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sábado, dezembro 24, 2011

Volta ao Brasil

Dois meses e uma semana passados em Portugal. Eram para ser sómente dois meses, não fôra aquela ameaça de greve dos pilotos da TAP que me obrigou a ficar mais um tempo. Por sorte que o dinheiro chegou. E se não chegasse, eles também não me indemnizaríam certamente, pois há que atender as directrizes da troika, do FMI, enfim. É sempre pau no cú do pobre, como sempre foi e sempre será.
Foram dias maravilhosos que por lá passei e isso em todos os imaginários aspectos. Encontrei e convivi com muitos dos meus velhos amigos, conheci outros, reafirmei amizade com algns internautas. Lamentei muito não ter podido conhecer mais, mas fica para a próxima oportunidade.
O mais importante, porém, foi o convívio com a família. Afinal, lá na terrinha eu também tenho família...
Todos os dias que estive em Évora passava algumas horas ao lado de minha mãe. Convivi muito com os meus 3 filhos e com os meus 4 netos. E, muito importante para assinalar, retomei uma amizade muito especial com a minha ex mulher, pois concluímos não ser interessante alimentar velhas richas, mal entendidos e teimosias. Ela era o fulcro de toda essa convivência familiar, não só porque está em contacto permanente com os nossos filhos, mas porque também cuida da minha velhota.
Inesquecíveis serão sempre os momentos gastronómicos. Portugal tem a melhor gastronomia do Mundo e todos precisam saber disso. Eu serei sempre incansável nessa propagação.
Por incrível que pareça, almoçando todos os dias como um verdadeiro monarca, ainda emagreci 10 kilos. Isso só se explica pela nobreza dos pratos e excelência dos vinhos...
Hoje já se passou uma semana que regressei ao Brasil. Aos poucos fui-me ambientando, pois as mudanças são bruscas e muito acentuadas...
As minhas plantas e árvores, com que muito convivo e dialógo nos momentos em que me afasto um pouco das pessoas, estavam lindas. Principalmente as roseiras e a aceroleira, esta já carregada de frutos vermelhinhos, saborosos e nutritivos. A mangueira coquinho também carregada de mangas. Os netos brincando na rua e muita molecada soltando pipa. São visões que nos dão muito ânimo e nos convencem de que os tempos ainda são muito bons, como os de antigamente. É triste verificar que na Europa não se vêm mais essas coisas, talvez porque por lá pensem que são mais evoluídos... Mas hoje eu não estou aqui para dizer mal de quem quer que seja. Quero simplesmente dar notícias aos meus amigos dos dois lados da poça grande e apontar semelhanças e diferenças do meu quotidiano e da vivência nos dois países.
No Bar do Gaúcho as coisas continúam como dantes e, para a readaptação ser triunfal, hoje teve churrasco e leitão assado. Muita fartura, grátis, regada com muitas loirinhas de vários tipos e tamanhos. Aqui, aquele delicioso vinho alentejano não tem lugar... Também, com quase 40 graus ao cair da tarde, só temos que tomar banho de cerveja...
Logo pela manhã fui avisado de que haveria uma churrasco ao cair da tarde e, como sempre gentileza da casa. Só se pagam as bebidas.
A hora prevista lá me fui aproximando e já de longe se via um grupo com as cadeiras na calçada, informalidade que por aqui muito se vê e que não adianta proibir em certos lugares, principalmente nos bairros fóra da área central. Não que aqui seja a voz do povo quem mais ordena (...), mas a sua alegria está acima de todas as coisas. Até um pouquinho da rua invadimos e a própria polícia chega a dar adeusinho nas suas esporádicas passagens. E estes só não param para tomar uma cervejinha porque daria muito nas vistas...
Belíssimas e escolhidas peças de carne o Gaúcho exibe na preparação do churrasco e só de olhar escorrega mais uma loirinha pela goela abaixo...
E, como sempre, tudo muito gostoso; desde aquele maravilhoso vinagrete até ao próprio pãozinho francês. 
Quando já todos pensávamos que a festança iria parar por ali e que pouca prosa correria mais, eis que chega um belíssimo leitão assado! Haja estômago e vontade de comer e beber para enfardar tudo e mais alguma coisa. Mas é assim mesmo aqui no meu Brasil, do mesmo modo que é no meu Portugal. Quando toca a comer e beber, as coisas são muito semelhantes. A alegria transborda, as brincadeiras entre os amigos são idênticas. Talvez aqui no Brasil haja uma maior descontracção e mais irreverência que, por sinal, alguns portugueses que eu bem conheço não gostam e mostram uma certa relutância (alô Coimbra!...).
Como tudo o que é bom tem o seu término mais rápido, este encontro de amigos foi-se esvaiando e eu tive ainda que sair dali mais cêdo porque amanhã a véspera de Natal vai ser muito movimentada e, por isso, deverá ser um árduo dia de trabalho a que eu já andava um pouco desacostumado...
Ainda dediquei um tempo a escrever estas linhas para desenferrujar o blog e me comunicar um pouco mais, algo que hoje esteve muito complicado, principalmente no download das fotos que teimava em não ter sucesso...
Aproveito para desejar um Feliz Natal a todos os que por aqui passam e me dão o prazer dos seus comentários ou, quanto mais não seja, dessa companhia virtual.
Tenho feito muitos amigos neste e outros espaços cibernéticos, tendo muitas dessas amizades virtuais se tornado reais. Espero que o próximo ano seja pródigo nesse aspecto.

