A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou nesta
quarta-feira (21), após acordo entre parlamentares, a chamada Lei da
Palmada.
A proposta proíbe pais e responsáveis legais por crianças e
adolescentes de baterem nos menores de 18 anos. Aprovada em caráter
terminativo, seguirá diretamente para análise pelo Senado, sem
necessidade de votação no plenário da Câmara.
O projeto prevê que os pais que agredirem fisicamente os filhos devem
ser encaminhados a cursos de orientação e a tratamento psicológico ou
psiquiátrico, além de receberem advertência. A matéria não especifica
que tipo de advertência pode ser aplicada aos responsáveis. As crianças e
os adolescentes agredidos, segundo a proposta, passam a ser
encaminhados para atendimento especializado.
O texto altera o Estatuto da Criança e do Adolescente para incluir
trecho que estabelece que os menores de 18 anos têm o direito de serem
"educados e cuidados sem o uso de castigo físico ou de tratamento cruel
ou degradante" como formas de correção ou disciplina.
O texto acima é uma compilação parcial de artigo publicado no portal do G1 ( http://g1.globo.com ). O facto é notícia em toda a Imprensa.
Eu penso que a maioria dos deputados que aprovou este projecto, bem como a dos senadores que o votarão a seguir, mereciam, sim, levar muitas palmadas. Se porventura levaram algumas na infância ou na adolescência, ainda foram poucas e se perderam as que não os atingiram. Se tivessem "sofrido" esse tipo de castigo, certamente nem políticos seríam com o rótulo que a maioria porta...
A porta da minha casa, mesmo que não fechada à chave, só se abrirá a estranhos se antes na mesma baterem. E só entrarão se eu o permitir. Assim, o que acontece dentro dela, principalmente no que diz respeito à educação dos meus filhos e netos é de fórum íntimo e a ninguém mais interessa. Naturalmente que, se algo errado ocorra e que ultrapasse os limites da civilização, como eu mesmo faria, poderão entrar sem bater...
Eu, como a maioria dos pais, somos educados e temos plena noção de como educar os nossos filhos. Não podemos admitir que se promulgue uma lei dessa natureza. Certamente, como muitas outras, jamais será cumprida.
O título desta minha crónica, "Tira-teimas", é expressivo e tem muito a ver comigo. Lembrei-me do termo logo que da matéria em questão tive conhecimento.
Desde que me conheço por gente e até ao fim da minha adolescência, o tira-teimas fez parte do cotidiano da minha vida. Era uma correia de couro, de uns 50 centímetros livres, pregada num cabo de madeira. Ficava pendurada na parede atrás da cabeceira da mesa da sala de jantar. Não era exactamente como a da ilustração desta matéria, mas assemelhava-se, pois era um verdadeiro chicote...
Enquanto à mesa sentados, eu e meu irmão não podíamos trocar uma palavra. A hora da refeição era "sagrada". Naturalmente que algumas raras vezes pisávamos o risco desse limite e, sem percebermos de imediato, o tira-teimas queimava as nossas orelhas ou outra parte do corpo onde acertasse.
Outras vezes, quando os meus pais entendíam que as costumeiras palmadas machucavam mais as suas mãos do que a nós próprios, recorríam ao tira-teimas. Confesso que apanhei muito e às vezes sem motivo tão forte para tal. Mas fui assim educado e esse era o método geral de antanho na minha e noutras famílias.
Antes que me esqueça, recordo que na escola primária oficial (dos 7 aos 10 anos), todos os professores tinham uma régua de madeira com a qual castigavam os alunos dando-lhes determinado número de reguadas nas mãos. Escondiam-na quando da visita de algum inspector do Estado. A quantidade de reguadas dependia da gravidade do "delito" e eu cheguei a apanhar uma dúzia em cada mão... No rigoroso Inverno era terrível.
Tudo foi terrível, mas reconheço ter sido parte positiva da minha educação. Naturalmente que não morri por causa de tudo isso e ninguém daqueles tempos condenava ou condena os procedimentos. Hoje muita gente condena e certamente haverá comentários negativos a respeito do que menifesto nesta postagem. Poderei argumentar que se faça uma comparação das gerações, principalmente no que respeita ao comportamento dos alunos com os professores, dos filhos com os pais, enfim.
