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segunda-feira, agosto 17, 2009

Alentejo e Alentejanos


Palavra mágica que começa no Além e termina no Tejo, o rio da portucalidade. O rio que divide e une Portugal e que, à semelhança do Homem Português, fugiu de Espanha à procura do mar. O Alentejo molda o carácter de um homem. A solidão e a quietude da planície dão-lhe a espiritualidade, a tranquilidade e a paciência de monge; as amplitudes térmicas e a agressividade da charneca dão-lhe a resistência física, a rusticidade, a coragem e o temperamento do guerreiro. Não é alentejano quem quer. Ser alentejano não é um dote, é um dom. Não se nasce alentejano, é-se alentejano.
Portugal nasceu no Norte, mas foi no Alentejo que se fez Homem. Guimarães foi o berço da nacionalidade; Évora o berço do Império Português. Não foi por acaso que D. João II se teve que refugiar em Évora para descobrir o caminho marítimo para a Índia. No meio das montanhas e das serras, um homem tem as vistas curtas; só no coração doAlentejo um homem pode ver ao longe.
Foi preciso Bartolomeu Dias regressar ao reino, depois de dobrar o Cabo das Tormentas, sem conseguir chegar à Índia, para D. João II saber que só o costado de um alentejano conseguiria suportar o peso de um empreendimento daquele vulto. Aquilo que para um homem comum fica muito longe, para um alentejano fica já ali... Para um alentejano não há longe, não há distâncias, porque só ele percebe, infinitamente, que a vida não é uma corrida de resistência onde a tartaruga leva sempre a melhor sobre a lebre.
Foi por esta razão que o sucessor de D. João, D. Manuel I, decidiu entregar a chefia da armada a Vasco da Gama. Mais de dois anos no mar... E, quando regressou, ao ser inquirido se a Índia era longe, Vasco da Gama respondeu: "Não, é já ali.". O fim do mundo, afinal, ficava ao virar da esquina...
Para um alentejano, o caminho faz-se caminhando e só é longe o sítio onde não se chega sem parar de andar. Vasco da Gama limitou-se a continuar a andar de onde Bartolomeu Dias tinha parado. Um dos grandes problemas de Portugal é precisamente este: muios "Bartolomeu Dias" e poucos "Vasco da Gama". Demasiada gente que não consegue terminar o que começa, que desiste quando a glória está perto e o mais difícil já foi feito. Ou seja, muitos portugueses e poucos alentejanos.
D. Nuno Álvares Pereira, aliás, já tinha percebido isso. Caso contrário, não teria partido tão confiante para Aljubarrota. D. Nuno sabia bem que uma batalha não se decide pela quantidade, mas pela qualidade dos combatentes. É certo que o rei de Castela contava com um poderoso exército composto por espanhois e portugueses, mas o Mestre de Avis tinha a vantagem de contar com meia dúzia de alentejanos nas suas fileiras. Não se estranhe, assim, a resposta dele aos seus irmãos quando o tentaram convencer a mudar de campo argumentando da desproporção numérica: "Vocês são muitos? O que é que isso interessa se os alentejanos estão do nosso lado?!".
Mas o alentejanos não servem só as grandes causas, nem servem só para as grandes guerras. Não há como um alentejano para disfrutar plenamente dos mais simples prazeres da vida. Por isso, se diz que Deus fez a mulher para ser a companheira do homem. Mas, depois, teve que fazer os alentejanos para que as mulheres também tivessem algum prazer. Na cama e na mesa, um alentejano nunca tem pressa. Daí a resposta de Eva a Adão quando este, intrigado, lhe perguntou o que é que o alentejano tinha que ele não: "Têm tempo e tu tens pressa.". Quem anda a correr, não chega a lugar algum. E muito menos ao coração de uma mulher. Andar a correr é algo que os alentejanos não fazem. Até porque o Alentejo e os alentejanos fôram feitos no sétimo dia, precisamente aquele que Deus tirou para descansar.
Até nas anedotas os alentejanos revelam a sua diferença humana e intelectual. Os brancos contam anedotas dos pretos; os brasileiros dos portugueses; os franceses dos argelinos... Só os alentejanos as inventam e contam sobre si próprios. E divertem-se imenso, ao mesmo tempo que servem de espelho a quem as ouve. Mas, para que uma pessoa se ria de si própria, não basta ser ridículo, pois ridículos somos todos nós; é necessário ter senso de humor e só isso é um extra disponível nos seres humanos topo de gama.
Não se confunda, no entanto, senso de humor com alarvice. O senso de humor é um dom da inteligência; a alarvice é um tique de gente bronca e mesquinha. Enquanto o alarve se diverte com as desgraças alheias, quem tem senso de humor ri-se de si próprio. Não há honra maior do que ser objecto de uma boa gargalhada. O sentido de humor humaniza as pessoas, enquanto a alarvice as diminui. Se Hitler e Staline se rissem de si próprios, nunca teriam sido as bestas que foram. E as anedotas alentejanas são autênticas pérolas de humor: curtas, incisivas, inteligentes e desconcertantes, revelam um sentido de observação, um sentido crítico e um poder de síntese notáveis.
Como bom alentejano que me prezo de ser, deixei o melhor para o final.
O Alentejo, como todos sabemos, é o único sítio do mundo onde não é castigo uma pessoa ficar a pão e água. A água é aquilo por que todo o alentejano anseia. E o pão... Mas há melhor iguaria do que o pão alentejano? --- o pão alentejano come-se com tudo e com nada; é aperitivo, refeição e sobremesa. É o único pão do mundo que não tem pressa de ser comido... É tão bom no primeiro dia como no dia seguinte ou ao fim de uma semana. Só quem come o pão alentejano está habilitado para entender o mistério da fé. Comê-lo, faz-nos subir ao céu!... É por tudo isto que, sempre que passeio pela charneca numa noite quente de Verão, ou sinto no rosto o frio cortante das manhãs de Inverno, dou graças a Deus por ser alentejano. Que maior bênção um homem poderia almejar?
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Adaptação de um texto de Carlos Barreto

