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sábado, março 08, 2014

Ainda as Mulheres

Em muitos lugares do Planeta, mercê  dos fusos horários, o Dia Internacional da Mulher já é coisa do passado. Aqui no Brasil, de onde escrevo neste momento, ainda se comemora esse dia por mais uma hora e meia... É portanto, pertinente a minha abordagem do tema Mulher.
No decorrer deste dia, muito se escreveu e falou sobre infindáveis vertentes que o tema abrange. Chamou-me especialmente a atenção uma reportagem da televisão em que se prevê que as oportunidades de emprego só sejam iguais entre homens e mulheres daqui a pelo menos vinte anos. E ainda na mesma reportagem, a contestação de haver maior número de estudantes e formaturas do sexo feminino, porém sem acesso a cargos só desempenhados pelos homens.
Concordo em que tudo isso é uma triste realidade, apesar de já se ter avançado muito nesse ambicionado campo da igualdade de oportunidades e competências. A comprovar isso, fora da generalidade, tenho algumas amigas pessoais engenheiras de produção e da construção civil, delegadas de polícia, motoristas de caminhão e de outras profissões até há pouco tempo campo restrito aos indivíduos do sexo masculino.
Mas, o fulcro desta questão que abordo hoje é o facto de confessar que tenho muito orgulho de quando naquela época distante, início dos anos 70, eu tomei uma iniciativa, incrédula para muitos.
Ocupando o cargo de gerente de produção na então Purina do Brasil, uma multinacional líder do ramo de alimentação animal, fui convidado a exercer o mesmo cargo na Mogiana Alimentos (Guabí), hoje também uma gigante do ramo.
Mudei-me com armas e bagagem da cidade de Canoas, no extremo sul do Brasil, para a cidade de Orlândia, ao norte do estado de São Paulo.
A primeira missão foi supervisionar a montagem da nova fábrica nos armazéns desactivados de uma grande empresa de produção de óleos vegetais. Em paralelo a essas funções, também me coube a montagem das equipes que viríam a operar os vários setores fabris.
Nos muitos momentos em que planejava uma série de medidas, lembrei-me de minha mãe em Portugal, que trabalhava numa fábrica de massas e rações no setor de sacarias. Um trabalho muito duro para uma mulher, mas que não era raro no meu Alentejo. Inspirei-me nisso e coloquei sobre a mesa de reuniões com a diretoria a viabilidade de contratar mulheres para algumas áreas da produção.
A ideia não foi muito bem aceite num primeiro impacto gerado. Se aprovada a minha sugestão, seria a primeira fábrica do género a empregar mulheres em cargos até então ocupados por homens. E ainda conspirava contra mim o conservadorismo daquela região em que predominavam as regras dos grandes fazendeiros, alguns dos quais sócios da nova empresa...
Com base na minha insistência e dando o aval de que a experiência inovadora daria certo, houve acordo.
Comecei a treinar a supervisão sectorial e as equipes de operários e operárias. Estas eu coloquei em serviços mais leves, naturalmente, como operadoras de ensaque, de costura da sacaria, rotulagem de embalagens, varrição e micro mix.
Sem querer desfazer dos homens, o rendimento de produção das mulheres era mais alto. Elas se debruçavam nos seus afazeres com muito mais responsabilidade e menos tempo perdido. A simples presença delas no mesmo
espaço impunha um certo respeito que contrariava algumas previsões.
Muitos anos já se passaram desde que eu abandonei essa profissão e abracei outras no decorrer da minha vida profissional. Mas ainda hoje me orgulho daquele pioneirismo na emancipação da mulher.

terça-feira, junho 26, 2012

Cães dóceis e ferozes...