Tenho 5 filhos e, que eu me lembre, sòmente dei um bofetão num deles já quando adulto. Não tive como evitar e fá-lo-ia de novo hoje perante acto tão grave quanto. Aos outros eu acho que nunca dei uma palmada sequer, mas daria se necessário.
Mostrar mensagens com a etiqueta Educação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Educação. Mostrar todas as mensagens
quinta-feira, maio 22, 2014
sexta-feira, fevereiro 04, 2011
Ontem e hoje
Ano de 1959. Cincoenta e dois anos são passados, mas a
lembrança perdura. O meu grande sonho era ser oficial da Marinha de Guerra e,
mais tarde, comandante de um qualquer navio mercante ou de passageiros,
passaporte para conhecer o Mundo. E nesse ano esse sonho terminou...
Naquele ano eu cursava o 4º do Curso Geral de Comércio e
era, como sempre fui, aquele aluno do meio da tabela; aprendia o que ouvia e não
perdia horas decorando o que quer que fosse; situava-me, sempre, naquela faixa
entre o medíocre + e o suficiente...
Companheiros inseparáveis naquele e nos anos anteriores da
Escola, além do Calhau, Raúl Silva, Zé Baião, Constantino Pereira, Correia da
Costa, Guilhermino, Chico Garcia, etc., tinha o Gualter Cabral. Este último e
eu entrávamos na primeira aula de inglês e a professora, imponente no corpo e
na voz disse: “vocês dois estão
chumbados! Se quiserem entrar, entrem, mas não adianta”.
Um outro dia tinha Exercício de Contabilidade. Não me lembro
o nome da professora; sei que era muito feia, hospedava-se num prédio do Cabido
gerido por freiras e tinha um insuportável mau hálito. Eu, que não sabia
patavina de Contabilidade, respondi a algumas questões e coloquei na folha a
finalizar: “Continúa no próximo folhetim”.
Isto dos folhetins estava em moda por causa dos da Emissora Nacional e que eu
ouvia alternadamente com os Parodiantes de Lisboa.
O corpo docente reuniu-se extraordinàriamente só para
avaliar o meu comportamento e eu lembro-me que fui punido com dois dias de
suspensão.
Quando do regresso da punição, coincidiu haver um Exercício
de Inglês. Imaginem! Sentei-me na carteira como todos os demais, rapazes e
raparigas. Esquecia-me de assinalar que a turma era mista e lembro-me da Edite
Garcia, Cristina entre outras. E aí aconteceu que a professora Dona I... chegou
do meu lado e disse: “como não sabes
merda nenhuma, faz aí uns desenhos iguais aos do Exercício de Contabilidade”.
Claro que, como respeitador, cumpri e segui a sugestão... O resultado disto
foram 10 dias de suspensão e estava configurada a minha reprovação de ano. Morreram
os meus sonhos. No ano seguinte fui trabalhar no meu primeiro emprego em Lisboa
e estudar à noite na Escola Dona Maria II, tendo como professor de História o
inesquecível Talhante que no ano anterior estava em Évora.
Fui na residência da Dona I..., na Praça do Geraldo naquela época,
casa de seus pais para pedir-lhe que reflectisse sobre a questão. O resultado
disso foi que, quando eu voltei para as aulas ela disse para toda a classe e na
minha presença: “o gajo foi na minha casa
ajoelhar-se a meus pés”. Senti, definitivamente, que nada mais era possível.
Naqueles tempos tudo o que relatei se colocava num plano 180
graus oposto em relação à actualidade. Os meus pais nem do ocorrido tiveram
conhecimento. Jamais foram chamados à Escola. E imaginem hoje uma professora
dizer aos alunos o que me disse a mim. No mínimo apanhava do aluno e era
expulsa da Escola...
Na realidade, a Escola era uma verdadeira ditadura. Naqueles
Conselhos Docentes os alunos ou responsáveis não participavam e isso, per si,
configurava arbitrariedade.
