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segunda-feira, agosto 06, 2012

Amadorismo Olímpico

Ao mesmo tempo em que digito as linhas que compõem esta crónica, ainda correm na tela da tv imagens da premiação dos medalhistas olímpicos na prova de argolas na ginástica.
O campeão foi o brasileiro Arthur Zanetti, um jovem que palmilhou uma carreira muito difícil.
Neste exacto momento ele, Zanetti, está dando uma entrevista à reporter da Record e vejo na simplicidade e fluência das suas palavras, na sua alegria e postura, na sua modéstia, algo que vai cativar muito o povo brasileiro e, finalmente, fazer com que este pense muito sériamente na educação física e desportiva no Brasil e comece a pressionar os seus governantes para que desenterrem a enorme capacidade e competência de futuros atletas.
Fiquei muito emocionado, comovido, com estas imagens e até a interpretação do hino brasileiro me humedeceu os olhos. Isto não só porque quarenta dos meus sessenta e sete anos de idade foram e estão sendo passados no Brasil, mas também porque a ginástica olímpica e o atletismo fazem parte da minha vida.
Na década de sessenta o Lusitano Ginásio Clube (de Évora) que até então fizera parte do futebol de elite em Portugal, mantendo-se por muitos anos na primeira divisão, começava a decair. Já na segunda divisão, tinha grandes dificuldades para manter em dia o pagamento dos salários dos seus jogadores.
Pela capacidade e interesse que eu sempre demonstrara nas aulas de educação física do curso secundário da Escola Industrial e Comercial de Évora, fui convidado a participar das classes amadoras de atletismo e ginástica do citado clube e aceitei.
No atletismo, nunca tinha visto aqueles sapatos especiais com uma espécie de prego no solado para agarrar bem ao solo e jamais havia tocado um dardo, peso ou martelo. Na ginástica, a classe especial de mesa alemã, a barra fixa, cavalo de arção e as argolas eram também uma novidade. O Presidente do clube, senhor Nunes, era gerente bancário na cidade e se entregara de coração a essas actividades e tudo ele pagava do seu bolso. Puro amadorismo!
Especializei-me nos saltos da mesa alemã, argolas e nos 100 metros rasos. Eu tinha grande poder de elevação, muita força e muitíssima velocidade.
O atletismo durou muito pouco tempo. Não passou de um ano. Ainda tentei participar do mesmo no Juventude, clube rival, mas não me aceitaram exactamente por causa da burrice dessa rivalidade... Assim, continuei na ginástica do Lusitano até ingressar nas fileiras do Exército e, após os quatro anos do cumprimento obrigatório dessa missão, nada mais de tudo aquilo existia. Foi bom enquanto durou.
Até aos dias de hoje eu continúo apaixonado pela ginástica olímpica e pelo atletismo. Sempre que posso assisto a algumas exibições ou competições. E nas Olimpíadas deixo de assistir a muita coisa aguardando a vez dessas especialidades.
Às vezes eu vivo a coisa tão intensamente que parece haver dentro de mim, ainda, a capacidade de fazer igual ao que estou vendo. Sei, porém, que na primeira tentativa haveria fisgada nos músculos meio fácidos, nos nervos meio atrofiados e quebra dos ossos desgastados...


sexta-feira, outubro 30, 2009

Tem coisas que não entendo, se bem que algumas talvez sejam pertinentes, mas este acontecimento em São Paulo ultrapassou todos os limites. Vejam nos, vídeos acima, a saída da escola de uma aluna, escoltada pela Polícia Militar, ao mesmo tempo que era apupada pelos colegas com adjectivo de baixíssimo calão e, claro, inaceitável. Uma lindíssima moça loira de olhos verdes, foi para a escola, como faz todos os dias, mas desta vez usando um mini vestido. Os colegas "machos" acharam que aquilo era um escândalo, um atentado ao pudor. As colegas "fêmeas" fôram no embalo mas, aqui, talvez por inveja. Nos tempos actuais em que observamos situações muito mais liberais e muitas até deprimentes, protagonizadas por essa juventude na qual se englobam esses protestantes, há espaço para perguntar se ali não estaria um monte de "bichas" e "lésbicas"!?

