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sábado, dezembro 07, 2019

Guerra Colonial


CAPITULO 4
A PONTE FICOU PARA TRÁS
 PIOR DO QUE A CENA DO BEN-HUR.
 PIOR, ANTÓNIO, MUITO PIOR!
A ponte com o nome do “herói” que nunca pôs os pés em África, ficou para trás e dela apenas se vê a silhueta.
Um último adeus para ninguém e para todos ao mesmo tempo foi acenado e agora, ao longe, apenas se avistam lenços que se agitam como se fossem asas brancas - a cor da paz - acenando a pontos em tom de verde - a cor da esperança - que vão ao encontro da cor negra - a cor da guerra! Para alguns, a cor da morte!

A silhueta da ponte também acabou por desaparecer. A noite chega ao alto mar e com ela vem o frio e a humidade e ao Niassa chega um misto de desconforto e tontura que se apodera da cabeça de António e, provavelmente, de todos camaradas a caminho do desassossego. Só então António se apercebe que esta é uma noite diferente. Diferente de todas as noites que até aí viveu na sua jovem vida! E só então se apercebe, que o chão não é tão firme como habitualmente e que a sua cabeça roda em corpo parado. Uma intensa e áspera brisa cola-se-lhe à face, sacudindo-o do estado de hipnose que até ali estaria mergulhado. Realmente, esta é uma noite diferente e diferentes serão as noites seguintes da sua vida!
Para António e camaradas graduados, o jantar chegou e é servido no salão-restaurante do velho Niassa. Jantar bem confeccionado, a fazer jus à fama dos cozinheiros da marinha.
De início, o Niassa foi construído para transporte de mercadorias. Com o incremento dos negócios na África Portuguesa verificado nas décadas de 40 e 50, foi adaptado para levar cerca de 300 civis comodamente instalados, sendo classificado depois, como barco-misto – carga e passageiros. O regime fascista de Salazar, cuidando dos seus amigos, mandou fazer essa adaptação, de modo a dar boas condições de viagem aos seus homens de negócio. E fez muito bem, pois deve-se cuidar dos amigos. Mas quando a guerra rebentou na década de 60, nunca o Niassa foi preparado para transportar tropas. Nunca preparado para transportar 500, mil ou 2 mil jovens a caminho da guerra. Nem o Niassa, nem outras velhas carcaças que transportavam gente como se fosse gado.
Nas instalações preparadas para os civis, viajam agora os oficiais, os sargentos e a tripulação graduada da marinha, e não sendo tão luxuosas com as de um barco-de-amor, são instalações que permitem uma viagem confortável.
Depois de ver as suas cómodas instalações, António interrogava-se, “como será o refeitório dos soldados? Tão péssimo como os porões onde vão dormir?”
- Pior, António, muito pior! - diz Augusto, já perto das 10 da noite, quando se encontram novamente.
- O refeitório é lá à frente na proa e parece um barco a balouçar!
- Mas é um barco a balouçar! - replica António.
- Sim, é um barco a balouçar, mas parece no meio de tempestade! Foda-se, não conseguimos comer, porque não seguramos o prato e a boca foge-nos. Parecemos baratas tontas com a colher na mão à procura da boca. A boca foge da colher. Não há garfos, só colheres e ainda bem que não há facas. Peguei em dois moletes, abriu-os com a mão e meti dois bocados do que parece ser carne mastigada e saí agarrado aos outros camaradas, tão estonteados quanto eu. Foda-se, é pior que a cena do Ben-Hur, lembras-te do Ben-Hur? Do filme que vimos há tempos? Só nos falta remar com chicote nas costas como no Bem-Hur. Se não for obrigado, não volto ao refeitório. Fico completamente tonto e agoniado! Prefiro comer sandes aqui fora! Diz o meu pai, que o governo se sacrifica pelo povo. Queria vê-los aqui, feito baratas tontas de colher na mão à procura da boca. Sacrificam-se um caralho! Vêm para a televisão com a treta da “conversa em família” e é assim que nos fodem!
- Então, não comeste nada?
- Comi apenas uma sande de carne mastigada, mas não tenho fome. Estou agoniado e só preciso apanhar um pouco de ar, mas aqui na coberta está muito frio. Fui de novo ao beliche onde vou dormir. Quase desmaiei a descer aquela enorme escadaria até chegar ao porão. O calor e o cheiro são insuportáveis. Acho que não vou conseguir pregar olho até chegar a Bissau.
*
Facilmente se compreende, que instalar beliches no porão de carga e colocar o refeitório na proa, não são os melhores sítios de um barco, nem para dormir, nem para comer, antes pelo contrário. Na verdade, são os piores. Mas que importa aos políticos de um regime, que apenas se preocupa com os seus amigos?
Tinha pois, razão de ser, a indignação do camarada Augusto.
- Diz o meu pai – repetia Augusto – que os tipos do governo são pessoas de bem, pessoas decentes que olham pelo povo e que fazem o melhor que podem! Fazem… um caralho! Gostava de os ver aqui nesta pocilga, esses “heróis“ que nunca puseram os pés em África e se estão nas tintas para quem vai defender a Pátria. Na vinda, se não viermos num caixão, mandam-nos vir a nado! E as tuas? Como são as vossas instalações?
- As nossas são aceitáveis. São ali na parte central, nos camarotes.
- Pois! És um sortalhão. Eu não quis estudar e agora fodo-me! Sorte do caralho!
- Deixa, não te apoquentes. São apenas cinco ou seis dias de viagem. Sorte, mesmo sorte, é regressarmos sãos e salvos, isso é que é sorte. O resto é passageiro e não tem tanta importância. São apenas cinco dias da viagem!
                  
