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sábado, outubro 10, 2009

Os Pássaros

Ao escrever este título, de imediato lembrei-me do antigo filme de 1963, de Alfred Hitchcock, protagonizado por Rod Taylor, Jessica Tandy, Suzane Pleshette e “Tippi” Hedren. Tinha eu 18 anos, gostava desse tipo de filmes e, talvez por isso, guardei todos os detalhes. Porém, como o que resolvi escrever hoje, nada mais tem em comum com o filme, além do título, só essa lembrança basta. Os pássaros são outros; mais bonitos e coloridos e de gorgeios muito mais agradáveis e sedutores.
Moro numa casa singela, que não é de minha propriedade, que tem um grande quintal atrás e um pequeno jardim na frente. Cuido dela como se fôsse minha e, assim, às plantas que aqui existiam agreguei outras mais. Adoro jardins, árvores, pássaros, a Natureza como um todo. Até o lagarto que por aqui aparece já percebeu que eu sou da paz… Doi-me o coração quando penso que tudo poderá ser derrubado no dia que alguém compre este pedaço e eu tenha que sair daqui.
Aliás, todos os dias em Campinas assisto a um desmatamento urbano que cresce na contramão de uma política ambiental que todos parecem defender e que é tónica nos grandes debates mundiais. Já tenho escutado desculpas como a de que a árvore arrancada fazia muita sombra na casa…
De há uns tempos para cá tenho notado que os habitantes e os visitantes deste meu cantinho têm aumentado em número e espécie. Como para essas coisas eu dedico atenção, até porque acabo por afastar pensamentos ruins e preocupações variadas, ontem fiz um exercício de memória e concluí uma contagem de 16 espécies diferentes. Poderão ser até mais. Isso me dá muita alegria, se bem que também me preocupa essa migração do campo para a cidade. Passo a nomeá-las com um pequeno comentário sobre a sua permanência.
A Corruira Corruira é o que se está evidenciando mais, pelo facto de ser actualmente o meu despertador matinal. O galo eu não oiço há muito tempo e deduzo que quase ninguém mais crie galinhas na cidade grande; a sua função foi tomada por este pássaro de patas delicadas que tem um canto estridente audível nas madrugadas e anoitecer.
O Pica-pau de cabeça vermelhaPica-pau é visitante esporádico e costuma vir bicar o Ipê amarelo Ipê 3 catando bichinhos. Deixa-me deslumbrado, até porque o conhecia mais nos filmes de desenhos animados… É lindo e bem vindo também.
O Sabiá Sabiápula de galho em galho na PitangueiraPiotangueira 2 e enconta com o seu trinado majestoso. Se Vivaldi tivesse vivido no Brasil, certamente teria escrito outras notas na alusão aos pássaros  na partitura da Primavera da sua obra “As 4 estações”. O que já é maravilhoso seria fantástico.
O SebinhoSebinho é o mais irrequieto e arisco de todos. Briga com o Beija-FlôrBeija-florna disputa do bebedouro que coloquei na ParreiraNinho na parreira e onde a RolinhaRolinha fez o seu ninho; um vai bicar as acerolasAcerolase as pitangas, enquanto o outro se ocupa com as flores da ResedaReseda e Larangeira-2250, laranjeira e outras plantas.
O Sanhaço Sanhaçotambém pipoca por todas as árvores e principalmente na mangueiraManga e uva quando esta tem mangas maduras. Costumo ajudar colocando banana e mamão em cima do muro para ele e demais passarada…
O PardalPardalé um dos residentes e o mais constante na área. Muitos o definem como praga introduzida no Brasil pelos portugueses. Sempre encontro ninhos deles no fôrro do telhado. Ele, as rolinhasRolinha, os PombosPombo e a Pomba-RôlaPomba rola costumam dividir a ração que coloco para o meu cachorroDíli - 2914que não se importa com o bolso do dono…
Nas sinfonias diárias que curto aqui no meu cantinho há miscelãneas e arranjos diversos com todos os intérpretes relacionados e mais o Canário da TerraCanário da terra, o PintassilgoPintassilgo e o Bem-Te-ViBem-te-vi. Estes últimos parecem cantar mais e comer menos…
O Chupim Chupimtambém cisca por aqui; pega algumas minhocas na terra. A barulhenta MaritacaMaritacaé da turma dos metais na orquestra e aparece sempre no final da tarde. Acho que é ela que chama a atenção do CarcaráCarcaráque tem ninho num dos prédios altos da cercania e costuma dar por aqui os seus vôos de reconhecimento. Nesses momentos todos se escondem e impera o silêncio…
Escrevi bastante, talvez tenha sido um pouco prolixo, mas tive o prazer de falar sobre os meus amigos de todos os dias, que me fazem bem ao espírito, que me alegram o coração e com os quais, de muitas formas, tento me comunicar como que a agradecer-lhes por conviverem comigo.          