O Director, Guedes do Amaral, que também foi meu professor,
era temido por todos nós. No fundo, porém, era boa pessoa. Lembro-me dele
alguns anos mais tarde quando frequentemente eu ficava nas estradas pedindo
boleia (carona) e várias vezes me abriu a porta do seu carro. Ele tinha um
problema nos pés que se agravava ano a ano e lembro-me do seu sofrimento com
isso. Foi o único dos docentes que referi aqui nominalmente. Da professora de
Contabilidade não me lembro o nome. Da professora de Inglês sei o nome mas não
o coloquei aqui por uma questão de ética, pois mesma se suicidou num dos anos
da década de 90, possìvelmente por ter a consciência muito pesada.
A vida dá muitas voltas e eu acabei por me formar num curso
superior, Administração de Empresas, aqui no Brasil em 1983. Sei que muitos dos
meus antigos colegas não seguiram os estudos além do curso secundário e eu
fi-lo já com idade avançada. Nas aulas de Ciências Contábeis, neste curso, eu
fui sempre o melhor aluno, mesmo não escrevendo o nome das contas e a descrição
com o bastardo francês e o cursivo inglês que muito bem aprendi... Quanto a
inglês, não gosto. Falo e escrevo fluentemente espanhol e francês, mas fiquei
com trauma do inglês... Não fui para a Marinha, mas a viagem que fiz para Timor como militar --- 60 dias de ida e mais 60 de volta de navio --- afagaram o meu ego...
Adios amigos! Au revoir!
Marcadores:
Alunos rebeldes,
Educação,
Escola Industrial e Comercial de Évora,
Évora,
Professores,
Professores ditadores,
Santa Clara
terça-feira, setembro 14, 2010
Fome de Marina
Há pouco, Caetano Veloso descartou do seu horizonte eleitoral o presidente Lula da Silva, justificando: “Lula é analfabeto”. Por isso, o cantor baiano aderiu à candidatura da senadora Marina da Silva, que tem diploma
universitário. Agora, vem a roqueira Rita Lee dizendo que nem assim vota em Marina para presidente, “porque ela tem cara de quem está com fome”.
Os Silva não têm saída: se correr o Caetano pega, se ficar a Rita come.
Tais declarações são espantosas, porque foram feitas não por pistoleiros truculentos, mas por dois artistas refinados, sensíveis e contestadores, cujas músicas nos embalam e nos ajudam a compreender a aventura da
existência humana.
existência humana.
Num país dominado durante cinco séculos por bacharéis cevados, roliços e enxudiosos, eles naturalizaram o canudo de papel e a banha como requisitos indispensáveis ao exercício de governar, para o qual os Silva, por serem iletrados e subnutridos, estariam despreparados.
Caetano Veloso e Rita Lee foram levianos, deselegantes e preconceituosos. Ofenderam o povo brasileiro, que abriga, afinal, uma multidão de silvas famélicos e desescolarizados. De um lado, reforçam a ideia burra e cartorial de que o saber só existe se for sacramentado pela escola e que tal saber é condição sine qua non para o
exercício do poder. De outro, pecam querendo nos fazer acreditar que quem está com fome carece de qualidades para o exercício da representação política.
exercício do poder. De outro, pecam querendo nos fazer acreditar que quem está com fome carece de qualidades para o exercício da representação política.
A rainha do rock, debochada, irreverente e crítica, a quem todos admiramos, dessa vez pisou na bola feio.“Venenosa! Êh êh êh êh êh!/ Erva venenosa, êh
êh êh êh êh!/ É pior do que cobra cascavel/ O seu veneno é cruel…/ Deus do céu!/ Como ela é maldosa!
Nenhum dos dois - nem Caetano, nem Rita, têm tutano para entender esse Brasil profundo que os silvas representam.
êh êh êh êh!/ É pior do que cobra cascavel/ O seu veneno é cruel…/ Deus do céu!/ Como ela é maldosa!
Nenhum dos dois - nem Caetano, nem Rita, têm tutano para entender esse Brasil profundo que os silvas representam.
A senadora Marina da Silva tem mesmo cara de quem está com fome? Ou se trata de um preconceito da roqueira, que só vê desnutrição ali onde nós vemos uma
beleza frágil e sofrida de Frida Kahlo, com seu cabelo amarrado em um coque, seus vestidos longos e seu inevitável xale? Talvez Rita Lee tenha razão em ver fome na cara de Marina, mas se trata de uma fome plural, cuja geografia precisa ser delineada. Se for fome, é fome de quê?
beleza frágil e sofrida de Frida Kahlo, com seu cabelo amarrado em um coque, seus vestidos longos e seu inevitável xale? Talvez Rita Lee tenha razão em ver fome na cara de Marina, mas se trata de uma fome plural, cuja geografia precisa ser delineada. Se for fome, é fome de quê?