Angelino dos Santos Silva
in, GERAÇÃO DE 70 / Época das Chuvas
Romance sobre a Guerra Colonial Portuguesa em África
Capítulo 4 de 34
angelinosantossilva@gmail.com


domingo, março 11, 2012

Herois Esquecidos

No passado dia 29 de Fevereiro faleceu em Odivelas (Portugal) o sr. José Aldeia Soares, que teria entre 65 a 67 anos. Não consegui obter a sua data de nascimento mas, pela época que entrou no exército, enquadro-o na minha faixa etária que é essa.
Afinal, quem foi José Aldeia Soares? --- Ele foi um soldado de Cavalaria mobilizado para cumprir uma comissão de dois anos na então Província Ultramarina da Guiné.
A Companhia de Cavalaria 1748 a que pertencia, embarcou para a Guiné em 20 de Julho de 1967 onde chegou no dia 25, ficando instalada em Bissau, com a missão de protecção e segurança das instalações e das populações da área.
Entre 12 e 20 de Setembro desse ano, escalonadamente, seguiu para Bula, afim de efectuar o treino operacional, tomando parte de patrulhamentos, emboscadas e batidas nas regiões de Inquida, Quitamo, Blequisse e Bofe, recolhendo a Bissau em 6 de Outubro de 1967. 
Em 8 desse mês a companhia assume a responsabilidade pelo subsector de Contubuel, destacando pelotões para Sare Bacar e Sumbungo, sendo este deslocado para Geba e posteriormente para Dulo-Gengele. 
Em 18 de Fevereiro de 1969 a subunidade é rendida, fica transitoriamente em Bissau e segue mais tarde para Farim, onde assume a responsabilidade deste subsector, integrado no dipositivo do Comando Operacional nº 3, até 1 de Julho de 1969. Regressa à Metrópole em 7 de Junho desse mesmo ano.
Na foto aqui publicada, José está à nossa direita e a seu lado o seu irmão António que foi combatente em Angola.
Gostaria de ter uma foto dos dois, daquele tempo em que foram valorosos soldados, mas não consegui e acredito que seja uma tarefa muito difícil. Cavalaria, por exemplo, era uma Arma de elite e à qual eu também pertenci. O José certamente que estaria imponente e galhardo numa foto contemporãnea. Infelizmente, a exemplo de outros meios de comunicação, a foto disponível é esta e mostra uma terrível realidade --- a dos Antigos Combatentes Sem-Abrigo.
São algumas centenas de camaradas que preambulam por esse país fóra (Portugal) ou que vivem em praças e jardins ou sob as marquizes dos prédios. Encontramo-los fàcilmente. Se um indivíduo nessa condição aparentar ser sexagenário, podemos ter a certeza de que se trata de um antigo combatente que acreditou estar defendendo o território pátrio num qualquer dos 5 continentes... Ninguém escapava a uma dessas missões.
Os sucessivos governos jamais se preocuparam em providenciar os vários tipos de assistência a que esses antigos soldados têm direito e de muito precisam. Uma "pensão de guerra" deveria ser atribuída a cada um de todos nós que démos 4 anos das nossas vidas no serviço militar com todas as consequências pessoais negativas. Uma assistência médica gabaritada e constante, principalmente aos traumatizados, seria mais importante ainda. Infelizmente não temos nada disso e mostraram essa realidade estes dois irmãos da foto.
Num apêndice, lembro aqui que muitas vezes, na minha idade de criança, via andar pelas ruas de Estremoz um senhor mal cuidado a que todos chamavam de "gaseado". Era como uma alcunha e a maioria, como eu, não fazia a mínima ideia do porquê da mesma. Anos mais tarde, juntando todas as peças, descobri que aquele senhor fôra um dos soldados portugueses que combateram na França e, devido às bombas de gás ficou gaseado. Vê-se aqui a ausência da devida assistência por parte do governo de antanho e leva-nos a confirmar que todos fôram e continúam sendo omissos. 
Agora o António continúa sózinho lá em Odivelas aguardando o momento de se juntar nòvamente ao seu irmão José.
Quem sabe se um dia um governo decente olha para essas mazelas e imita os de outros países que também tiveram as suas guerras e tratam os seus antigos combatentes como herois e com dignidade.
Um grande abraço ao camarada José Aldeia Soares com o desejo que, finalmente, descanse em paz. 

