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domingo, novembro 01, 2009

Amigos

“Eu quero ter um milhão de amigos…” é um trecho de canção cantada por Roberto Carlos. Não sei se o título também é esse, bem como também não sei se o cantor é, ao mesmo tempo o compositor e se alguém tem um milhão de amigos. Parece que sei muito pouco, mas acho que é mais porque nunca fui muito admirador do citado…
Um milhão de amigos eu tenho a certeza que jamais teria na minha vida e não tanto pelo meu caracter, mas naturalmente, pelo tempo que vivemos e pelo espaço que é exíguo em relação ao número. Além de tudo, amigo é um grau difícil de alcançar nas triagens a que submetemos as pessoas com quem nos relacionamos. Daí que muitos confundem conhecidos como amigos.
Amigo, como diz outra canção, “é coisa para se guardar no lado esquerdo do peito”. E eu guardo no meu alguns de quem me lembro do nome ou não. O nome vamos esquecendo com o decorrer do tempo, mas a imagem de todos ou algumas passagens em que fôram protagonistas permanecem.
Sou uma pessoa que jamais perdeu o hábito de tentar reencontrar muitos desses amigos, senão todos, que há muito deixaram de conviver comigo. Nem que seja só para um cumprimento ou uma troca rápida de palavras conforme as circunstâncias. Aqui mesmo, neste espaço, já coloquei alguns nomes na esperança de encontrar alguém, tipo um apêlo, bem como outras histórias já escrevi e subordinadas ao mesmo tema.
Uma época que muito marcou a minha vida e a da maioria dos então jovens portugueses, foi a dos anos 60. Devido à situação de guerra que o Portugal travava nas colónias.
Naquele tempo poucos escapavam de vir a transformar-se em carne para canhão e, por isso mesmo, desde o primeiro dia em que nos alinhávamos, compulsóriamente, nas fileiras castrenses, até ao dia da passagem à reserva, processava-se no meio um relacionamento com sulcos profundos de amizade e solidariedade.
Por isso, são frequentes os encontros de confraternização de ex combatentes ou simplesmente  ex expedicionários, pois é grande essa força mobilizadora em cada um. Por isso, também, existe grande grande número de sites e blogues na Internet inerentes a essa época e circunstâncias.
Tenho participação interactiva em algumas dessas páginas e até já encontrei alguns ex camaradas. Poucos, mas encontrei…
Há tempos atrás, reconheci um deles através de uma foto recente e esta mostrava os mesmos traços de há 40 anos… O indivíduo não mudara nada e logo identifiquei ali o “Malveira”, apelido pelo qual era tratado na tropa.
O “Malveira” era companheiro de pelotão na recruta que fizémos na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, no Curso de Sargentos Milicianos. Ele acabou por ir para a especialidade de Intendência e eu para a de Serviço de Material. Ele para Moçambique e eu para Timor.
Enquanto em Santarém, todos os fins de semana em que íamos para as nossas cidades para os passar com a família, nós dois ficávamos num ponto da estrada que levava a Lisboa e ali pedíamos boleia (carona) aos veículos que passavam. O dinheiro era curto ou simplesmente inexistente para pagar passagens. E até pulávamos o muro de alguma quinta para conseguir colher alguma fruta, principalmente laranjas, quando a fome apertava.
E foi essa história das laranjas que eu citei num e-mail que enviei ao “Malveira”, quando o descobri naquele site, como ponto de referência para que ele se lembrasse de mim. Tinha a certeza que se iria lembrar! Mas a minha surpresa e decepção foram muito grandes quando, simplesmente, respondeu serem aqueles actos de surrupiu da coisa alheia algo reprovável e dos quais não se lembrava. Assim mesmo. Curto e grosso.
Hoje, mais uma vez, naveguei na Internet e visitei alguns desses sites que referi. Encontrei o do Batalhão de Caçadores 1916 e lá estavam algumas fotos do meu camarada quando da sua estadia em Mueda, Moçambique.
Como as fotos estavam abertas a comentários, numa delas deixei o meu referindo-me às laranjas… E fiquei pensando que nem a mil amigos eu chegarei, quanto mais a um milhão…

