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sexta-feira, março 09, 2012

Nome da Rua ?

Tenho que confessar que admiro blogueiro que escreve todos os dias. Entenda-se escrever com substância porque, escrever por escrever e sem nexo, qualquer um faz... Digo isto porque faz um bom tempo que eu não escrevo nada aqui. Um dos motivos é a preguiça, um outro é a falta de inspiração ou até mesmo de assunto que não esteja surrado. Então, faço as pazes com o meu blog hoje, mas não prometo que volte a escrever amanhã.
A matéria que me propuz a escrever poderá ser proveitosa para a Câmara de Vereadores da cidade onde moro há muitos anos --- Campinas. Se é que por  tal eles se interessem e que porventura venham a visitar a minha página alguma vez na vida.
Sei que esses vereadores tiram leite até de pedra... Notei qua há meia dúzia de anos atrás, talvez nem tanto, foram colocadas placas de identificação das ruas e sem olhar a gastos, pois afixavam-nas nos postes do inicio, meio e final. Certamente que houve aí um terço de exagero... Placas de chapa de aço carbono pintadas de azul e letras em branco. O azul ainda lá está, meio desbotado, e as letras sumiram. Hoje ninguém mais consegue ler o nome das ruas. Mais uma vez foi dinheiro do povo que se esvaiou pelo ralo.
Ou eu tenho que acreditar que o conjunto de vereadores mamou na mesma teta ou, então, não existe um número com a inteligência necessária para provar que está tudo errado e abortar esse tipo de projeto.
Vejam no outro quadro, ao lado direito, que na mesma cidade existem meia dúzia de ruas identificadas coerentemente, tanto pelo tipo de placa usada como também no que se refere ao local exacto da colocação da mesma.
Dessa maneira, colocando a placa sempre na parede da casa ou prédio da esquina, quem procura sempre saberá onde o fazer. Evita-se até a colocação de canos nas calçadas que são mais um obstáculo para os pedestres, além de enfeiar ainda mais a cidade que já é horrível com esse emaranhado de fiação aérea e postes de concreto por todo o lado.
Também concordo se alguém disser que esse tipo de placa (ferro fundido ou chapa esmaltada) é muito cara. Todavia, elas duram uma eternidade.
Na bela cidade de Évora em Portugal, onde vivi e tenho a minha família, as ruas são todas identificadas com uma placa de azulejos amarelos e letra preta (poderia-se dizer amarelejos em vez de azulejos, talvez...) a cada esquina e sempre colocada nas casas das pontas ou tôpo de alguma travessa confluente. São placas grandes e bem visíveis. Jamais existe o desconforto de perder muito tempo precioso procurando. Sabe-se de antemão onde procurar a placa que identifica a rua com a certeza que as letras não sumiram com o rigor do tempo. Até mesmo, se um dia a casa tiver que ser demolida ou reformada, a placa será reaproveitada com toda a certeza.
Não posso afirmar neste momento, por falta de documentação, qual a idade desse tipo de placa. Mas sei que muitas têm mais de cem anos. Coloco um quadro de fotos ao lado direito que comprova isso.
A foto do canto inferior esquerdo é de um tempo muito remoto; talvez uns 120 anos. Repare-se que na esquina do prédio tem lá a placa do mesmo tipo que as demais.
A foto do canto inferior direito é referente a um famoso restaurante dos meus amigos irmãos Fialho e, como esquina que é tem a toponímica está correcta. Além disso, a placa do restaurante também é em azulejo.
Notaram que também existe uma placa em mármore com as letras em baixo relevo e pintadas de preto. Aparecem algumas em ruas que ficam externas ao centro histórico, fóra das muralhas medievais, portanto. Esse tipo de placa é o que se usa na minha cidade natal --- Estremoz. Afinal, lá é a terra do mármore. Esse tipo de placa perde em relação às de azulejos por a letra ser menor e a tinta desaparecer com o tempo. Aí eu proponho uma medida de que talvez ninguém se tenha lembrado: pintar as letras como pena alternativa decretada pela Justiça a réus de pequenas causas que tenham sido condenados.
E já que abordei aqui políticos, réus e placas de azulejos, ofereço-vos o quadro de duas fotos a seguir. Foi-me enviado por um amigo que móra lá em Oeiras, Portugal e a copiou da internet.
Sei que essa placa existiu lá, que foi colada sobre uma outra de mármore ou basalto durante campanha eleitoral. Agora parece que não está mais, até porque o gajo continúa sendo o manda-chuva do pedaço... Mas é uma ideia que poderá ser copiada. Afinal, colocam-se em ruas, pontes, avenidas, etc., nome de personalidades várias que de algum modo marcaram positiva e relevantemente a passagem por este mundo. Nada mais justo! Porém, acho que também devem ser lembrados para a posteridade os canalhas. Tudo isso dará lugar a que se analisem as duas vertentes e, assim, se tentará construir um mundo melhor com muito menos picarêtas e picaretagens.

domingo, janeiro 02, 2011

Calceteiros

As calçadas de pedras são uma das artes mais antigas de que se tem conhecimento. O calceteiro, assim chamado o profissional executor dessas calçadas, é profissão milenar. Tudo o que se constroi com pedra, algo que se extrai puro da Natureza, é duradoiro; e se bem feito, diria eu que quase eterno. Acredito que estejam em Portugal os maiores expoentes na arte da calceteria. Em todos os cantos do Mundo existem testemunhos dessa dedução. Nas ilustrações seguintes temos Macau, Lobito em Angola, Ponta Delgada nos Açores, Portugal Continental.