sexta-feira, junho 10, 2011

10 de Junho --- Dia de Portugal

Hoje Portugal comemora a sua data nacional. Ao mesmo tempo comemora-se o Dia da Raça, o Dia de Camões e o Dia das Comunidades Lusíadas.
Já se contam por alguns os anos desde que criei este meu blogue, mas não escrevi sobre a data em todos eles. Faço-o hoje, porque é mais um meio de comunicação a colocar o dedo na ferida que teima em sangrar e não quer cicatrizar. Acredito que sempre haverá um ou outro responsável que por aqui passe os olhos e se conscientize que as reclamações e protestos continúam vivos.
Não me sinto bem em estar a recordar estas cenas e muitas outras também muito tristes, mas elas, afinal, fazem parte da minha vida. Aqui eu coloquei hoje quatro imagens que tomei a liberdade de copiar dum site do qual participam veteranos da guerra colonial portuguesa (http://ultramar.terraweb.biz). Pela ordem vemos uma Mãe, um Pai, um Filho e uma Família inteira recebendo condecorações a título póstumo por actos valorosos que seus falecidos ente-queridos praticaram durante as campanhas no Ultramar. São imagens de cerimónias realizadas nesta data de feriado nas cidades de Lisboa e Porto e referentes a anos da década de 60. A última foto é de meu Irmão Manuel que também faleceu em Moçambique em 1969 durante operação militar --- esta publico-a pela homenagem que mais uma vez lhe presto e pela enorme e eterna saudade que tenho no coração.
Todos sabemos que os tempos hoje estão muito difíceis em Portugal. Mas sabemos, também, que aqueles que dedicaram alguns anos das suas vidas ao cumprimento do dever nas Forças Armadas, tinham sonhos para o nosso País que os governantes das últimas quase 4 décadas fizeram gorar, por incompetência ou improbidade. Poderíamos hoje ser um grande País e verdadeiramente independente. Invejável, até. Infelizmente não o somos.
Sempre estamos a tempo, pois o Mundo não acaba já. É hora de rever tudo o que se passou nestes últimos 40 anos com especial incidência nos pontos de fracasso. Adoptemos políticas justas e sérias que se coadunem com as necessidades e desejos de todos os portugueses.
E porque trouxe para a página a questão militar, que a mente dos novos governantes se ilumine e reavalie a situação dramática de milhares dos veteranos de guerra no que concerne ao seu bem estar de saúde e económico.
Viva Portugal!





domingo, janeiro 16, 2011

Guiné 1967/1968

Apelo de Marisa Tavares, filha do veterano Júlio Marques Tavares, ex- Soldado Condutor Auto Rodas, n.º 06255566, conhecido por "Madragoa", da CCS/BArt1913, Catió, Guiné 1967/1968, falecido em 15Out1986:

Elementos extraídos da mensagem de Marisa Tavares:

Marisa Tavares, filha do militar Júlio Marques Tavares, nascida e residente em Toronto, no Canadá, solicita-nos a divulgação do seguinte apelo:
O seu pai faleceu (15Out1986) quando tinha 6 anos de idade.

Recentemente teve acesso a uma caixa contendo recordações da vida militar do seu pai, relacionados com a sua mobilização para a Guerra do Ultramar e a sua comissão de serviço em Catió, na Guiné, integrado na CCS do BArt1913.

Também, recentemente, soube que o seu pai, durante o período militar (1967 a 1969), em Catió, na Guiné, criou um menino guineense, que é seu irmão consanguíneo e se chama "Madragoa".
Aquele seu irmão consanguíneo tem agora cerca de 40 anos de idade.

Este facto é do conhecimento de sua mãe e, também, da sua avó paterna (falecida em 1986), que em vida enviava dinheiro à mãe do menino guineense para alimento do seu primeiro neto.
O seu irmão germano, nascido também no Canadá, anda há mais de 15 anos à procura de elementos para localização do seu irmão consanguíneo que, até ao momento, não conseguiu obter qualquer informação.

