Depois de um longo período em que nada escrevi neste espaço, hoje quebro esse interregno. Acreditem que até me sinto meio sem jeito ao teclar e tenho a certeza que meio trémulo estaria se uma caneta usasse...
Abordarei hoje algo que presenciei e muito me consternou quando de recente viagem a bordo de um avião dos TAP na rota Campinas (Brasil) a Lisboa.
Prambulando pelas instalações do Aeroporto de Viracopos, aguardando a hora do embarque, sentia-me muito feliz e ansioso. Estava voltando à minha terra e iria estar junto da outra "metade" da família mais uma vez.
Embarquei finalmente. Aquele airbus imponente dava-me uma certa sensação de orgulho. Sim! Nós, portugueses, sentimos orgulho por ter-mos uma Companhia aérea de reconhecida alta classe tanto na qualidade da frota como na prestação de serviços. Mas... será isso mesmo?
Procurei a minha poltrona e a mesma se situava do lado esquerdo da aeronave, no corredor. Nos primeiros tempos de passageiro sempre escolhia o lado da janela pela curiosidade da vista lá em baixo. Actualmente prefiro o lugar do corredor por ter a facilidade de me levantar sempre que quiser e não incomodar ninguém. Dou, assim, uma aliviada nas pernas e evito o inchaço nos tornozelos. Coisa de ancião...
Era uma fila de duas poltronas e, assim, só uma pessoa do meu lado. A minha companheira de viagem era uma moça de aparentemente 30 anos de idade. Cumprimentei-a e ela me respondeu com um sorriso. Pedi licença e sentei-me.
Cumpridas todas as formalidades, pré e pós decolagem, começou o vai-vem do comissariado de bordo, pois logo se iniciava o serviço de restauração. Chegava a hora de eu saborear um bom vinho tinto alentejano, independentemente da qualidade da comida. A Companhia é mundialmente reconhecida pela oferta dos melhores vinhos do planeta...
Desta vez notei uma faixa etária média dos comissários e comissárias, com excepção da "purser" que aparentava ser sexagenária. No frigir dos ovos, concluí que todos tinham agregada experiência e deduzi, claro, que internacional, principalmente em se tratando de Brasil - Portugal com as respectivas particularidades.
Chegando o momento de serem servidas as bandejas, a mim e minha companheira de vôo, esta interpelou o comissário (sujeito de cabelo grisalho mas que não teria mais que 45 anos) usando o termo "moço". Assim como "seu moço", expressão corriqueira na linguagem brasileira. Pasmem! E eu pasmado fiquei com a rejeição impertinente por parte do comissário.
Não me contive e entrei no meio da confusão tentando pôr panos quentes, mesmo que a minha companheira não tivesse entendido o que se passava. Tentei explicar ao comissário que o termo "moço", naquele contexto, não tinha o mesmo significado que normalmente tem em Portugal e sim que se tratava de tratamento respeitoso de uma pessoa mais nova para com uma mais velha no Brasil. Mas fui ignorado e o serviço continuou. Continuou normalmente até que a moça voltou a interpelar o comissário, mas desta vez tratando-o por "tu". Aí o Mundo caíu!... Ele esbravejou usando as palavras: "olhe lá! por acaso andámos à escola juntos?". Mais uma vez me pareceu que ela não entendeu nada e o "ofendido" seguiu para as outras poltronas...
Ocorre-me perguntar se o pessoal de bordo não recebe instruções sobre a existência de algumas diferenças no linguajar dos dois países, ou se até mesmo não adquiriu esses conhecimentos no contacto permanente com a diversidade dos passageiros!?
Acho que todos deveríam saber, ou de tal ter conhecimento, que o pronome "tu" se usa muito na linguagem do sul do Brasil e em alguns lugares do norte como, por exemplo, o Pará, mas com conotação diferente do usado em Portugal. Aqui os termos "moço" e "tu" são específicos e sujeitos a regras.
No Brasil os meus filhos e netos me tratam por "tu"; em Portugal por "senhor" em substituição ao meu contemporâneo "vossemecê". Uns e outros eu entendo perfeitamente e, claro, não poderei exigir singularidade.
Sugiro que a Administração dos Transportes Aéreos Portugueses (TAP Air Portugal) se debruce sobre a questão.
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sexta-feira, novembro 15, 2013
sábado, dezembro 24, 2011
Volta ao Brasil
Dois meses e uma semana passados em Portugal. Eram para ser sómente dois meses, não fôra aquela ameaça de greve dos pilotos da TAP que me obrigou a ficar mais um tempo. Por sorte que o dinheiro chegou. E se não chegasse, eles também não me indemnizaríam certamente, pois há que atender as directrizes da troika, do FMI, enfim. É sempre pau no cú do pobre, como sempre foi e sempre será.