O mapa da fome. A primeira fome de Marina é, efetivamente, fome de comida, fome que roeu sua
infância de menina seringueira, quando comeu a macaxeira que o capiroto ralou. Traz em seu rosto as marcas da pobreza, de uma fome crónica que nasceu com ela na colocação de Breu Velho, dentro do Seringal Bagaço, no Acre.
infância de menina seringueira, quando comeu a macaxeira que o capiroto ralou. Traz em seu rosto as marcas da pobreza, de uma fome crónica que nasceu com ela na colocação de Breu Velho, dentro do Seringal Bagaço, no Acre.
Órfã da mãe ainda menina, acordava de madrugada, andava quilómetros para cortar seringa, fazia roça, remava, carregava água, pescava e até caçava. Três de seus irmãos não aguentaram e acabaram aumentando o alto índice de mortalidade infantil.
Com seus 53 quilos atuais, a segunda fome de Marina é dos alimentos que, mesmo agora, com salário de senadora, não pode usufruir: carne vermelha, frutos do mar, lactose, condimentos e uma longa lista de uma rigorosa dieta prescrita pelos médicos, em razão de doenças contraídas quando cortava seringa no meio da floresta. Aos seis anos, ela teve o sangue contaminado
por mercúrio. Contraiu cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose.
por mercúrio. Contraiu cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose.
A fome de conhecimentos é a terceira fome de Marina. Não havia escolas no seringal. Ela adquiriu os saberes da floresta através da experiência e do mundo mágico da oralidade. Quando contraiu hepatite, aos 16 anos, foi para a cidade em busca de tratamento médico e aí mitigou o apetite por novos saberes nas aulas do Mobral e no curso de Educação Integrada, onde aprendeu a ler e escrever.
Fez os supletivos de 1º e 2º graus e depois o vestibular para o Curso de História da Universidade Federal do Acre, trabalhando como empregada doméstica, lavando roupa, cozinhando, faxinando.
Fez os supletivos de 1º e 2º graus e depois o vestibular para o Curso de História da Universidade Federal do Acre, trabalhando como empregada doméstica, lavando roupa, cozinhando, faxinando.
Fome e sede de justiça, essa é sua quarta fome. Para saciá-la, militou nas Comunidades Eclesiais de Base, na associação de moradores de seu bairro, no movimento estudantil e sindical. Junto com Chico Mendes, fundou a CUT no Acre e depois ajudou a construir o PT. Exerceu dois mandatos de vereadora em Rio Branco , quando devolveu o dinheiro das mordomias legais, mas escandalosas, forçando os demais vereadores a fazerem o mesmo. Elegeu-se deputada estadual e depois senadora, também por dois mandatos, defendendo os índios, os trabalhadores rurais e os povos da floresta.
Quem viveu da floresta, não quer que a floresta morra. A cidadania ambiental faz parte da sua quinta fome.
Quem viveu da floresta, não quer que a floresta morra. A cidadania ambiental faz parte da sua quinta fome.
Ministra do Meio Ambiente, ela criou o Serviço
Florestal Brasileiro e o Fundo de Desenvolvimento para gerir as florestas e estimular o manejo florestal. Combateu, através do Ibama, as atividades predatórias. Reduziu, em três anos, o desmatamento da Amazónia de 57%, com a apreensão de um milhão de metros cúbicos de madeira, prisão de mais 700 criminosos ambientais,
desmonte de mais de 1,5 mil empresas ilegais e inibição de 37 mil propriedades de grilagem.
Florestal Brasileiro e o Fundo de Desenvolvimento para gerir as florestas e estimular o manejo florestal. Combateu, através do Ibama, as atividades predatórias. Reduziu, em três anos, o desmatamento da Amazónia de 57%, com a apreensão de um milhão de metros cúbicos de madeira, prisão de mais 700 criminosos ambientais,
desmonte de mais de 1,5 mil empresas ilegais e inibição de 37 mil propriedades de grilagem.