Os Dálmatas, por natureza, não são cães agressivos. Antes pelo contrário, são dóceis mas fora do seu domínio.
Após muita insistência do então amigo e colega de trabalho Luciano Roppa, da Guabí, em 1975 comprei dele um filhote de Dálmata na cidade de Orlândia e, junto com uma cadela Pastor Alemão, veio para Campinas quando para esta cidade me transferi.
Comecei a criar a raça e logo abri um Canil devidamente registado nos Órgãos oficiais específicos. Nascia o "Canil Carcavelos", em homenagem à última cidade onde residi em Portugal.
Muita experiência adquiri nesta empreitada da criação de cachorros e posterior venda dos mesmos. Na relação entre homem e animal também. Porém, há sempre algo mais a aprender...
Depois que foi desfeito o meu primeiro casamento, o Canil ficou na casa da ex-mulher. Passava por lá muitas vezes. Uma dessas vezes a Rena, matriarca da família de Dálmatas, estava com filhotes recém nascidos. Era um Domingo e fui visitar os cachorros. A exemplo de outras vezes, levei a minha filhinha (segundo casamento) que tinha um ano de idade. A minha primeira preocupação foi levar a cadela Pastor Alemão para o quintal e prendê-la, por segurança. Deixei a filhinha sentada, quietinha a aguardar-me.
Quando voltei não vi a menina e repentinamente me deu um estalo: ela foi matar a sua curiosidade dentro da casinha onde estava a Rena com a sua prole. Estava toda ensanguentada e de tal modo, que nem dava para perceber a gravidade dos ferimentos. Foi só tomá-la num braço e conduzir o carro com uma só mão até ao hospital mais próximo. O pior não aconteceu, felizmente. Tem ainda hoje uma marca no rosto, mas disfarçada na sua beleza.
Depois disso e até hoje, jamais tive problemas com os meus cães. Depois de três gerações de Dálmatas tive uma cadela Labrador e por último outro Dálmata, o Díli, que comigo está actualmente.
Este cão é diferente de todos os que já tive ou conheci da raça. Ele é, simplesmente, indomável. Tem uma força descomunal e por isso judia muito de mim quando o levo a passear, preso com trela no peitoral. Já lhe coloquei "enforcador" mas desisti porque senão se enforcaria mesmo... Já me derrubou algumas vezes, mas nunca se soltou de mim... Parece não gostar de crianças e, porque eu já percebi isso, tenho o maior dos cuidados quando os meus netos vêm na minha casa. Aliás, tenho o mesmo cuidado em relação a qualquer pessoa que não seja da casa.
Hoje ele pediu-me para o levar a passear. Sim! Ele pede-me isso numa coreografia peculiar e que dispensa a fala que, claro, não tem...
Já tinha anoitecido e fomos os dois fazer, mais uma vez, um dos tradicionais trajectos. Tomei todos os habituais cuidados, como o de ir para a outra calçada quando alguém vem na minha direção, principalmente quando acompanhado de cachorro ou de criança. E, dentro desse esquema, tudo estava dando certo até que mais uma vez o Díli foi evacuar as fezes no canteiro de uma árvore. Ele só faz isso nos canteiros ou em calçadas destruídas ou mal cuidadas...
Como tenha percebido que uma pessoa subia pela calçada em sentido contrário ao meu, com uma criança no colo, tomei o cuidado de ficar bem perto e virado para o focinho do cão. Mas não adiantou! Ele me surprendeu e pulou na criança! Consegui de imediato puxá-lo com um esticão e, ao mesmo tempo que escutava toda a fúria daquele pai no desespero de ver se algo de pior teria acontecido, pedi milhões de desculpas e tentava justificar-me com a garantia de que ele jamais assim tinha agido.
Depois que o homem se acalmou mais, convidei-o a ir na minha casa que era perto. Não aceitou. Pedi-lhe, então, o seu nome e morada e ele acedeu. Vim para casa e contei o acontecido à minha mulher.
Larguei o cão e, com a mulher, fômos ao encontro daquele homem. Lá estava ele na portaria do Condomínio, comentando o sucedido com a esposa e outros condóminos e enxugando lágrimas que ainda lhe corriam dos olhos.
Soube que a criança tem 9 meses sòmente e o meu coração disparou mais uma vez quase me levando às lágrimas também.
O diálogo foi amistoso e ouve compreensão mútua dos acertos e dos erros. Prometi a mim mesmo que lavarei o Díli a passear só em lugares ermos, numa hora mais tardia, a partir de amanhã.
Admirei muito a educação e o fino trato daquele Pai, Isaías de seu nome. Como tenho ideia de o ver mais vezes, a ele e seu filhinho ali na saída da escolinha, quem sabe se não nos tornaremos Amigos!?