O mais importante, porém, foi o convívio com a família. Afinal, lá na terrinha eu também tenho família...
Todos os dias que estive em Évora passava algumas horas ao lado de minha mãe. Convivi muito com os meus 3 filhos e com os meus 4 netos. E, muito importante para assinalar, retomei uma amizade muito especial com a minha ex mulher, pois concluímos não ser interessante alimentar velhas richas, mal entendidos e teimosias. Ela era o fulcro de toda essa convivência familiar, não só porque está em contacto permanente com os nossos filhos, mas porque também cuida da minha velhota.
Inesquecíveis serão sempre os momentos gastronómicos. Portugal tem a melhor gastronomia do Mundo e todos precisam saber disso. Eu serei sempre incansável nessa propagação.
Por incrível que pareça, almoçando todos os dias como um verdadeiro monarca, ainda emagreci 10 kilos. Isso só se explica pela nobreza dos pratos e excelência dos vinhos...
Hoje já se passou uma semana que regressei ao Brasil. Aos poucos fui-me ambientando, pois as mudanças são bruscas e muito acentuadas...
As minhas plantas e árvores, com que muito convivo e dialógo nos momentos em que me afasto um pouco das pessoas, estavam lindas. Principalmente as roseiras e a aceroleira, esta já carregada de frutos vermelhinhos, saborosos e nutritivos. A mangueira coquinho também carregada de mangas. Os netos brincando na rua e muita molecada soltando pipa. São visões que nos dão muito ânimo e nos convencem de que os tempos ainda são muito bons, como os de antigamente. É triste verificar que na Europa não se vêm mais essas coisas, talvez porque por lá pensem que são mais evoluídos... Mas hoje eu não estou aqui para dizer mal de quem quer que seja. Quero simplesmente dar notícias aos meus amigos dos dois lados da poça grande e apontar semelhanças e diferenças do meu quotidiano e da vivência nos dois países.
No Bar do Gaúcho as coisas continúam como dantes e, para a readaptação ser triunfal, hoje teve churrasco e leitão assado. Muita fartura, grátis, regada com muitas loirinhas de vários tipos e tamanhos. Aqui, aquele delicioso vinho alentejano não tem lugar... Também, com quase 40 graus ao cair da tarde, só temos que tomar banho de cerveja...
Logo pela manhã fui avisado de que haveria uma churrasco ao cair da tarde e, como sempre gentileza da casa. Só se pagam as bebidas.
A hora prevista lá me fui aproximando e já de longe se via um grupo com as cadeiras na calçada, informalidade que por aqui muito se vê e que não adianta proibir em certos lugares, principalmente nos bairros fóra da área central. Não que aqui seja a voz do povo quem mais ordena (...), mas a sua alegria está acima de todas as coisas. Até um pouquinho da rua invadimos e a própria polícia chega a dar adeusinho nas suas esporádicas passagens. E estes só não param para tomar uma cervejinha porque daria muito nas vistas...
Belíssimas e escolhidas peças de carne o Gaúcho exibe na preparação do churrasco e só de olhar escorrega mais uma loirinha pela goela abaixo...
E, como sempre, tudo muito gostoso; desde aquele maravilhoso vinagrete até ao próprio pãozinho francês.
Quando já todos pensávamos que a festança iria parar por ali e que pouca prosa correria mais, eis que chega um belíssimo leitão assado! Haja estômago e vontade de comer e beber para enfardar tudo e mais alguma coisa. Mas é assim mesmo aqui no meu Brasil, do mesmo modo que é no meu Portugal. Quando toca a comer e beber, as coisas são muito semelhantes. A alegria transborda, as brincadeiras entre os amigos são idênticas. Talvez aqui no Brasil haja uma maior descontracção e mais irreverência que, por sinal, alguns portugueses que eu bem conheço não gostam e mostram uma certa relutância (alô Coimbra!...).
Como tudo o que é bom tem o seu término mais rápido, este encontro de amigos foi-se esvaiando e eu tive ainda que sair dali mais cêdo porque amanhã a véspera de Natal vai ser muito movimentada e, por isso, deverá ser um árduo dia de trabalho a que eu já andava um pouco desacostumado...
Ainda dediquei um tempo a escrever estas linhas para desenferrujar o blog e me comunicar um pouco mais, algo que hoje esteve muito complicado, principalmente no download das fotos que teimava em não ter sucesso...
