhe o cérebro e implantavam idéias que jamais seriam concretizadas. E, assim, uma guerra de treze anos envolveu os dois lados com os Grandes Chefes atirando carne para canhão.

No que nos diz respeito, tudo acabou quando do 25 de Abril de 1974. Quanto a eles, os grandes (até mesmo gordos e corpulentos...), jamais se deixaram de matar uns aos outros numa carnificina desenfreada.

Em ambos os países, definitivamente circunscritos ao seu monobloco geográfico, travam-se outras guerras e actividades internas e muitas vezes com alvos idênticos. A Guiné é o grande entreposto do tráfico de entorpecentes com tentáculos direcionados a todos os quadrantes. Portugal é uma das principais portas de entrada na Europa. Continuamos irmãos...