segunda-feira, maio 31, 2021

Anta


Uma anta, ou dolmen, é um grupo de rochas de grande dimensão constituído por uma laje assente sobre três ou mais pedras dispostas na posição vertical, formando uma câmara. Cada uma destas pedras pode pesar algumas toneladas. Formam um monumento tumular coletivo, sendo datados da pré-história, desde o fim do V milénio a.C. até ao I milénio a.C..

A da foto está na Herdade do Barrocal, na minha querida Évora (Alentejo; Portugal).

domingo, abril 25, 2021

Revolução dos Cravos


 A MULHER que fez do cravo o símbolo do 25 de abril de 1974

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Em 1974 Celeste Caeiro tinha 40 anos e vivia num quarto que alugara no Chiado, com a mãe e com a filha. Trabalhava na rua Braancamp, na limpeza do restaurante Franjinhas, que abrira um ano antes. O dia de inauguração fora precisamente o 25 de Abril de 1973. O gerente queria comemorar o primeiro aniversário do restaurante oferecendo cravos à clientela. Tinha comprado cravos vermelhos e tinha-os no restaurante, quando soube pela rádio que estava na rua uma revolução. Mandou embora toda a gente e acrescentou: "Levem as flores para casa, é escusado ficarem aqui a murchar".
Celeste foi então de Metro até ao Rossio e aí recorda ter visto os "chaimites" e ter perguntado a um soldado o que era aquilo.
O soldado, que já lá estava desde muito cedo, pediu-lhe um cigarro e Celeste, que não fumava, só pôde oferecer-lhe um cravo. O soldado logo colocou o cravo no cano da espingarda. O gesto foi visto e imitado.
No caminho, a pé, para o Largo do Carmo, Celeste foi oferecendo cravos e os soldados foram colocando esses cravos em mais canos de mais espingardas.
Fonte: RTP

África

terça-feira, abril 20, 2021

Nova Portugalidade

 Quando acordará o Brasil?

A língua portuguesa, contrariando os mais negros vaticínios, cresceu acompanhando a espantosa ascensão do castelhano. Em África, sobreviveu e cresce enquanto língua veícular, língua de poder e selecção de quadros. Na América do Sul, já se estuda e fala no Uruguai, na Argentina e Paraguai, acompanhando a emergência do Brasil e satelização das economias circunvizinhas. Nos EUA, são tantos os departamentos e leitorados de português que dir-se-ia vivermos uma verdadeira primavera de florescência de vocações. Na Ásia, sobretudo na China e Japão, mas também na Coreia e Índia, o português foi-se afirmando empurrado pelas trocas comerciais entre o Brasil e essas grandes potências económicas e pelo crescente interesse pela cultura brasileira, da mais duvidosa - que conquista sucessivas editoras e milhões de leitores, como é o caso de Paulo Coelho - à mais cativante. O timbre e os ritmos brasileiros inundam a "música enlatada" em supermercados, aeroportos, consultórios médicos, centros comerciais e programas de entretenimento facultados pelas companhias aéreas; o cinema brasileiro ganhou vastos mercados; o estilo brasileiro, com o seu toque de exótico e colorido, prendeu muitos amantes do diferente.
Contudo, o Brasil, inerte e incapaz de projectar o seu grande potencial, continua comodamente a viver do esforço português. É inacreditável que esta inércia continue sem que as nossas autoridades elejam o tema como tópico para uma das habituais cimeiras luso-brasileiras. O Instituto Camões, quase falido, vai trabalhando por esse mundo fora para a diplomacia económica brasileira. O Brasil não tem um leitorado, uma revista cultural, um programa de ensino da língua comum, nem se predispôs enviar mais que 50 míseros professores para Timor-Leste, contrastando com os 150 portugueses que ali desenvolvem verdadeira missionação linguística há mais de quinze anos. É um escândalo que tal gigante se reduza voluntariamente ao papel de colosso sem vontade.
MCB
https://www.facebook.com/jose.barbarabranco





quinta-feira, abril 01, 2021

Esteva

 


Esteva, a majestosa flor de cinco pétalas brancas

Todo o bom alentejano conhece o cheiro mediterrânico da esteva e a sua majestosa flor de cinco pétalas brancas, adornadas por uma unha castanho-avermelhada no seu interior. O que alguns talvez não saibam, é que esta planta pertence a uma família botânica designada CISTACEAE e que o seu nome singular e universal, é Cistus ladanifer L.. Pois é, à esteva chamam-lhe muitos nomes: xara, roselha-branca, cinco-chagas-de-cristo, estepa negrajara de las cinco llagas ou txaraska se formos até espanha, e terá tantos outros, conforme quem os disser e onde.