segunda-feira, abril 27, 2009

Bentonices

Mais uma vez o Papa Bento XVI pisou na bola; escorregou na maionese; deu mancada. Poderia acrescentar mais algumas expressões como “mijou fora do penico”, mas aí o nível cairia bastante e isso não se coadunaria numa referência a Sua Santidade...

Não leu ou simplesmente ignorou a mensagem do Patriarca de Lisboa, na qual este sugeria “realçar os valores da santidade, em detrimento de exaltações patrióticas” a quando, no dia seguinte (ontem), se realizaria a cerimônia de canonização de mais um santo português --- D. Nuno Álvares Pereira.

O maior feito de D. Nuno foi vencer a batalha de Aljubarrota comandando um pequeno exército de 6000 portugueses e aliados ingleses, contra 30 000 soldados das tropas castelhanas, entre 1383 e 1385, num período de grande instabilidade e que veio a consolidar a independência de Portugal.

Existe uma estória na história que conta ter ido D. João de Castela ao Convento do Carmo, em Lisboa, encontrar-se com D. Nuno. O castelhano ter-lhe-ía perguntado o que ele faria se Castela invadisse Portugal outra vez!? O irmão Nuno (aqui sem Dom...) teria levantado o seu hábito e mostrado, por baixo deste, a manguaça, dizendo que ela sempre poderia entrar em ação para servir Castela...

Considerando estes dois eventos como dois grandes feitos, subtilmente eles se enquadram no espírito da mensagem, acima referida, do Patriarca de Lisboa ao seu Chefe. Este não percebeu que aqui não há nada de santidade e, principalmente, que os espanhóis, eternamente vizinhos e agora muy amigos, não vão gostar nada da piada.

Mudando o rumo, mas no mesmo espaço, realço que Portugal tem agora oito santos, não considerando os outros cinco que também nasceram no jardim à beira mar plantado, antes da fundação da nacionalidade em 1143.

Só um deles é alentejano de nascimento – São João de Deus. D. Nuno foi conde de Arraiolos e Barcelos e, assim, a nossa capital dos tapetes chamou-o ao nosso ninho de alguma forma. A Rainha Santa Isabel nasceu do outro lado da fronteira (Aragão) e era a mulher do rei D. Dinis; os dois passaram grande parte do seu reinado em Estremoz e ela ali faleceu em 1336.