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quarta-feira, outubro 28, 2015

Tempos de Guerra

NO ALENTEJO ERA ASSIM!
Dia das Sortes
Mote
No dia que fui às sortes
Com outros mancebos da terra
Foi o primeiro passaporte
Assinado para ir à guerra

I
Por altura do São João
Vesti o meu fato novo
Era um creme casca de ovo
Para levar à inspecção.
Foi um dia de emoção
Para todos os consortes
Eu era dos menos fortes
Para o serviço militar
Tive vontade de chorar
No dia que fui às sortes

II
Éramos sete joviais
Esse ano, na minha aldeia
Por volta das dez e meia
Juntámos a outros mais.
Despidos como animais
Em dia que vão prá ferra
Se hoje, a memória não erra
Quando fui inspeccionado
Fui promovido a soldado
Com outros mancebos da terra

III
Apto e com guia passada
Para o serviço militar
A marca para o comprovar
Era uma fita encarnada.
Numa carroça alugada
E um asno, a buscar a morte
Foi esse o nosso transporte
Naquele dia de festa
Como o passado o atesta
Foi o primeiro passaporte

IV
Ao toque da concertina
Fez-se um baile até às tantas
Correu álcool nas gargantas
Houve muita adrenalina.
Essa praxe masculina
Andava muito na berra
A minha história encerra
Depois de perdas e danos
Fiz um contrato três anos
Assinado para ir á guerra

Tiago Neto
Foto da NET

quinta-feira, junho 21, 2007

POETAS ALENTEJANOS (Décimas)

Hoje dediquei um pouco do meu tempo para uma passagem de olhos sobre alguns dos alfarrábios da minha biblioteca. De repente, defronto-me com umas décimas cujo conteúdo é muito actual. Aliás, sempre actual no decorrer destes anos todos que tenho vivivo, pois parece que nada mudou...
Ó BURGUÊS NÃO TE ADMIRES
MOTE
Ó burguês não te admires
do que pode acontecer
tanta coisa possuires
sem nada te pertencer
I
Tu pensas que eu não sei
que não mereces o que gozas
coisas tão maravilhosas
roubadas ao esforço alheio
vives num alto recreio
sem sofrimentos sentires
para fóra do planeta
e se a justiça te fôr feita
ó burguês não te admires
II
Quem tenha o sentido agudo
bem vê que esta ordem é malvada
os que não produzem nada
querem ser donos de tudo
não podemos ter descuido
já os vamos combater
para fazer desaparecer
a quadrilha desse bando
é já tempo de ires pensando
no que pode acontecer
III
Esta é a alta verdade
a fortíssima razão
quem trabalha é que produz pão
para toda a humanidade
e tu vives da crueldade
para ainda em cima te rires
e para mim nunca mais te vires
com dentes de cão raivoso
chega para seres criminoso
tanta coisa possuires
Autor: Francisco Angélico (Tio Chico "Velhaco")

segunda-feira, maio 14, 2007

POESIA ALENTEJANA - Décimas -

MOTE

Salazar para o burguês

foi um homem de valor

deu ao povo português

miséria, fome e terror

I

Carrasco sem coração

tantos lares arruinaste

tantos homens que mataste

tantos que tens na prisão

meteste na escravidão

todo o povo português

todos os crimes que fez

não esquecem à humanidade

tu só deste liberdade

Salazar para o burguês

II

Tua vida terminou

fascista sem coração

deste tanta aflição

a quem não te prejudicou

todo o mundo te considerou

como o maior ditador

foste tu o fundador

da ditadura fascista

só para o grande capitalista

foste um homem de valor

III

Falavas na lei de Deus

lei que nunca cumpriste

todos sabem que não seguiste

nenhum mandamento dos seus

seguiste a lei dos Judeus

matando quem tanto bem fez

tu prendeste tanta vez

homens de bom coração

quarenta anos de escravidão

deste ao povo português

IV

Já basta de opressão

velho povo português

tanto mal a todos fez

esse homem sem coração

meteu-nos na escravidão

e olhávanos com rancor

nunca ao pobre deu valor

bastantes centenas prendeu

tudo isto ele nos deu

miséria, fome e terror

(Inácio Melrinho - Poeta Popular Alentejano)