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segunda-feira, novembro 24, 2008

Sonhei que morri

Não doeu nadinha. Olhava de soslaio um bando de gente em volta de um caixote preto; ou quase preto, com raríssimas flores silvestres sem perfume. Era um velho pedido porque não tem cheiro pior que velas e rosas juntas. Fica purgando as entranhas de nossas narinas por séculos. Daí o tal "cheiro de defunto" tão encarniçado.
Ninguém chorava meu embarque. Estava tudo bacana. Sorrisos marotos de uns e outros alem de pensamentos desajeitados. Dei um flagra num fulano tirando uma onda no pensamento: "será que deixou dívidas?; será que tem seguro de vida?; e bens?; com quem vai repartir?". Pensou até errado pois morto não reparte mais nada, fica prá quem fica e fim.
Engraçado é que tudo que pensavam eu ouvia de um jeito todo diferente. Uns pensavam que poderia ter uns quitutes, outros uma comidinha salgada, acolá uma "tubaina" ( Tubaina? Pobre não muda nem em velório).
Um pastor anglicano quis puxar uma encomenda e foi barrado! Pera aí: Não sou da Inglaterra, lá com tais divisões religiosas e culpas de Maria Tudor que morreu e Dona Rainha Elizabeth I (1558-1608) que lascou Bill e Rui com 39 artigos. Se ao menos fosse uma ladainha de carpideiras chorosas ou um terço puxado em latim que ninguém entende ia até curtir; mas um pastor se fazendo de Lorde é demais. Ainda bem que deram linha no dito cujo: " Fazemos nós mesmo a encomenda de nosso defunto".
Lembrei-me de uns casos de bebuns que corriam chapéus arrecadando quireras pra a virada da noite com trago da marvada quando a conversa escasseia e o povo some depois de fazer uma presença. Quem já curtiu um defunto sabe do abacaxi de ficar uns dois ou três sentados sem assunto; só com cachaça !...
E o cortejo? -- puta que o pariu! Porque cismaram de lavar no braço o tal paletó de madeira. O que tinha de neguinho reclamando do peso nunca tinha lido, visto ou ouvido. A merda agora é que sei da intenção da rapaziada. Todos querem fazer uma fita pros familiares da vítima fatal. Que chato sacar a ideia dos outros. Até que na falsidade é melhor. A gente finge que sente e o outro finge que sentiu e fica o dito pelo não dito.
Como dizia meu amigo Lauro Miguel, voltei. Voltei por todos canteiros e ruelas do campo santo até chegar num poço. Só agora entendi porque os antigos compravam terreno em cemitérios; caraca! que buraco esquisito... mas vamos lá.
Como foi indolor minha passagem de turno, estava na maior leseira. Tudo bem como transeunte do tempo se é esse o preço da vida. Nascemos com a morte certa e caminhos tortos. Só pra ser gauche na vida, como diria Drummond; se não fosse ela cheia de desejos dias azuis.
Mas, e a terra na cara de tantos beijos e quantos sóis? Vá lá... tá tudo aí mesmo; e os esfregas em tantas lamas quando andava a esmo? Foi treino. Tudo bem!
De repente ouço um repicar de tambor, um choro de cavaquinho e uma cuíca chorosa. Tinha me esquecido que pedi pro Bita e o Neném puxarem um samba na hora "h". Mas, e essa bosta de cuíca? Quem tá tocando? Deixa prá lá! O combinado é que não fosse aquela velha estória de " quem parte leva saudade..." Leva o baralho; nem dor e nem piedade. Depois de alguns dias tudo se engrena e ninguém lembra mais de nada.
A música combinada era aquela: ... o samba mandou lhe dizer... és a minha inspiração... quero chorar o seu choro e sorrir teu sorriso: a Amizade. Pelo menos a musica tá certa. Sempre que tava no samba, lá pelas tantas cervas o Bita, que sempre teve um carinho por mim, fazia homenagem pro tonto que se desmanchava todo. Obrigado meus velhos companheiros de alegria porque é o que fica mesmo; sãos esses corações acesos.
Mas vou ter que dizer adeus... Tá todo mundo indo embora e eu aqui sozinho olhando pro fundo desse poço. Tudo bem que não tá doendo nada. Mas nunca gostei da solidão.
"Au, au, au, au" --- ixi! É a Bina latindo? Tô vivo? Que será?...