quinta-feira, março 19, 2009

Chupins e Cucos

Gosto de me sentar num banco de jardim ou de qualquer outra área arborizada e ali ler o jornal do dia, quando o ainda não tenha feito antes de sair de casa, ou algumas páginas de um livro, pois é frequente carregar um comigo. Hábitos que estão caindo em desuso, mas que eu ainda cultivo com grande paixão.
Outros momentos existem em que sou igual à maioria dos que se sentam no banco sem nada para ler e tão sòmente para pensar na vida ou admirar a Natureza. E foi exactamente o que aconteceu na manhã de hoje.
Entre um e outro relance de olhares, sempre surge algo que nos chama a atenção, por mais insignificante que seja; pode ser a movimentação das formigas, o vôo de uma borboleta ou o chilrear dos pássaros.
Pássaros!? --- foram dois que me despertaram a curiosidade. Era um Bem Te Vi (assim chamado devido à sua linguagem onomatopaica) carregando no bico uma minhoca e pipocando o seu voar de modo a sempre pousar na frente de um Chupim que pelo solo se movimentava, oferecendo-lhe a suculenta refeição. Isso causou-me muita admiração, pois o Bem Te Vi é um pássaro pouco sociável entre os demais e chega até a ser sanguinário; já presenciei ataques a outros pássaros só pelo prazer de matar.
Sempre ouvi dizer que esse comportamento, esse acto de amor e carinho, a preocupação com a alimentação de um filhote de espécie diferente, só acontecia com o Tico Tico em relação ao Chupim e nunca imaginei o Bem Te Vi nessa cena e contexto.
Na análise do acontecimento, imediatamente me lembrei do Cuco, pássaro muito parecido com o Chupim em tudo. Mas este, habitante da Europa e Norte da África e aquele do Brasil.
O Chupim alimenta-se nas plantações de arroz e por isso é conhecido também como papa-arroz. Costuma enganar o Tico Tico e, pelo vistos outras espécies.
O Cuco alimenta-se principalmente de insectos e larvas. No entanto, ocasionalmente come também frutos, sementes e mesmo pequenos répteis ou anfíbios.
O Chupim bota os ovos dentro do ninho do Tico-Tico e a fêmea deste chocá-los-á junto com os seus. Os filhotes de Chupim nascem em prazo menor e assumem o controle do ninho, chegando a jogar fora os ovos da proprietária...
Na maioria das vezes as fêmeas de cuco procuram ninhos de outras espécies que já estejam feitos, com ou sem ovos. Se houver ovos, um deles é retirado do ninho da ave hospedeira para a mãe cuco depositar lá o seu. Em relação às duas espécies, as outras aves alimentam as suas crias. Foi o que eu presenciei hoje.
Não consegui evitar uma comparação com os seres humanos. Não própriamente nessa dança de ninhos e ovos, mas em relação ao comportamento de muitos e os quais poderei chamar de “gigolôs” ou “chulos”, citando os usuais termos daquém e dalém mar, respectivamente.