Lembro-me quando um grupo de calceteiros portugueses (não sei se tinha algum de Estremoz, mas creio que não...) fizeram a calçada de Copacabana no Rio de Janeiro: eles cercavam o canteiro de obras com tampumes para que ninguém descobrisse o segredo da arte... Pura ignorância! --- Há pouco tempo voltou ao Rio um outro grupo de calceteiros para ensinar a arte a um grupo de profissionais brasileiros interessados. Os tempos são outros, as mentalidades mais abertas e um espírito alentejano de ser...

Nestas primeiras ilustrações cito Fernando Machado e Ernesto Matos como autores de algumas; não sei o nome dos demais autores. Coloco este apêndice (ou intermezzo) para evitar desconfortos futuros como já vim a ter noutras matérias que escrevi, principalmente as referentes a frutas tropicais..

Voltando às calçadas e aos calceteiros, é imperativo citar Estremoz. É a minha cidade natal e epicentro de uma das maiores jazidas de mármores do Mundo. Situa-se no Alentejo a 140 km de Lisboa e a 50 da fronteiriça Badajoz na Espanha.
Aqui há mármore de todas as cores, predominando o branco. Todos de extrema beleza. E sinto-me orgulhoso quando vejo fotos ou vídeos de sumptuosos palácios no Médio e Extremo Oriente revestidos de mármore que, identificado como de Carrara (Itália) na maioria das vezes, é em grande parte de Estremoz. Uma daquelas muitas sacanagens que se fazem com alguns coniventes trouxas portugueses...

Muitos daqueles blocos enormes eram extraídos quase à porta da minha casa, nos meus tempos de catraio. Eu os via serem transportados naqueles camiões grandes e isso me deslumbrava. Só mais tarde viria a saber que se dirigiam ao porto de Lisboa para serem embarcados, muitos deles para Carrara e daqui, rotulados, para o Mundo... Mas, afinal, isso não vem ao caso. Eu propuz-me a escrever, hoje, sobre os calceteiros. Nem ligarei se, por acaso, vier algum italiano enchar-me o saco e a paciência...

Sendo Estremoz terra do mármore, não poderia deixar de dar grandes escultores e calceteiros
ao Mundo. Nas ruas vemos as calçadas em pedrinhas de mármore branco com os desenhos em mármore preto ou rosado. As Donas de Casa costumam esfregar aquele pedaço em frente à soleira da porta e fica notória a diferença do branqueado com o encardido... Mas mesmo isso é lindo de se ver.

Passei a minha infância vendo os calceteiros elaborando as calçadas de muitas ruas da cidade, inclusivamente a minha então denominada Rua dos Telheiros e hoje, pomposamente, Rua Capitão Mouzinho d'Albuquerque. Ficava observando-os agachados por horas a fio com um martelo apropriado que tirava ou modificava, com uma das extremidades, algumas arestas de determinada pedra para que a mesma se encaixasse naquele exacto espaço que ele já tinha fixado num golpe rápido de vista.

A velocidade e destreza com que esses homens trabalhavam era impressionante. Eles pegavam uma qualquer pedra do monte ali formado e instintivamente já era prensada com o martelo no lugar certo. Coisas da arte e de muita prática. Também do gosto e da paixão.

A última frase do parágrafo anterior não foi escrita em vão. Aliás, nada do que escrevo é em vão. Aquilo veio aqui do fundo da minha alma. Vi, muitas vezes, como eles faziam e como não poderia deixar de ser, aprendi. "Se houvera quem me ensinara, quem aprendia era eu". Lembrei-me deste verso da que é uma das mais lindas canções alentejanas --- Rama da Oliveira ---. Directamente não houve quem me ensinara e nem mesmo algum calceteiro iria expulsar dali um miúdo de 5 ou 7 anos e aí, na verdade, é que estava o busilis da questão...

Aprendi muito na vida na base da curiosidade e da bisbilhotice. Sou um auto-didata em muitos assuntos. Por tudo o que me interesso e resolvo fazer, faço-o com paixão. No dia de Ano Novo, além de expurgar os excessos de bebidas e comidas da noite anterior, senti o prazer de refazer o canteiro do meu Ipê Amarelo (ressuscitado...) e arrumei um pouco da calçada. Hoje resolvi retirar todas as pedras dum espaço que a raiz da árvore estufou.Desbastei a terra em excesso e refiz a calçada imitando os calceteiros de antanho, dos anos da minha infância

Aqui eu senti, como afirmei lá atrás, um gostinho especial pela arte. Não senti a dor no meu joelho (...); o quebrar daquela ponta bicuda; o arredondar de uma face. Tudo na ponta cortante do martelo, para que a pedrinha encaixasse certinho no espaço obtuso. E tudo foi ficando certinho.

E ferramentas também se improvisam para tarefas deste tipo que, afinal, não é todos os dias que aparecem. Um maço como o usado por aquele calceteiro da fotografia eu não tenho. Mas o conjunto das pedras tem forçosamente que ser batido com força para a união e nivelamento do conjunto. Nessas horas temos que improvisar e foi o que fiz com essa lata cheia de concreto e presa com uma corda...

Alguém me fotografou sem que eu pedisse, mas também não fiquei aborrecido com isso. Entendam as fotos ilustrativas pelo ângulo profissional e desprezem a tentação de algum comentário sobre a estética do calceteiro. Atentem sòmente na obra domingueira.

 Durante todo o tempo tive a supervisão do meu Dálmata, Díli. Não se cachorro pensa e, assim. não sei o que ele pensou sobre todas as manobras. Mas tenho a certeza que assim que eu lhe colocar a coleira para o passeio diário, vespertino, ele irá inaugurar a obra com uma tremenda mijada. É da praxe canina...