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segunda-feira, junho 26, 2023

A Cábula

 



A Cábula

Em Portugal usamos o termo “cábula”; no Brasil é “cola”. O significado é o mesmo e a função também. Costumamos identificar isso como um “auxiliar de memória”...

Existem muitas maneiras de fazer uma cábula e outras tantas de a esconder de modo a que o professor não veja, claro. Existem, também, professores muito expertos que garantem jamais algum aluno ter conseguido enganá-los. Se se sentem felizes assim com tanta convicção, deixá-los viver essa ilusão.

Reconheço que é feio e injusto usar cábulas no decorrer de uma prova ou exame. Não obstante, eu pecador me confesso. Nuna fui um aluno cú de ferro e só passava uma vista de olhos nos livros ou cadernos uma ou duas horas antes das provas. Dizem, até, que esses são os melhores alunos, mas eu jamais almejei tão honrosa deferência. Os meus métodos eram escrever com caligrafia quase microscópica num pedaço de papel ou em pequenos rolos, que se íam bobinando ou desbobinando com o auxílio de uma só mão. Eu tinha muita habilidade para isto e jamais fui descoberto.

Quanto aos professores, relembro a D. Mariana Salgueiro. Minha professora de Francês no ensino médio em Portugal. Ela era terrível! Ninguém copiava ou cabulava (???).

Subíamos dois lances de escadas no Convento de Santa Clara, em Évora, para chegarmos à nossa sala de aula. Na entrada, em dia de prova, todos deixavam os seus pertences no estrado do quadro negro. Mesmo assim, a D. Mariana ainda revistava alguns suspeitos, mas tinha um lugar em que ela não passava a mão ou apalpava nos rapazes. E era ali que eu guardava o meu rolinho que, com a portinhola (braguilha) aberta, era de fácil e insuspeito manuseio...

 

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Ontem e hoje

Ano de 1959. Cincoenta e dois anos são passados, mas a lembrança perdura. O meu grande sonho era ser oficial da Marinha de Guerra e, mais tarde, comandante de um qualquer navio mercante ou de passageiros, passaporte para conhecer o Mundo. E nesse ano esse sonho terminou...

Naquele ano eu cursava o 4º do Curso Geral de Comércio e era, como sempre fui, aquele aluno do meio da tabela; aprendia o que ouvia e não perdia horas decorando o que quer que fosse; situava-me, sempre, naquela faixa entre o medíocre + e o suficiente...

Companheiros inseparáveis naquele e nos anos anteriores da Escola, além do Calhau, Raúl Silva, Zé Baião, Constantino Pereira, Correia da Costa, Guilhermino, Chico Garcia, etc., tinha o Gualter Cabral. Este último e eu entrávamos na primeira aula de inglês e a professora, imponente no corpo e na voz disse: “vocês dois estão chumbados! Se quiserem entrar, entrem, mas não adianta”.

Um outro dia tinha Exercício de Contabilidade. Não me lembro o nome da professora; sei que era muito feia, hospedava-se num prédio do Cabido gerido por freiras e tinha um insuportável mau hálito. Eu, que não sabia patavina de Contabilidade, respondi a algumas questões e coloquei na folha a finalizar: “Continúa no próximo folhetim”. Isto dos folhetins estava em moda por causa dos da Emissora Nacional e que eu ouvia alternadamente com os Parodiantes de Lisboa.

O corpo docente reuniu-se extraordinàriamente só para avaliar o meu comportamento e eu lembro-me que fui punido com dois dias de suspensão.

Quando do regresso da punição, coincidiu haver um Exercício de Inglês. Imaginem! Sentei-me na carteira como todos os demais, rapazes e raparigas. Esquecia-me de assinalar que a turma era mista e lembro-me da Edite Garcia, Cristina entre outras. E aí aconteceu que a professora Dona I... chegou do meu lado e disse: “como não sabes merda nenhuma, faz aí uns desenhos iguais aos do Exercício de Contabilidade”. Claro que, como respeitador, cumpri e segui a sugestão... O resultado disto foram 10 dias de suspensão e estava configurada a minha reprovação de ano. Morreram os meus sonhos. No ano seguinte fui trabalhar no meu primeiro emprego em Lisboa e estudar à noite na Escola Dona Maria II, tendo como professor de História o inesquecível Talhante que no ano anterior estava em Évora.

Fui na residência da Dona I..., na Praça do Geraldo naquela época, casa de seus pais para pedir-lhe que reflectisse sobre a questão. O resultado disso foi que, quando eu voltei para as aulas ela disse para toda a classe e na minha presença: “o gajo foi na minha casa ajoelhar-se a meus pés”. Senti, definitivamente, que nada mais era possível.

Naqueles tempos tudo o que relatei se colocava num plano 180 graus oposto em relação à actualidade. Os meus pais nem do ocorrido tiveram conhecimento. Jamais foram chamados à Escola. E imaginem hoje uma professora dizer aos alunos o que me disse a mim. No mínimo apanhava do aluno e era expulsa da Escola...

Na realidade, a Escola era uma verdadeira ditadura. Naqueles Conselhos Docentes os alunos ou responsáveis não participavam e isso, per si, configurava arbitrariedade.

O Director, Guedes do Amaral, que também foi meu professor, era temido por todos nós. No fundo, porém, era boa pessoa. Lembro-me dele alguns anos mais tarde quando frequentemente eu ficava nas estradas pedindo boleia (carona) e várias vezes me abriu a porta do seu carro. Ele tinha um problema nos pés que se agravava ano a ano e lembro-me do seu sofrimento com isso. Foi o único dos docentes que referi aqui nominalmente. Da professora de Contabilidade não me lembro o nome. Da professora de Inglês sei o nome mas não o coloquei aqui por uma questão de ética, pois mesma se suicidou num dos anos da década de 90, possìvelmente por ter a consciência muito pesada.

A vida dá muitas voltas e eu acabei por me formar num curso superior, Administração de Empresas, aqui no Brasil em 1983. Sei que muitos dos meus antigos colegas não seguiram os estudos além do curso secundário e eu fi-lo já com idade avançada. Nas aulas de Ciências Contábeis, neste curso, eu fui sempre o melhor aluno, mesmo não escrevendo o nome das contas e a descrição com o bastardo francês e o cursivo inglês que muito bem aprendi... Quanto a inglês, não gosto. Falo e escrevo fluentemente espanhol e francês, mas fiquei com trauma do inglês... Não fui para a Marinha, mas a viagem que fiz para Timor como militar --- 60 dias de ida e mais 60 de volta de navio --- afagaram o meu ego...

Adios amigos! Au revoir!