sexta-feira, julho 24, 2009

Guabí

Hoje é sexta-feira, estou de folga, o dia está chuvoso e nada tenho que fazer... Numa situação dessas, duas coisas fôram auto-sugeridas --- passear o meu cachorro e navegar na internet. Completei a primeira tarefa e comecei a segunda. Porém, sinceramente, a internet começa a tornar-se enfadonha na medida em que evito as notícias repetitivas nas diversas situações e falta-me vontade para descobrir outros caminhos.
Sem querer, um link clicado levou-me a um site no qual se abordava assunto de empresa que completou, no pretérito dia 10 deste mês, 35 anos da sua fundação. E ali se contava num resumo muito resumido (desculpem o pleonasmo) a história daquela que nascera com o nome de Mogiana Alimentos, S.A e por todos conhecida por Guabí, a sua marca comercial. Pelo que senti, no momento, acho que um brilho diferente tomou conta dos meus olhos, mais pelo orgulho de ter feito parte da equipe pioneira e nem um pouco pela ingratidão e desconsideração de que vim depois a ser alvo.
O fulcro da minha crónica é fincado no abstractismo dessas "História da Empresa", pois acho que se deveriam focar detalhes materiais e pessoais para se ter uma ideia concreta de como do quase nada nasceu uma grande potência. Isso seria uma informação interessante e afagava o ego daqueles que se empenharam de corpo e alma na grande epopeia. Entendo perfeitamente que nem tudo deve ser publicado, mas isso é outra história.
De um relacionamento, muito próximo, entre dirigentes da então Purina do Brasil e outros do ramo empresarial e da agropecuária da região da Alta Mogiana, nasceu a ideia de se construir uma fábrica de rações na cidade de Orlândia. Estes últimos cederam as velhas instalações de armazéns da Companhia Mogiana de Óleos Vegetais e os primeiros arregimentaram os elementos chave em diversas unidades da Purina para comandar o navio.
Nessa rede eu fui pescado em Canoas, lá no Rio Grande do Sul e com a família me mudei para Orlândia. Foi duro, muito duro. Desde a supervisão da montagem de equipamentos até à seleção e treinamento de pessoal e gerência da produção, tudo carreguei nas costas, mas fi-lo com interesse e paixão do mesmo modo que a maioria daqueles que a mim eram subordinados.
Com um ano de operação, criou-se naquele espaço uma segunda fábrica, tal a aceitação pelo mercado. Chegámos até ter que trabalhar com os normais três turnos, numa véspera e dia de Natal ininterruptamente.
Quando finalmente se transferiu a planta para a cidade vizinha de Sales de Oliveira e outras já começavam a nascer com parcerias em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul, eu já não pertencia mais à equipe.
Fui acompanhando muito superficialmente o crescimento da empresa e a sua ramificação para outros tipos de investimento, e até mesmo a aquisição da unidade Purina, de Campinas, hoje a sua séde e o grande sonho do cacique fundador... Do mesmo modo me certifiquei do grande sucesso de alguns dos pioneiros que enveredaram por outros caminhos e da desgraça de uns poucos. A foto ilustrativa mostra a costura do primeiro saco na linha de produção. Era de ração para cavalos, mas não me lembro do nome da mesma. Afinal, tudo faz parte dessa história que jamais será contada.