Aproveito para desejar um Feliz Natal a todos os que por aqui passam e me dão o prazer dos seus comentários ou, quanto mais não seja, dessa companhia virtual.
Tenho feito muitos amigos neste e outros espaços cibernéticos, tendo muitas dessas amizades virtuais se tornado reais. Espero que o próximo ano seja pródigo nesse aspecto.quarta-feira, outubro 19, 2011
A última barreira
Com esta postagem de hoje dou início a uma série de crónicas de viagem. A ideia era ter começado quando da minha chegada a Lisboa, mas uma série de deficuldades afastou-me do aceso a um computador. Tudo se remedeia, porém.
Após o grande trauma que lá muito atrás relatei e que se relacionou com o meu estado de saúde, ficaram algumas sequelas que aos poucos tento eliminar. Uma delas é a síndrome do pânico que com grande esforço tento vencer sem o uso de medicamentos receitados. Imaginar-me dentro de um avião e ver o fechar das portas, era algo que me incutía uma certa espectativa quanto a reacções que viesse a ter. E tudo isso apesar de dezenas de viagens aéreas no meu currículo. Afinal, até medo de elevador eu tivera e já eliminara...
A minha situação em Campinas estava deveras insuportável. Era muita pressão e, por isso, todo o esforço que eu fazia para vencer o pânico do medo, acabava por ser em vão, chegando mesmo a carregar a mente com muitas outras preocupações e stress. Eu precisava muito destas férias e teria que vencer todos os obstáculos.
Naquele terça-feira ainda trabalhei como todas as manhãs faço; e foi um bom dia de negócios. À noite lá estava no aeroporto de Viracopos onde ràpidamente fiz o chek-in.
Por ali andei passeando nas instalações que observei não serem adequadas para um aeroporto daquele porte e fiquei com a certeza que não estarão à altura da Copa do Mundo de 2014...
Na hora marcada começou o embarque. O pássaro é enorme e foi a primeira vez que entrei num desse porte --- Air Bus 340. Já senti que aproveitaram ao máximo o espaço para capitalização e comecei a duvidar que eu conseguisse passar o meu barrigão naquele corredor estreitíssimo que fica entre a parede da fuselagem e a área serviço das comissárias de bordo. Mas consegui passar... O ruim foi começar a pensar que aquela passagem era realmente muito estreita... Mas esse pensamento eu fui evitando ao concentrar-me nas comissárias. Pô! A TAP continúa a ter pessoal com uma média de idade muito alta. Altíssima!
Esta viagem demorou 9 horas. As anteriores demoravam 10. Decorreu tudo às mil maravilhas e, por isso, acho que ultrapassei a última barreira.
Após o grande trauma que lá muito atrás relatei e que se relacionou com o meu estado de saúde, ficaram algumas sequelas que aos poucos tento eliminar. Uma delas é a síndrome do pânico que com grande esforço tento vencer sem o uso de medicamentos receitados. Imaginar-me dentro de um avião e ver o fechar das portas, era algo que me incutía uma certa espectativa quanto a reacções que viesse a ter. E tudo isso apesar de dezenas de viagens aéreas no meu currículo. Afinal, até medo de elevador eu tivera e já eliminara...
A minha situação em Campinas estava deveras insuportável. Era muita pressão e, por isso, todo o esforço que eu fazia para vencer o pânico do medo, acabava por ser em vão, chegando mesmo a carregar a mente com muitas outras preocupações e stress. Eu precisava muito destas férias e teria que vencer todos os obstáculos.
Naquele terça-feira ainda trabalhei como todas as manhãs faço; e foi um bom dia de negócios. À noite lá estava no aeroporto de Viracopos onde ràpidamente fiz o chek-in.
Por ali andei passeando nas instalações que observei não serem adequadas para um aeroporto daquele porte e fiquei com a certeza que não estarão à altura da Copa do Mundo de 2014...
Na hora marcada começou o embarque. O pássaro é enorme e foi a primeira vez que entrei num desse porte --- Air Bus 340. Já senti que aproveitaram ao máximo o espaço para capitalização e comecei a duvidar que eu conseguisse passar o meu barrigão naquele corredor estreitíssimo que fica entre a parede da fuselagem e a área serviço das comissárias de bordo. Mas consegui passar... O ruim foi começar a pensar que aquela passagem era realmente muito estreita... Mas esse pensamento eu fui evitando ao concentrar-me nas comissárias. Pô! A TAP continúa a ter pessoal com uma média de idade muito alta. Altíssima!
Esta viagem demorou 9 horas. As anteriores demoravam 10. Decorreu tudo às mil maravilhas e, por isso, acho que ultrapassei a última barreira.
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