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segunda-feira, setembro 03, 2007

REFORMA ORTOGRÁFICA

Quando criei este blog, preocupei-me em colocar na apresentação trecho em que explicava os motivos de certas e eventuais diferenças na ortografia, perante a óptica dos leitores brasileiros ou portugueses, pois que nem sempre escrevo do mesmo modo, mas tento manter a forma como aprendi em Portugal. É o caso do termo que acabei de usar "óptica", que algumas vezes troco por "ótica", não para agradar a gregos e troianos, mas pela convivência nos dois países que me leva a essa naturalidade.
De qualquer modo, sou a favor de não alterações. Que tudo fique como está. A não ser assim, logo virá outra proposta de reforma, uma mais e mais uma. Vamos passar a vida no que eu considero uma "palhaçada".
Programei escrever aqui algo a respeito. Porém, tive a oportunidade de ler um artigo interessantíssimo num dos jornais que assino, Folha de S. Paulo", e como veio de encontro às minhas ideias sobre o assunto, optei por o transcrever neste espaço.
Mais uma vez, burocratas de pouco tino pretendem enfiar-nos uma reforma ortográfica goela abaixo.
Segundo reportagem da Folha, as mudanças podem começar já no ano que vem. Há aí dois despropósitos e uma sacanagem.
Em primeiro lugar, a reforma proposta é ruim: gasta-se muita energia para obter avanços menos do que tímidos em termos de unificação da escrita dos países lusófonos. Isto, é claro, se Portugal comprar o pacote, o que talvez não faça. Em segundo e mais importante, é errado e inútil tentar definir os rumos de uma língua natural. Só vão sair ganhando aqueles editores mais ágeis, que já têm prontos dicionários, gramáticas, cursos de atualização e material didático de acordo com a "nova ortografia" --- e é aí que reside a esperteza. Nunca foram meia dúzia de consoantes mudas --- como nas formas lusitanas "adopção" e "óptimo"--- que constituíram barreira à intercomunicabilidade entre leitores e escritores dos dois lados do Atlântico. O mesmo se pode dizer do trema, das quatro ou cinco regras de acentuação que serão alteradas e das sempre exóticas disposições sobre o hífen --- os demais pontos que a reforma abarca.
Se há empecilhos à boa compreensão entre falantes do Brasil, de Portugal e de países africanos e asiáticos (não nos esqueçamos de Timor Leste), eles estão na escolha do léxico e no uso de expressões locais, felizmente ao abrigo da sanha legiferante de dicionaristas e parlamentares.
Línguas são como organismos vivos: nascem, crescem e morrem. Numa palavra, evoluem. Só que, ao contrário de entidades compostas por moléculas de carbono e codificadas por genes, fazem-no principalmente pelo que os biólogos chamam de "genetic drift" (deriva genética), isto é, sem muita seleção --- até pode haver alguma competição entre idiomas, mas bem menos do que entre indivíduos. Escrever "super-homem" ou"superomem" não torna o português mais ou menos apto a sobreviver no mundo lingüístico. E, se há algo especialmente desimportante para determinar o sucesso ou fracasso de um idioma, é a ortografia tomada isoladamente.
Analisemos o caso do inglês, indiscutivelmente o idioma de maior prestígio hoje no mundo. A complexidade de sua ortografia, que é muito pouco fonética, já gerou toda uma mitologia. O escritor Mark Twain, por exemplo, propôs em tom de chiste que a palavra "fish" ("peixe") fosse escrita "ghotiugh", em que o "gh" soa como "f", como ocorre em "enough" ("bastante"); o "o" tem som de "i", como em "women" ("mulheres"); o grupo "ti" vale por "ch", como em "nation" ("nação"); e o grupo "ugh" não tem som algum, como em "ought" ("dever"). Só que o problema ortográfico do inglês, apesar de trazer mesmo uma série de dificuldades, em especial na alfabetização de crianças e no aprendizado como língua estrangeira, revelou-se também um dos ingredientes que, ao lado de outras características, tornaram-no uma língua extremamente versátil, o que contribuiu para o seu sucesso.