quarta-feira, outubro 28, 2009

Desconhecidos

No decorrer das nossas vidas deparamo-nos com certas situações inusitadas que, do mesmo modo que factos de impacto, marcam para sempre. E convivendo com essa memória, que esporàdicamente aflóra, continuamos sem uma explicação plausível.
Nos meus tempos de juventude eu era frequentador assíduo do jardim público e mata anexa, na cidade de Évora. Até hoje não entendi o porquê dessa distinção dos lugares, pois acabava por tudo ser um mesmo espaço físico dentro de um conjunto de muralhas medievais. O jardim ficava aberto até à meia-noite (Verão) e a mata tinha o acesso bloqueado por um guarda depois das 18 horas para coibir excessos no relacionamento dos namorados…
Gostava de frequentar aquele espaço aprazível e tranquilo. Assistia aos concertos da banda militar do Regimento de Infantaria 16, que incluía muitas zarzuelas entre as marchas. Outras vezes retirava um livro da biblioteca sanzonal para o ler sentado num daqueles  bancos de jardim que, apesar de tudo, eram cómodos e anatómicos. Havia, também, os momentos de gaiatice quando fazia uma espécie de forca corrediça, na extremidade de um caule de capim, e ía caçar lagartixas, ou provocávamos um dos guardas --- o Pé de Xarinha, que era um tipo muito chato e carêta e sobre o qual ainda aqui escreverei um dia.
Na escola sempre acabamos por formar um grupo mais homogénio de amigos e o meu resumia-se a quatro elementos. Adávamos sempre juntos para o que désse e viésse. Num espaço de tempo livre entre as aulas ou mesmo na gazeta às mesmas, íamos para o citado jardim que ficava perto da escola, outras vezes íamos nadar no Rio Dgebe; acompanhávamos turistas estrangeiros pelo burgo como cicerones e frequentávamos eventos culturais; jogávamos bilhar no Café Portugal ou matraquilhos na cave do Diana-Bar e Bar do Cachatra.
Eramos ecléticos nas nossas andanças e costumes. Porém, não só por timidez, uma das características de todos do grupo, mas também porque não nos interessava muito essa coisa de amarração, nenhum de nós se preocupou em arrumar uma namorada antes dos dezoito anos.
Claro que muitos dos nossos colegas de escola já namoravam a partir dos doze ou treze e, por isso mesmo, não se misturavam connosco nas actividades extra escolares e os seus gostos e ocupações descambavam para outras órbitas…
Num certo dia, caminhando os quatro da vida airada pelas estradinhas e veredas da mata, cruzámo-nos com o Romero e a Cristina, colegas da escola e namorados desde sempre e para sempre… Cumprimentei-os com um “boa tarde” sonoro, mas não obtive qualquer tipo de resposta.
Gualter, o mais velho de nós quatro, numa espécie de repreensão, disse: “ Ò pá! Não sabes que não se cumprimenta um gajo quando ele está acompanhado da miúda ou vice-versa!?”.
É verdade! eu não sabia disso naquele tempo e, até hoje, não entendo o porquê, pois jamais alguém me explicou…