Os nomes comuns são pouco fiáveis Aqui verificamos que os nomes comuns, podem ser pouco fiáveis, já que variam conforme a geografia e o interlocutor. O mesmo acontece com todas as espécies de plantas vasculares (as que têm canais vasculares por onde circula a seiva), de modo que “chamar as coisas” (espécies ou taxa) pelo seu nome (científico) é sempre o mais certeiro. Os nomes científicos apresentam sempre em primeiro lugar o nome do género, neste caso Cistus, que possivelmente deriva do grego kíste “cesto” ou do latim cista “cesta, caixa”, devido à semelhança dos seus frutos com estes objetos.

ESTEVA: O ÓLEO AROMÁTICO Segue-se o epíteto específico, que dá o nome à espécie propriamente dita (já que um género pode comportar um elevado número de espécies diferentes). Para a xara, é ladanifer. A origem deste epíteto, deve-se ao ládano ou lábdano, a resina aromática e peganhenta que a planta segrega e que lhe dá o seu aroma tão caraterístico. Este óleo aromático (como a maioria dos óleos essenciais, ou seja, produzidos pelas chamadas plantas


aromáticas
), serve para a esteva se proteger da perda de água e da dissecação, já que o clima Mediterrânico, de estios quentes e secos, onde a espécie ocorre naturalmente (Península Ibérica e Sul de França) é propício a tais fenómenos.

Esteva: uma planta aguerrida e solitária, muito resistente a perturbações ambientais

O óleo, figura ainda no conjunto de estratégias adaptativas e de desenvolvimento da planta, pois a xara, perdão, o Cistus ladanifer, é uma planta aguerrida e de poucas conversas, muito resistente a perturbações ambientais, como os fogos, desbastes rasos e até contaminações do solo com metais pesados, sendo, pois, não raras vezes, a primeira a aparecer e mesmo a única a existir, durante muitos anos em determinado local. Sobrevive em ambientes inóspitos e prospera na adversidade, talvez porque se adaptou a viver e florir, onde muitas outras plantas, mais sensíveis aos rigores climáticos e exigentes nos seus requisitos ecológicos, simplesmente não vingam para ver a luz do dia!

A esteva, uma valente solitária: não aprecia a companhia de outras espécies


Como é colonizadora de novos espaços, incluindo solos pobres e pouco evoluídos que não são apropriados à agricultura, e por norma, não aprecia muito a companhia de outras plantas, sendo poucas as exceções, usa ainda os seus fluidos como substâncias alelopáticas (que inibem o crescimento de outras espécies, na sua proximidade). Não é por isso de espantar, que no Alentejo existam tantos estevais, alguns mais altos que um homem alto (ou dois baixos) e tão cerrados como um matagal! Aqui não há novidade, a expressão “ir fazer qualquer coisa atrás das estevas” é ou não é tipicamente alentejana?!

O género e o epíteto

O género e o epíteto específico são normalmente escritos em itálico, remetendo à sua classificação primordial em latim. E é de seguida que aparece o classificador, ou seja, a identificação da pessoa que primeiramente identificou e descreveu uma determinada espécie. Neste caso, o L. é um diminutivo de Carolus Linnaeus (para nós, o Lineu), considerado o “pai” da nomenclatura binomial ou binária, no século XVIII. Uma espécie, pode ainda dividir-se em diferentes subespécies.

Cistus ladanifer L. subsp. ladanifer, que é presença comum em matos secos e de zonas quentes, no sob coberto de sobreirais e azinhais (ou de montados) e em pinhais, e que, como antes dito, prefere solos pobres e ácidos (derivados de xistos, granitos, arenitos ou calcários descarbonatados).

Só para lançar mais umas achas à fogueira, também existem Cistus ladanifer L. subsp. ladanifer com flores totalmente brancas, sendo esta a forma albiflorus (Dunal) Dans.. Neste caso, as cinco-chagas-de-cristo (que representam a f. maculatus (Dunal) Samp.), talvez sejam melhor nomeadas por roselhas-brancas!

Exclusiva do Litoral Alentejano


Mas, existe outra subespécie em Portugal, que habita os matos costeiros sobre arribas do litoral, mais frequente em solos arenosos que assentam em rochas calcárias. É a subsp. sulcatus (Demoly) P.Monts. (o que nem todos os botânicos aceitam, já que muitos a consideram como sendo uma espécie particular, o Cistus palhinhae Ingram). A “esteva-da-costa” (inventei agora este nome, porque me parece adequado, e, já que uma vantagem dos nomes comuns é esta liberdade – talvez um pouco anárquica – que se guia pela lógica e opinião de cada um), é mais baixinha e robusta. Parece ser um pouco mais sociável e apresenta-se como um arbusto de formas arredondadas, de folhas menos longas e flores algo menores, e, quase sempre imaculadas, como seria de esperar de uma pura-seiva lusitana!