Marcílio de Freitas

domingo, março 02, 2008

MEU PÉ DE TAMARINO

Chegando com tempo, passo por aí. Nem vou trocar de roupa. Quero levar o cheiro de uma manga rosa que apanhei no caminho, num galho da mangueira de beira de estrada. Quero levar o cheiro dos abraços que ganhei de minha tia e o som de vozes de novos amigos que encontrei.
Trazer a visão da pequena escola onde aprendi o "be-a-ba" na cartilha "Caminho Suave" que acho não existirem novas versões. Trazer canto de pássaros e saudade de gente que nunca mais estarão conosco porque uma jardineira antiga passou pelas sacadas de tuas varandas numa viagem longa, sem fim, e sem chances de paradas em estações de nome bonito como "Boa Esperança". Gente que pensei encontrar como em outras viagens. Quero trazer a alegria de minha primeira professora que fui visitar sem combinar nada. É Incrível! O beijo e o choro copioso de uma velhinha simpática de 89 anos. Foi a primeira mão amiga que me acolheu com sorrisos francos. Mãos de tantas vidas. Foi a parteira de minha mãe naqueles sertões sem médicos e hospitais. Eu, meus irmãos, primos e todos que nasceram naquela época perceberam a vida pelas tuas mãos. Não deu para segurar uma lágrima que insistia em escorrer pelos cantos de meus olhos quando chamou uma vizinha para me apresentar. Pura alegria.
Trazer a ternura de uma figueira antiga que continua fincada numa cidadezinha de minha infância sem asfalto e barrenta. Os rios e as pontes de madeira de nosso caminho diário rumo à escola. Os pés molhados do orvalho e o sol das manhãs. É isso que trago nos olhos e no coração de menino de cidade pequena. De vendinhas de beira de estrada e porteiras que batiam e estalavam após nossa passagem. Ah! -- tem a lembrança de uma árvore na divisa de nosso pequeno sítio que não tive coragem de visitar. Quero tua presença nos sonhos, quando no outono ela se desfolhava, mas renascia com as chuvas e as primaveras. Essa árvore era minha fábrica de borboletas. De tempos em tempos, uma infinidade de taturanas urticantes a que chamávamos de mandrovás, habitavam seus galhos e se alimentavam de suas folhas. Seguíamos todo o ciclo das lagartas às borboletas, que nasciam e voavam como plumas. Não podiam ser tocadas e, se tocadas, as mãos deveriam ser lavadas imediatamente; e nem pensar esfregar os olhos, porque era cegueira na certa. Sei lá se era verdade. Mas essas lagartas de fogo realmente eram venenosas.
Muitas lembranças do velho engenho, hoje em ruínas, com suas bases olhando o céu perto de um pé de tamarino frondoso. A pedreira de onde tirávamos pequenas pedras para as caçadas proibidas pelo meu pai, que não via motivos decentes para tirar a vida de nhambús, pombas do ar e, principalmente, de um passarinho que chamávamos "joão bobo", tal a sua docilidade e displicência com nossa presença. São essas lembranças que quero trazer. O cheiro de mato depois da chuva, as gramíneas branquinhas de geada no amanhecer dos meses de inverno.As pescarias de domingo e os banhos nos rios, do trampolim que meu pai construiu com golpes de machado plantado na pequena lagoa.
Trazer a batida do monjolo pilando milho e que se ouvia de longe: chiiiii... pá, chiiiii... pá. Os canteiros de almeirão e uma planta que na época não entendia direito o seu cultivo sobre as águas: o agrião.
Mas muitas lembranças que trago não as encontrei nessa viagem. Estavam e estão arquivadas no tempo de minha infância. E temos saudade é desse tempo e não muito de gente e objectos. Gente e objectos são transitórios, mas a infância não é. Quando voltamos nos lugares de nossa infância queremos encontrá-los do jeito que eram.Muitos rios estão secos. Outros tiveram teus cursos desviados. Como nossas vidas, algumas secaram, ruíram, transbordaram e outros seguiram rumos desconhecidos.
Venho trazer então essa saudade da minha infância. Tem gente que não tem estórias, outros quase não tiveram infância. Eu fico com meu pé de tamarino, as ruínas do engenho e minha fábrica de borboletas.
Colaboração de Marcilio Carvalho de Freitas