terça-feira, maio 06, 2008

COMPARAÇÕES

Muitas vezes, numa roda de amigos, comentamos sobre a vida dos jóvens de hoje ou mesmo daqueles já não tão jóvens, mas que tenham nascido nos primeiros anos da década de 80. Normalmente com uma pitada de inveja sobre as suas liberdades nos relacionamentos amorosos, principalmente... Todavia, analisando-se o assunto num círculo maior e por outros prismas, chegamos a algumas conclusões.
De acordo com os reguladores e burocratas de hoje, todos nós que nascemos nos anos 60, 70 e princípios de 80, não devíamos ter sobrevivido, porque os nossos berços eram pintados em cores bonitas com tintas à base de chumbo, que nós muitas vezes lambíamos e mordíamos... Não tínhamos frascos de medicamentos com tampas 'à prova de crianças', ou fechos nos armários e podíamos brincar com as panelas. Quando andávamos de bicicleta, não usávamos capacetes.
Quando éramos pequenos viajávamos em carros sem cintos e airbags; viajar no banco da frente era um bónus. Bebíamos água da mangueira do jardim e não da garrafa; e sabia bem... Comíamos batatas fritas, pão com manteiga e bebíamos gasosa com açúcar, mas nunca engordávamos porque estávamos sempre a brincar lá fora. Partilhávamos garrafas e copos com os amigos e nunca morremos disso.
Passávamos horas a fazer carrinhos de rolamentos e depois andávamos a grande velocidade pela ladeira abaixo, para só depois nos lembrarmos que esquecemos de montar uns freios, quando acabávamos estancados num silvado, o que representava mais um aprendizado... Saíamos de casa de manhã e brincávamos o dia todo, desde que estivéssemos em casa antes de escurecer. Estávamos incontactáveis e ninguém se importava com isso.
Não tínhamos Play Station, X Box. Nada de 40 canais de televisão, filmes de vídeo, home cinema, telefones móveis, computadores, DVD, Chat na Internet. Tínhamos amigos! se os quiséssemos encontrar íamos á rua. Jogávamos dezenas de jogos toscos, artesanais e tradicionais, frutos da nossa própria arte, o que gerava uma prole de inventores e desenrascados.
Pulávamos ao eixo, ao elástico e à barra. Jogávamos futebol com uma bola de meias ou com uma dura de couro que nos chegava a causar dor... Caíamos das árvores, cortávamo-nos, e até partíamos ossos mas sempre sem processos em tribunal. Havia lutas com os punhos, mas sem sermos processados. Batíamos ás portas de vizinhos, fugíamos e tínhamos mesmo medo de sermos apanhados. Furtávamos um cacho de uvas da parreira alheia e fugíamos dos guardas ou ziguezagueávamos fugindo aos tiros de sal...
Se infringíssemos a lei era impensável os nossos pais nos safarem, pois eles sempre estavam ao lado dela. Íamos a pé para casa dos amigos e para a escola; não esperávamos que os nossos pais nos levassem. E na escola respeitávamos os professores, mesmo quando apanhávamos algumas reguadas ou éramos repreendidos com firmeza... Tínhamos liberdade, fracasso, sucesso e responsabilidade e aprendemos a lidar com tudo.
Você que leu e pensou sobre o que acabei de escrever é alguém que se encaixa nesse grupo? Perante uma resposta positiva, dou-lhe os meus parabéns! Você é um dos que tiveram a sorte de crescer como verdadeira criança, antes dos advogados e governos regularem as nossas vidas "para nosso bem"...
Para os que não são daquela época coloquei algo acerca de nós e que possam ter gostado. Isto, meus amigos é surpreendentemente medonho... E talvez ponha um sorriso nos vossos lábios. A maioria dos estudantes que estão hoje nas universidades nasceu em 1986, ou depois. Chamam-se jovens. Nunca ouviram 'we are the world' e uptown girl conhecem de westlife e não de Billy Joel. Nunca ouviram falar de Rick Astley, Banarama ou Belinda Carlisle. Para eles sempre houve uma só Alemanha e um só Vietname. A SIDA sempre existiu. Os CD's sempre existiram. O Michael Jackson sempre foi branco. Para eles o John Travolta sempre foi redondo e não conseguem imaginar que aquele gordo tivesse sido um deus da dança. Acreditam que Missão impossível e Anjos de Charlie, são filmes do ano passado. Não conseguem imaginar a vida sem computadores. Não acreditam que houve televisão a preto e branco.
Agora vamos ver se estamos a ficar velhos: 1- Entendes o que está escrito acima e sorris. 2- Precisas de dormir mais depois de uma noitada. 3- Os teus amigos estão casados ou a casar. 4- Surpreende-te ver crianças tão á vontade com computadores. 5- Abanas a cabeça ao ver adolescentes com telemóveis.. 6- Lembras-te da Gabriela (a primeira vez). 7- Encontras amigos e falas dos bons velhos tempos.
Sim! Tu e eu estamos velhos ou ficando velhos. Porém, estamos conscientes que tivemos uma infância do arco da velha; do caraças!!!