A esteva uma valente solitária: existem no Alentejo diferentes espécies

É que o Cistus palhinhae (assim nomeado em homenagem ao grande botânico português, açoriano da Ilha Terceira, Ruy Telles Palhinha) é um endemismo português, significando este palavrão que a ocorrência e distribuição natural desta planta em todo o globo terrestre, é restrita a uma estreita faixa litoral em Portugal Continental, ao longo do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (tem bom gosto!).


Segredos, no Litoral Alentejano

Poucos saberão que começa logo a aparecer aos caminhantes que se aventurem a percorrer os caminhos junto às arribas entre Porto Côvo e a Ilha do Pessegueiro, meia escondida nos matos costeiros dominados por Stauracanthus sp., por entre ERICACEAE, Halimium sp., Helichrysum sp. e outros Cistus sp..

A maioria das ameaças são humanas

Esta planta chega ao sudoeste algarvio e, a Norte, existirão algumas populações “desgarradas” para as bandas de Peniche. Dado o seu estatuto especial, é protegida por lei e mencionada na “Diretiva Habitats” que foi criada especificamente para proteger espécies de animais e plantas e as suas comunidades, dentro do espaço europeu, que, tal como esta beldade, se encontram ameaçadas. Infelizmente, a maioria destas ameaças são de origem humana, derivadas, por exemplo, da introdução de espécies exóticas que se tornam invasoras (como o chorão, Carpobrotus edulis L.) roubando o habitat, espaço e recursos, das plantas nativas.

A esteva: floração

No Sul de Portugal, o Cistus ladanifer normalmente começa a florir em finais de março, sendo a floração nas zonas do Norte onde existe (áreas de clima mediterrânico, como Trás-os-Montes) um pouco mais tardia (abril-maio), prolongando-se até junho. Este ano, porém, talvez devido a uma primavera antecipada, um pouco por todo o Alentejo já se encontram desde há algumas semanas, uns salpicos do branco das vistosas flores, e, tudo faz crer que o pico de floração da espécie, estará para breve.

Quem se compraz, para além das vistas, são as várias espécies de insetos polinizadores, que, esfomeados se alimentam do seu néctar, e em troca, ajudam a planta na sua reprodução.

Os usos ancestrais da esteva uma valente solitária

·                     PONTO 1 Os usos ancestrais do Cistus ladanifer ladanifer, incluem a utilização da sua lenha nos fornos de cozer o pão e outros alimentos (já que, para além de ser muito combustível, liberta um agradável aroma) e vários usos medicinais.

·                     PONTO 2 De facto, os antigos já sabiam que esta planta pode ser utilizada numa quantidade quase infindável de tratamentos: para diminuir o catarro e como expetorante, que o seu aroma é equilibrador de emoções, facilita a menstruação, coagulante, antibacteriana e antiviral, combate a diarreia, auxilia na circulação venosa, é descongestionante, desinfetante e analgésica! Mas atenção, já que, devido às suas propriedades emenagogas (potencialmente abortivas) e coagulantes, deverá ser usada com precaução (pois poderá originar problemas cardíacos ou respiratórios).

·                     PONTO 3 Ao que parece, Alentejanos e Algarvios tradicionalmente também usam o seu óleo essencial para eliminar o mau cheiro dos pés! E não são poucas as aplicações cosméticas e como fixador de perfumes que se lhe dá, na atualidade.

·                     PONTO 4 Em forma de despedida, uma informação que aos mais aventureiros de palato, servirá: as pétalas da esteva são comestíveis, frescas ou desidratadas! Não é, pois, difícil, imaginar novas possíveis aplicações gourmet para esta planta carismática, de pétala com sabor suave e adocicado nas suas máculas (eu provei e gostei!).

·                     PONTO 5 Sem mais novidades e com o cheiro quente da esteva a pairar-me na memória, convido-vos a (re)descobrir esta rústica, cuja flor parece tão frágil quanto é bela, mas que esconde mais do que aparenta, sendo na realidade, uma valente solitária, que em si contém e reflete na perfeição, muita da bravura e resiliência do Homem e do Território Alentejanos.