Com efeito, a anomia ortográfica aliada ao despojamento dos sistemas nominal e verbal trouxe uma vantagem insuspeitada. Como as palavras podem ser escritas de qualquer jeito mesmo e substantivos se tornam verbos sem a necessidade de nenhuma adequação morfológica --- em português, para tornar-se verbo, é preciso obedecer à flexão, recebendo, por exemplo, um "r" no infinitivo, como em "amar"---, a língua ganha uma enorme flexibilidade. Praticamente qualquer palavra estrangeira pode ser assimilada em sua forma original. Nenhum termo fica estranho demais para "soar" inglês. Mais do que isso, pode tornar-se, além de um simples nome, também um verbo. É o caso de"toboggan" ("tobogã" e também "fazer tobogã") que veio do idioma algonquino "ipsis litteris". O inglês é, nesse sentido, uma língua perfeita para a era da globalização e, não por acaso, aquela com maior número de vocábulos, boa parte dos quais emprestados de outros povos.
O "genetic drift" também faz com que idiomas possam conservar traços imemoriais sem que isso implique custos demasiado altos. Tal característica torna as línguas naturais verdadeiros palimpsestos, capazes tanto de assimilar modismos criados na véspera como de guardar relíquias herdadas de idiomas muito mais antigos. Seu curso, ainda mais que o da seleção natural, é absolutamente imprevisível. Vale apena investigar dois ou três casos. Para o termo "beócio", por exemplo, o dicionário Aurélio registra: "curto de inteligência; ignorante, boçal". Se olharmos para a etimologia, descobriremos estar diante de um preconceito das elites gregas, para as quais os habitantes da província da Beócia --- osbeócios--- não passavam de camponeses estúpidos e glutões. O sentido de glutonaria se perdeu, mas o de estupidez se manteve em várias línguas modernas.
Obviamente, não eram apenas os gregos os arrogantes e intolerantes. Os judeus do século 12 a.C. também tinham seus desafetos, mais especificamente os filisteus, com quem viviam guerreando. Foi assim que, em hebraico, "pelishti" ganhou conotações pouco abonadoras, que, passados 33 séculos, continuam existindo no português contemporâneo. Para "filisteu" o dicionário Houaiss traz: "aquele que é ou se mostra inculto e cujos interesses são estritamente materiais, vulgares, convencionais; que ou aquele que é desprovido de inteligência e de imaginação artística ou intelectual".
Freqüentemente, surgem bem-intencionadas patrulhas lingüísticas tentando corrigir as injustiças. Ainda não vi ninguém propondo eliminar "beócio" e "filisteu" de nosso léxico, mas acho que a sugestão não apareceu mais por desconhecimento do que por falta dedisposição.
Recente cartilha do governo federal queria limar termos "preconceituosos" como "anão", "aidético", "barbeiro", "beata","comunista", "xiita", "funcionário público", "peão". Escrevi algo a respeito na coluna "Tributo à estultice". Tais esforços, além de tolos, acabam muitas vezes tendo efeito muito diferente do inicialmente imaginado. É o caso da palavra "cretino". Em regiões montanhosas, como a Suíça, são pobres as fontes de iodo ambiental, o que, antes do processo de iodatação do sal de cozinha, tendia a provocar alta prevalência de hipotireoidismo congênito (ou cretinismo). Como os bons helvéticos já eram politicamente corretos "avant la lettre", recusavam-se a chamar as crianças afetadas pela síndrome pelo nome de "idiotas". No século 18, passaram a usar o mais piedoso termo "cristão", que soava "crétin" no francês dialetal ali falado. Acabaram inventando, sem querer, a palavra "cretino", hoje de alcance mundial e politicamente incorreta. Preconceitos podem até ser reforçados pela língua, mas são capazes de sobreviver muito bem sem ela.
A lição a tirar dessas historietas é que é bobagem tentar legislar sobre um fenômeno tão complexo como a linguagem. Uma analogia válida seria a de deputados tentando baixar uma lei para regular a taxa de mutação do gene p53. Não vai dar certo. Quer dizer, a reforma poderá até nos levar a escrever as palavras de um geito (sic) diferente, mas isso em nada alterará a essência ou os processos da língua e não chegará nem perto de tornar as muitas variantes do português mais intercompreensíveis. Ao contrário, irá apenas criar o incômodo de exigir de alguns milhões de usuários que percam algum tempo para aprender as novas regras cuja arbitrariedade só não é superada pela inutilidade. Se há algo a ser eliminado, não são acentos e hifens, mas a estultícia de burocratas.
"Reforma estúpida" --- Élio Schwartsman (Folha de S. Paulo).