terça-feira, maio 19, 2009

Adegas de Estremoz

Nem sempre é possível postar aqui uma matéria no dia certo ou sem muito atrazo. Infelizmente dependo de um serviço de acesso à Internet que é campeão de reclamações no Brasil e muitos são os dias em que fica tudo fóra do ar. Ainda aqui abordarei esse assunto especìficamente e juntar-me-ei a outras vozes que já começam a contestar a concessão dos serviços à Telefonica pelo desastrado governo anterior do senhor Fernando Henrique Cardoso.
Esqueçamos esse e outros nomes que acabam por ser mesquinhos. Colocarei uma nota referente a um grande estremocense que, infelizmente, nos deixou no passado dia 11 deste mês.
Para todos, sómente Isaías! Quem, além dos seus conterrâneos, conheceu a "Adega do Isaías" em Estremoz? --- Milhares de pessoas! Nacional e internacionalmente, pois a sua arte gastronómica foi reconhecida e premiada.
Eu, em especial, pouco me poderei alongar em detalhes sobre o Isaías pois que, na verdade, conheci mais o seu pai e a mesma taberna com o nome de "Adega do Zé da Glória".
Das vezes que voltei a Estremoz durante os 37 anos de imigração no Brasil, algumas eu almocei naquele local quando para tal havia lugar disponível. E, exactamente como está na foto que aqui publico, quase sempre eu o encontrava sentado naquele lugar da rua, talvez para que uma vaga mais ficasse à disposição...
Certifiquei-me do quão era frequentado por ex militares do Regimento de Cavalaria 3 e suas respectivas famílias em visita de saudade à cidade e, claro, ao local onde muitas vezes petiscaram e deram de beber à dor... É possível, até, que muitos deles venham a saber deste último acontecimento através da minha postagem ou por outros que, como eu, escrevem nestes recantos cibernéticos.
Como citei acima e apesar da minha tenra idade, tenho mais viva na memória a taberna quando gerida pelo pai de Isaías. Vivi até aos 11 anos em Estremoz e fui depois para Évora. Nesses anos da minha infância, muitas vezes acompanhava o meu pai num triângulo de tascas --- "Zé da Glória", "Júlio Zé Gato" e "Pilhó Pato". As duas primeiras bem perto uma da outra e a última perto da antiga cadeia no Castelo. Hoje a permanência de crianças nesses locais não é bem vista, se bem que naquela época também só poderia acontecer na companhia dos pais. Porém, quieto ficava num canto e me deslumbrava com os torneios de malha e chito disputados pelos adultos e com e exuberância daquelas talhas cheias de vinho que íam enchendo as jarras que os serviam. São lembranças.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

CARACOIS E OUTROS PETISCOS

“Então, quando é que o meu amigo vem a Portugal, para eu lhe oferecer um petisco?” Assim começava e pràticamente a essa pergunta se limitava a mensagem que recebera na Internet. E não só porque a pergunta me abriu um horizonte largo das muitas coisas que tenho vontade de petiscar quando for à terrinha, como evidenciou aquilo em que muito tenho pensado ùltimamente e constituiu a base da minha resposta: petisco de caracóis.

Dias atrás liguei para alguns dos amigos na minha terra, algo que não fazia com muita assiduidade mas que agora se torna mais constante, mercê da oportunidade de aproveitar um daqueles serviços de comunicação na Internet que barateia, quase a custo zero, as ligações de longa distância... E, a um deles eu disse que a primeira coisa que faria quando voltasse a Évora seria visitar a Tasca dos Caracóis do nosso amigo Galego. Porém, qual balde de água fria despejado sobre a cabeça, ouvi que a tasca não existe mais a exemplo de outros estabelecimentos do mesmo tipo, mercê de disposição legal de um Órgão oficial coordenador. Tudo isso está proibido respeitando normas da União Européia.

“Puta que pariu!” eu tenho vontade de gritar. Essas pequenas coisas tradicionais e características dos povos faziam a diferença entre os pares e aguçavam a curiosidade de uns em relação aos outros. Nivelar tudo em nome do progresso e na sustentação do pilar do “saneamento” é, na verdade, um desafino nessa afinação por diferentes diapasões...

Por uma questão de formação e actualização de conhecimentos resolvi pesquisar algo a respeito dessas imposições e confesso que fiquei abismado. Por exemplo, saborear uma “bica” na chávena de porcelana ou beber um “tintol” na púcara de barro não mais será permitido; terá que ser em copo descartável de plástico... E isto quando este Mundo altamente poluído deveria ter como uma das principais metas a atingir, exactamente a extinção da produção de plásticos...

Participar numa caçada ou pescaria e, antes, avisar o Chico lá de Mourão que deveria preparar um almoço especial com aquelas carnes de porco defumadas na chaminé; programar mais uma daquelas tradicionais voltas pela raia e saborear um presunto de pata negra na Espanha, provar um tinto ou branco directamente do tonel numa taberna de Barrancos, arrematando com um queijinho de Serpa; viajar pela “Rota dos Vinhos” num passeio de fim de semana e provar os novos e as água-pé nas tascas de Estremoz, Borba, Reguengos e Vidigueira; num lugar qualquer do Alentejo, sentar num mocho de tronco de azinheira numa tasca castiça e petiscar azeitonas retalhadas e curtidas no pote de barro, queijo de leite de ovelha, farinheira assada, chouriço e morcela. Agora é tudo coisa do passado e a minha terra não tem mais cores e sabores, pois foi mutilada.