Mónica Martins,



 

segunda-feira, março 22, 2021

Évora e o futuro

 Não abundam cidades médias que reúnam tantas condições básicas para garantir o sucesso, como Évora: acessibilidades, água, energia, informação, conhecimento, densidade cultural, saúde e bem-estar. Por que não dá?


Jorge Araújo -- (A CONTRA-CORRENTE (10): Évora em défice de ambição.

As auto-estradas foram muito criticadas, mas, para Évora, o acesso rodoviário rápido e seguro foi uma bênção. A proximidade a Lisboa e a Badajoz, para a qual contribuíram, a partir de 1999, os 158 km da A6, abriu novos horizontes de relacionamento, quebrou a relativa interioridade de que os mais velhos ainda se lembrarão.
Em breve, a nova linha ferroviária que integra o Corredor Internacional do Sul, cuja construção segue sem percalços, dará a Évora uma nova centralidade entre o litoral e Espanha, concretamente, entre os portos de Sines e de Setúbal, e o porto seco de Badajoz. Mas também a linha de alta-velocidade entre Évora e Lisboa, em construção, irá aproximar Évora da Capital, e futuramente, da Europa.
A barragem do Alqueva, também muito criticada, anulou, desde 2002, aquele que parecia ser um atavismo do Alentejo e de Évora: a seca. Hoje, qual novos ricos, o Alentejo parece acreditar na inesgotabilidade da reserva do Alqueva, usando a água sem discernimento. Mas ela existe e resiste, nunca faltou e assegura o bem-estar das populações, impensável há alguns anos atrás.
A ligação por cabo submarino entre a América do Sul e a Europa, não sendo inédita, é a primeira que se opera em fibra ótica. Com amarração em Fortaleza (Brasil) e em Sines, a nova ligação (10.119 km) já inaugurada, gera uma imensa acessibilidade e fluidez de tráfego de informação (72 terabits por segundo).
Do ponto de vista energético, o Alentejo, devido à sua exposição solar, produz mais de metade de toda a energia elétrica fotovoltaica do País. A esta há que adicionar a produção elétrica da Central Hidroelétrica de Alqueva. Futuramente, a transformação da Central Energética de Sines para a produção de hidrogénio, colocará o Alentejo no cerne da alternância energética ao País.
Évora tem Universidade. Uma Universidade histórica, que não se refugiou à sombra das bulas papais, mas que se guindou por ela própria aos mais elevados patamares do reconhecimento em múltiplos domínios do saber. A Universidade de Évora lidera hoje dois grandes Laboratórios Associados, o CHANGE que agrupa 316 investigadores de 4 universidades e o IN2PAST que engloba 331 investigadores de 5 universidades. “Aqui ao leme”, a Universidade de Évora é mais do que o Colégio do Espírito Santo; é uma imensa rede de investigação científica e desenvolvimento tecnológico, de formação superior inicial e avançada; é um potente motor do desenvolvimento económico, cultural e social...assim a Região o reconheça e o aproveite.
Évora, Património da Humanidade, como tal classificado pela UNESCO, exibe uma estratificação cultural legada pelos diversos povos que habitaram a região. Em cada pedra da mais humilde rua, em cada azulejo, em cada talha ou cada telha, se poderá vislumbrar a profundidade do passado que se esfuma na noite dos tempos neolíticos.
O futuro Hospital Central do Alentejo, cujo concurso público para construção está em curso, e cuja entrada em funcionamento se prevê para 2023, será o penúltimo dos grandes equipamentos reconhecidamente indispensáveis para o desenvolvimento da Cidade e da sua Região.
O que faltará a Évora para quebrar o “enguiço”?
Apenas uma palavra responderá a essa questão que muitos se colocam: ambição!
Évora tem feito prova de querer ser uma grande cidade alentejana. Mas não chega! É preciso visar mais longe, importa nutrir a ambição de ser uma excelente cidade europeia de média dimensão, onde seja bom viver porque segura, culta e saudável; e que seja apetecível para a instalação de empresas industriais e agrícolas, tecnologicamente modernas, ambientalmente respeitadoras, e produtivas.
Senhores autarcas, saudemos o cante, como nosso património identitário, mas não como diapasão para o ritmo de progresso que queremos. É tempo de equacionarem outro modelo de desenvolvimento, elegendo objetivos ambiciosos de médio e longo prazo, definindo metas intercalares precisas e exigentes, enfatizando as vantagens competitivas que Évora e o Alentejo oferecem, atuando com criatividade e garra na criação de condições cativantes para a fixação de empresas e captação de financiamentos. Se falharem, os vossos correligionários talvez vos perdoem, mas Évora, não!