sábado, julho 04, 2009

Reencontro

Vinte e seis anos depois, finalmente reencontrámo-nos. Nem todos estavam presentes, mas talvez estejam na próxima vez que nos reunirmos.
No ano de 1980 esta turma de Administração de Empresas e outras de outros cursos, inauguraram o Campus das Faculdades Padre Anchieta, na cidade de Jundiaí. Para todos nós foi um privilégio.
Após a formação, em 1983, a maioria de nós jamais se encontrou e isso eu considero um pecado gravíssimo... Devido à correria dos dias de hoje e porque cada um se dispersou, alguns até para outros países, no afinco da sua profissionalização ou na busca de melhores oportunidades, não houve um interesse geral em marcar encontros com alguma assiduidade.
Desta vez essa missão foi criada e concretizada pelo esforço de uma meia dúzia de abnegados. Para todos os que estiveram presentes a alegria foi transbordante. Cada um que chegava era recebido apoteóticamente. Neste tipo de encontro, o que mais se recorda são as passagens de antanho, principalmente as mais pitorescas, e no bojo a curiosidade sobre a vida de cada um. Foi um dia maravilhoso para todos nós e, na hora das despedidas, a promessa de um contacto permanente e o esboço do projecto para a próxima reunião.

sábado, setembro 06, 2008

Tarde triste

Como todos os dias faço, acabei de trocar a música de fundo deste blog. Tenho uma lista de músicas e canções que escolhi especialmente para colocar aqui. E só toca uma vez, ficando a opção de repetição para quem escuta.
A que estava na ordem para hoje é "Tarde triste" na linda voz da saudosa Maysa. Foi uma grande coincidência pelo facto desta ser realmente uma tarde triste. Tive notícias da morte de dois grandes amigos que não via há muito tempo e nenhum dos dois eu poude acompanhar até à sua última morada; a notícia veio hoje e os acontecimentos são passados.
O Gabriel eu conheci há vinte anos atrás quando da última vez morei em Portugal. Pertencia a um grupo de amigos que todas as manhãs se reunia na Praça do Geraldo, religiosamente, por volta das 10 horas. Iniciava-se, ali, uma prosa gostosa e que continuava nas visitas que depois empreendíamos por quatro ou cinco tascas, provando os tintos ou brancos e beliscando alguns petiscos. Era um aperitivo para o almoço que cada um de nós comia depois na sua casa, se para tal houvesse vontade...
O que marcava mais nas nossas reuniões, era a intransferível pescaria marcada para todas as quartas-feiras. Nesse dia de cada semana nos reuníamos de madrugada e lá partíamos para o local prèviamente escolhido. Passámos por uma das padarias, na cidade ou no campo, que a essas horas já tínham tirado do forno o inigualável casqueiro alentejano e tomávamos o indispensável mata-bicho que era, quase sempre, uma boa bagaceira e um cafézinho.
Chegávamos ao local da pescaria, preparávamos o material e lançávamos as linhas. Depois íamos tomar o pequeno almoço que consistia numa lasca de toucinho, um pedaço de linguiça, farinheira ou paio, tudo assado na lamparina de álcool e acompanhado daquele pão mole e ainda quente. O garrafão de vinho, inteiro, era absorvido...
Quantas "palhaçadas", piadas, brincadeiras e histórias eram soltas naquelas horas. Três desse grupo já se fôram: Pisco, Cardoso e, agora, o Gabriel (Lambuça). Eles eram o núcleo daquele grupo, a chama que o mantinham coeso.
Voltando-me para o Brasil, tenho a imagem do meu amigo Ferreira. Torcedor ferrenho da Ponte Preta, mas os nossos laços de amizade não incluíam o futebol. Diàriamente nos encontrávamos no Café Regina em Campinas. Ali, ele fazia parte de todos os grupos pela sua popularidade e fino trato. De origem portuguesa, mas brasileiro, amava tudo o que com Portugal se relacionasse e, sempre que eu ía de visita à minha terra, trazia-lhe um pequeno presente; o último foi a colecção das moedas de Euro, portuguesas, que tínham acabado de ser lançadas. Sempre me pedia para lhe conseguir um emblema do Benfica mas, infelizmente, não será mais possível.
Nesta tarde triste transmito aos dois Amigos um grande abraço, muito apertado, tal e qual a força da minha grande admiração, carinho e amizade, agradecendo pelo espaço que preencheram na minha vida.