Tudo vira bosta! Esse é o retrato das fomes de Marina da Silva que - na voz de Rita Lee – a descredencia para o exercício da presidência da República porque, no frigir
dos ovos, “o ovo frito, o caviar e o cozido/ a buchada e o cabrito/ o cinzento e o colorido/ a ditadura e o o primido/ o prometido e não cumprido/ e o programa do partido: tudo vira bosta”.
Lendo a declaração da roqueira, é o caso de devolver-lhe a letra de outra música - ‘Se Manca’ - dizendo a ela: “Nem sou Lacan/ pra te botar no divã/ e ouvir sua merda/ Se manca, neném!/ Gente mala a gente trata com desdém/ Se manca, neném/ Não vem se achando bacana/ você é babaca”.
Rita Lee é babaca? Claro que não, mas certamente cometeu uma babaquice. Numa de suas músicas - ‘Você vem’ - ela faz autocrítica antecipada, confessando:
“Não entendo de política/ Juro que o Brasil não é mais chanchada/ Você vem… e faz piada”. Como ela é mutante, esperamos que faça um gesto grandioso, um
pedido de desculpas dirigido ao povo brasileiro, cantando: “Desculpe o auê/ Eu não queria magoar você”.
“Não entendo de política/ Juro que o Brasil não é mais chanchada/ Você vem… e faz piada”. Como ela é mutante, esperamos que faça um gesto grandioso, um
pedido de desculpas dirigido ao povo brasileiro, cantando: “Desculpe o auê/ Eu não queria magoar você”.
A mesma bala do preconceito disparada contra Marina atingiu também a ministra Dilma Rousseff, em quem Rita Lee também não vota porque, “ela tem cara de professora de matemática e mete medo”. Ah, Rita Lee conseguiu o milagre de tornar a ministra Dilma menos antipática! Não usaria essa imagem, se tivesse aprendido elevar uma fração a uma potência, em Manaus, com a
professora Mercedes Ponce de Leão, tão fofinha, ou com a nega Nathércia Menezes, tão altaneira.
professora Mercedes Ponce de Leão, tão fofinha, ou com a nega Nathércia Menezes, tão altaneira.
Deixa ver se eu entendi direito: Marina não serve porque tem cara de fome. Dilma, porque mete mais medo que um exército de logaritmos, catetos, hipotenusas, senos e co-senos. Serra, todos nós sabemos, tem cara de vampiro. Sobra quem? Se for para votar em quem tem cara de quem comeu (e gostou), vamos ressuscitar, então, Paulo Salim Maluf ou Collor de Mello, que exalam saúde por todos os dentes. Ou o Sarney, untuoso, com sua cara de ratazana bigoduda. Por que não chamar o José Roberto Arruda, dono de um apetite voraz e de cuecões multi-bolsos? Como diriam os franceses, “il péte de santé”.
O banqueiro Daniel Dantas, bem escanhoado e já desalgemado, tem cara de quem se alimenta bem. Essa é a elite bem nutrida do Brasil…
O banqueiro Daniel Dantas, bem escanhoado e já desalgemado, tem cara de quem se alimenta bem. Essa é a elite bem nutrida do Brasil…
Rita Lee não se enganou: Marina tem a cara de fome do Brasil, mas isso não é motivo para deixar de votar nela, porque essa é também a cara da resistência, da luta da inteligência contra a brutalidade, do milagre da sobrevivência, o que lhe dá autoridade e a credencia para o exercício deliderança em nosso país.
Marina Silva, a cara da fome? Esse é um argumento convincente para votar nela. Se eu tinha alguma dúvida, Rita Lee me convenceu definitivamente.
Por José Ribamar Bessa Freire
Professor, coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ)e pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO)
terça-feira, dezembro 08, 2009
Culturas
Sempre imperou a ideia de que o sul do país era mais avançado em questão de cidadania e organização. Curitiba, capital do Paraná, era sempre apresentada como cidade modelo. Enfim, com a predominância da imigração alemã, italiana, polaca e portuguesa, tínhamos nos Estados do sul uma certa maquiagem europeia que se distanciava do resto do país.