quinta-feira, maio 17, 2007

REFORMA ANTECIPADA

Aqui eu proponho-me a comentar qualquer assunto do dia a dia como, aliás, é natural. E tem alguns que não podem passar em branco... Vejamos, então, esta manchete que li no jornal português "Correio da Manhã" e cujo assunto também é abordado noutros meios de comunicação:
Jogadores vão pedir ao Governo para terem acesso aos montantes acumulados em fundo complementar aos 35 anos de idadeOs jogadores de futebol querem passar a receber uma pensão aos 35 anos de idade, devido ao desgaste rápido a que estão sujeitos e à cessação precoce da sua carreira.
Quem lê aquilo que aqui escrevo poderá até pensar que eu sou uma pessoa antiquada e exacerbadamente conservadora. Mas não! sou o contrário de tudo isso... Sou uma pessoa realista, não querendo ser mais real que o rei...
Lembro-me de quando era garôto e das vezes que o meu pai me surrou quando notava que as biqueiras das minhas botas estavam esfoladas, pois depreendia que eu tinha andado a jogar futebol. Poderia até ser e na maioria das vezes era, por ter subido n'alguma árvore ou muro para apanhar umas frutas ou qualquer outra coisa no quintal do vizinho. Porém, a ideia fixa dele era o jogo da bola, que detestava, e não tanto o problema das biqueiras...Talvez por isso eu não tenha vindo a ser um jogador e tenha começado a trabalhar aos dez anos, sem remuneração, durante as férias escolares e mais tarde, aos catorze, remunerado e oficialmente registado na Previdência. Estou relatando estes acontecimentos passados porque a ideia na época era a de que o indivíduo que se dedicava sòmente ao futebol era um malandro que não queria trabalhar. Até mesmo numa maioria de países os futebolistas tinham uma profissão e dedicavam-se ao desporto com uma segunda ocupação. Nem tinha aqueles salários e contratos fabulosos.
Trabalho há 48 anos e ainda não estou reformado. Espero aposentar-me aos 65 de idade, dentro de Lei. E como contribuí para a Previdência nos dois países, observando o tempo mínimo exigido em cada um deles, terei direito a duas aposentadorias. Adianto, porém, que nenhuma das duas será vultosa...Passei por serviços leves e pesados e alguns ambientes de trabalho insalubres. Jamais reclamei de alguma coisa.
Jamais aceitei o facto de um deputado, por exemplo, aposentar-se ao fim de 8 anos de trabalho.Revolto-me quando vejo indivíduos aposentados aos 40 anos de idade, alguns até do meu tempo.Revolta-me tudo isso e agora este caso especìficamente. Esses indivíduos que jogam futebol, na maioria dos casos ganham fortunas; jamais estudaram à noite por precisar de trabalhar de dia e a maioria nunca estudou. Alegam não ter mais condições físicas para continuarem jogando após os 35 anos. Verdade?!!! Então que se dediquem a outra profissão após essa idade no caso de não terem feito o pé de meia ou apliquem o seu capital no sector produtivo, enfim. Na minha juventude fui ginasta olímpico, com especial aplicação na "mesa alemã", fui corredor de 100 metros rasos, lançador de peso e dardo. Foram as minhas grandes paixões no desporto. Jamais deixei de trabalhar por causa disso...Na verdade penso que a prática de qualquer desporto jamais deveria ser profissionalizante. A mesma coisa digo, como outro exemplo, para aqueles que se reformam porque fôram digitadores por alguns anos e não podem mais exercer esse trabalho; procurem outro em que trabalhem com a mente.
Não só em Portugal. Aqui no Brasil e acredito que em outros países, essas coisas a que chamo de "barbaridades" são uma realidade, infelizmente. Isso tem que mudar.