Sempre fiquei um tanto ou quanto cético quanto a esse retrato, pois que, havendo as origens portuguesas em todo o território nacional, sentia-me chutado para escanteio, principalmente quando nos acusam como sendo a origem de tudo o que está errado desde 1500…
Muito bem. Então vou tirar os portugueses desse retrato tão bajulado por alguns e até porque, sendo massivamente de origem açoriana e alentejana (aqui os alentejanos prevalecem porque são também os açorianos descendentes destes…), eles jamais protagonizariam cenas selváticas como as que assistimos no final do jogo em Curitiba e na recepção dos jogadores gremistas em Porto Alegre.
Não estou aqui fazendo uma discriminação entre povos ou entre as suas origens. Só quero dizer que no melhor pano cai a nódoa…
Neste imenso país há bons e maus em todos os lugares; cultos e analfabetos, ricos e miseráveis, também. Assim, analisemos os acontecimentos por outro prisma.
Os valores estão-se degradando exponencialmente e tudo isso é fruto do olhar para cima, da impunidade que reina nas altas esferas e no abandono e escárnio a que estão deixando o povo.
Assim, aquele extravazamento por parte dos torcedores que já está enraizado na própria cultura, como o xingar a mãe do juiz e etc., começa a ultrapassar os limites do bom senso e já se tornou perigoso. Isso acontece de norte a sul e uns não são melhores do que os outros.
Há que gritar com a mula e fazê-la chegar ao rêgo, de modo a que a relha do arado sulque a terra em linhas rectlíneas e devidamente espaçadas. Só assim a seara despontará firme e verdejante para depois ser ceifada dourada e brilhante.
Sempre fiquei um tanto ou quanto cético quanto a esse retrato, pois que, havendo as origens portuguesas em todo o território nacional, sentia-me chutado para escanteio, principalmente quando nos acusam como sendo a origem de tudo o que está errado desde 1500…
Muito bem. Então vou tirar os portugueses desse retrato tão bajulado por alguns e até porque, sendo massivamente de origem açoriana e alentejana (aqui os alentejanos prevalecem porque são também os açorianos descendentes destes…), eles jamais protagonizariam cenas selváticas como as que assistimos no final do jogo em Curitiba e na recepção dos jogadores gremistas em Porto Alegre.
Não estou aqui fazendo uma discriminação entre povos ou entre as suas origens. Só quero dizer que no melhor pano cai a nódoa…
Neste imenso país há bons e maus em todos os lugares; cultos e analfabetos, ricos e miseráveis, também. Assim, analisemos os acontecimentos por outro prisma.
Os valores estão-se degradando exponencialmente e tudo isso é fruto do olhar para cima, da impunidade que reina nas altas esferas e no abandono e escárnio a que estão deixando o povo.
Assim, aquele extravazamento por parte dos torcedores que já está enraizado na própria cultura, como o xingar a mãe do juiz e etc., começa a ultrapassar os limites do bom senso e já se tornou perigoso. Isso acontece de norte a sul e uns não são melhores do que os outros.
Há que gritar com a mula e fazê-la chegar ao rêgo, de modo a que a relha do arado sulque a terra em linhas rectlíneas e devidamente espaçadas. Só assim a seara despontará firme e verdejante para depois ser ceifada dourada e brilhante.
quinta-feira, setembro 17, 2009
Socialização
Ando atravessando uma fase muito agitada e, por isso, a
minha língua (ou os dedos, neste caso em que escrevo) solta-se bem afiada,
usando o termo do meu amigo Schmitd. Assim, quero dizer que estou de saco cheio
com o monte de discussões que se entabulam por aí, no que concerne às tais
cotas para ingresso na Universidade.
Não concordo e jamais
concordei com essa política das cotas, pois acho, como muitos, que isso é pura
aceitação das diferenças que, simplesmente, deveríamos apagar. Se hoje se
reservam cotas para negros, amanhã pode inverter-se o plano e passam-se a reservar
para brancos...
A verdade é que todos
somos iguais e nem essa afirmação deveria constituir um artigo da Constituição,
pois só serve, como outros, para a transformar num calhamaço. E, se todos somos
iguais como figuras, reconhecendo as diferenças interiores, principalmente no
intelecto --- e isso assenta em qualquer cor ou traços de cada um ---, deixemos
que tudo flua naturalmente e sem artifícios.
Reconheço que alguns
mais priviligiados tenham acesso a melhores estudos, pois podem pagar para
frequentar instituições particulares. E é aí que está o âmago da questão. A
educação e a saúde, em qualquer lugar do Mundo, teríam que ser estatizadas e o
resto é balela.
Sendo a educação e a
saúde bancadas pelo Estado, com todos igualmente usufruindo os serviços, não há
privilégios para ninguém e, como dizia o outro, quem tiver unhas é que
tocará viola, seja de que côr fôr... Até mesmo aqueles que elaboram as leis
e governam teríam que se preocupar com a manutenção impecável das instituições,
pois eles próprios e seus familiares seríam utentes sem escolha.
Em qualquer das
doutrinas existem coisas boas e ruins. Em vez da eterna guerra e repúdio entre
elas, que se peneirem as virtudes de cada uma para serem utilizadas no bem
comum.
sábado, julho 26, 2008
Gente estranha
Após 40 dias cruzando este país de norte a sul e de leste a oeste, temos uma constatação a fazer: os alemães são, hoje, um povo muito estranho. Listei algumas atitudes “escandalosas e irresponsáveis” que eles adotam.
Não queremos gente assim no Rio de Janeiro e São Paulo, para atrapalhar o nosso cotidiano animado de paz e harmonia:
- O metrô daqui da Alemanha não tem catraca [torniquete de controle], o povo compra o bilhete, mas não tem ninguém a quem mostrar esse bilhete;
- As bicicletas ficam soltas nas ruas, com cadeado, mas sem estarem amarradas a nenhum suporte. E eles ainda desperdiçam um monte de espaço com ciclovias, e nem deixam os pedestres andarem nelas, como acontece nas nossas;
- Incrível: os estranhos alemães param nos sinais vermelhos a qualquer hora, mesmo de madrugada, quando não há qualquer chance de vir um carro no sentido contrário;
- Os pedestres não atravessam, de jeito nenhum, uma rua, enquanto o sinal para eles não ficar verde, mesmo que não venha nenhum único carro; eles ficam ali perdendo tempo, esperando abrir o sinal;
- Não há limite de velocidade nas estradas (apenas uma recomendação para não ultrapassar 130km/h, nunca seguida);
- Nesse país “esquisito”, um jovem, para conseguir a carteira de motorista, leva quatro anos de escola. As aulas são feitas em conjunto com as do colégio;
- Nas estradas, todos os carros andam nas pistas da direita e as pistas da esquerda ficam vazias para os carros mais velozes, um contra-senso de desperdício;
- A gente saía à meia noite para passear na praça, e não via nenhum assaltante para quebrar a nossa monotonia;
- Outra “atitude escandalosa” é que nas plantações de morangos, aspargos e flores, ao redor da cidade, a gente entra na plantação com um cesto que, na entrada, está à disposição dos compradores, colhe o que deseja, faz a pesagem e coloca em uma embalagem [trazida de casa]. E então deixa o dinheiro numa caixinha e vai embora, sem ver o agricultor dono da plantação. (Mas eu tenho certeza de que de tarde um trombadinha vai lá e rouba todo aquele dinheiro da caixinha);
- E como lá não se usa agrotóxico, eles protegem os sapos, que fazem o controle do ecossistema, fazendo cercas; e ainda tem gente “esquisita” que pega o sapo e o atravessa de um lado para o outro da pista (na época do acasalamento), para ele não ser atropelado...
- Ahhh... essa é engraçada: em algumas boates tem telefone em todas as mesas e a gente convida uma jovem para dançar, pelo telefone, mesmo que a mesa dela esteja do lado da nossa...
- O governo que essa gente estranha elege, não cobra pedágio nessas estradas esquisitas. E eles estão sempre fazendo obras, modernizando mais ainda as rodovias, não se sabe para quê, nem com que dinheiro;
- A periferia das grandes cidades desperdiça todas as áreas com campos verdes e florestas, ao invés de deixar pessoas usarem de forma mais racional os espaços, com favelas ou lixões, por exemplo;
- Os caras fabricam uns carrões, tipo BMW, Mercedes, Audi e VW, e nem blindam. E ainda deixam nas ruas à noite. Tem um monte de maluco que, além disso, ainda tem coragem de andar de carro conversível. Certamente eles têm o hábito de andar com revólver no porta-luvas para se defender;
- Esta é incrível: os caixas automáticos dos bancos e de cigarros ficam nas ruas, em plena calçada! E não tem ninguém tomando conta. E ainda funcionam a noite inteira. Não falo alemão, mas aposto que os jornais estão “cheios de notícias” sobre assaltos nesses caixas automáticos;
- As calçadas [passeios] têm espaços livres que são desperdiçados com pessoas ao invés de deixar o elemento mais importante de uma cidade – os carros – tomarem conta delas. E aí, para resolver esse contra-senso, os alemães constroem um monte de garagens subterrâneas;
- E ainda essa gente esquisita pode entrar em lojas e restaurantes com seus cães de estimação, ao invés de deixá-los amarrados aos postes;
- Em engarrafamentos, eles desperdiçam aquela pistona do acostamento [a berma] e não ultrapassam ninguém por ali. Se fossem mais espertos, teriam um trânsito mais legal, como o nosso, que ultrapassa por qualquer lado, até pelo acostamento;
- Os Jornais do dia ficam empilhados, e tem uma caixinha do lado onde se coloca uma moeda e leva um jornal; e não tem ninguém ali para cobrar; mas o gozado é que são tão esquisitos, que ninguém leva um jornal sem pagar;
- No Inverno, ainda eles fazem casinhas de madeira para os passarinhos e colocam nas árvores e em pedestais, com comida todo dia, pois nessa época os passarinhos não têm onde buscar seu alimento... Ainda bem que o passeio acabou e estamos voltando para a nossa civilização.
quarta-feira, novembro 21, 2007
OBRIGADO PROFESSORA!
Meio século já se passou e essas dezenas de anos não fôram suficientes para apagar certas lembranças que insistem em permanecer e que, afinal, jamais se apagarão.
Faltavam três meses para o exame da 4ª classe do ensino primário e um pouco mais de tempo para a prova de admissão ao ensino secundário, ao qual concorriam os aprovados no primeiro. Nem todos tinham esse privilégio, pois a maioria não dava sequência aos estudos mercê da sua precária condição económica, passando a ajudar os pais nos trabalhos do campo ou na cidade e alguns no seu primeiro emprego informal como mocinho de recados, marçano, enfim.
O "exame de admissão", uma espécie de vestibular dos dias actuais, era selectivo e rígido. Mesmo que não estipulasse uma limitação de vagas, só seria aprovado quem realmente tivesse conhecimentos específicos. Assim, para uma quase certeza de sucesso, os mais abastados recorriam aos denominados "explicadores" que administravam aulas particulares para aperfeiçoamento. E eu não me incluía nesse grupo...
Dona Mimi, esposa do meu professor, Virgílio da Fonseca, dava esse tipo de aulas na sua residência lá em Estremoz. Não sei se a pedido de alguém, a mim e ao meu coleguinha Emídio foi-nos facultada a participação nas aulas gratuitamente. E, além disso, ainda era oferecido aos dois um lanche no intervalo, pois que todos os demais o levavam de suas casas e nós não...
Acho que já vai para três anos que tive notícias do falecimento de Dona Mimi e isso me abalou profundamente. Fazia parte dos meus planos, quando da minha próxima visita à cidade natal,
procurá-la e exprimir-lhe, do fundo do meu coração, o meu eterno agradecimento com um maiúsculo "OBRIGADO!".
Quando chegava a hora, eu recebia das mãos de Dona Mimi aquele pedaço de pão com conduto e um copo de café com leite. De olhos baixos e com timidez extrema recebia a dádiva silenciosamente e ía comer no cantinho da sala. Não sei durante quantos dias essa cena se repetiu, mas lembro-me perfeitamente do diálogo que quebrou essa rotina:
--- É boa educação dizer "obrigado" ---, disse-me Dona Mimi e ao que eu, ruborizado, trémulo e inocentemente respondi
--- Obrigado professora! é que eu estava guardando todos os "obrigado" para o último dia ---.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