Assim, solicita a toda a comunidade de antigos combatentes, tanto portugueses como guineenses, nomeadamente, aqueles que estiveram na Guiné, mais precisamente em Catió, que saibam desta situação ou conheçam o seu irmão consanguíneo Madragoa, que contactem para o endereço de correio electrónico, vulgo e-mail, que se segue, porque ela e a sua família desejam muito conhecê-lo: mt_iphone@rogers.com

A Marisa Tavares, refere ainda na sua mensagem o seguinte:
Se ele ainda está em África e necessita de ajuda, quer ajudá-lo.
Caso ele seja pai, também, gostaria de conhecer os seus sobrinhos ou sobrinhas.
A sua família está pronta para os convidar e recebê-los de braços abertos.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Tropa

Não sou e nunca fui chegado a gays. Também não gosto desse termo e prefiro usar os nossos castiços como paneleiros, viados, bichas, maricas, bambis.Uns usados em Portugal e outros no Brasil. Acrescento ainda que só estou abordando o assunto e chafurdando no pântano porque um dos verdinhos falou coisa que vai dar muito pano para mangas.
Antigamente sabía-se que fulano era maricas por se ouvir falar ou por testemunho de alguém que provou a fruta. Tudo confidenciado. A própria postura em público era discreta e se se denunciava alguma anomalia pelo jeitinho, nada ía além de comentários sem afrontas. Assim, todos eram obrigados a prestar serviço militar e o desempenhavam por igual. Lógicamente que me atenho à realidade portuguesa da qual tenho total conhecimento, mas os fundamentos são universais.
Nos tempos modernos essa classe foi ganhando atenção e privilégios, atropelando a constitucionalidade do “somos todos iguais”. Por isso, eles desmunhecam em público e têm postura escandalosa. Soltam a franga com a maior facilidade. Perante isto, acho eu ser a explicação para os bichinhos e temores deste e de , quiçá, outros Generais.
Mas eles não podem formar uma opinião desse calibre, porque dentro dos quarteis o buraco é mais em baixo. Lá eles, comandantes, têm todo um arsenal de regulamentos e punições para os que os desrespeitem. Se o indivíduo chegou a sargento ou oficial é porque tem estudos e competência para tal. Sei que tem muitos bambis lá dentro e jamais tive conhecimento de excessos nesse campo.
Durante o meu curso de Sargentos Milicianos em Portugal, passei 3 meses da primeira fase na Escola Prática de Cavalaria --- Santarém. Ali percebi que era tudo macho; a tropa e os poucos cavalos, pois estes fôram substituídos por carros de combate. Porém, na segunda fase do curso, desta vez na Escola Prática do Serviço de Material --- Sacavém, já notei estranhos no ninho… Tinha uma bichinha endinheirada que pagava todos os serviços de escala e jamais dormiu na caserna. Tinha um alferes miliciano, este sim paneleiro.
Lembro-me que este alferes nos dava aulas e tinha o hábito de provocar alguns de nós com um jeitinho diferente. E daí? Eu ficava furioso, acredito que os demais também, mas jamais tirámos algum tipo de sarro ou desobedecêmos a ordens. Era um alvo a ser abatido por bala perdida se porventura a nós reunido na guerra de África mas, mesmo isso teria que ser muito bem feito…
Num teatro de guerra não existe essa coisa de desvairos. Ali são todos iguais na percepção,responsabilidade, universalidade e bravura. Quem comanda sabe o que está fazendo e nem tempo tem para pensar que é diferente. Ali não há diferenças. Conheço e posso afirmar!

sexta-feira, junho 05, 2009

Ilusões

Quantos portugueses, quantos dos meus camaradas de armas fôram sacrificados nessa terra endiabrada!? E para quê?

Não quero dizer com isso que a Guiné deveria continuar a ser uma colónia portuguesa. O que eu quero dizer é que, aqueles que nos enfrentaram na guerra, embuídos de um ideal que começaria com a independência, foram, como nós, traídos.

A nós enfiávam-nos goela abaixo a grande ilusão de que se tratava de uma extensão do nosso território metropolitano, como as demais e então denominadas Províncias Ultramarinas. Na escola primária já tínhamos que ter na ponta da língua as respostas sobre perguntas histórico-político-geográficas. A eles, os seus líderes lavavam-lhe o cérebro e implantavam idéias que jamais seriam concretizadas. E, assim, uma guerra de treze anos envolveu os dois lados com os Grandes Chefes atirando carne para canhão.

No que nos diz respeito, tudo acabou quando do 25 de Abril de 1974. Quanto a eles, os grandes (até mesmo gordos e corpulentos...), jamais se deixaram de matar uns aos outros numa carnificina desenfreada.

Em ambos os países, definitivamente circunscritos ao seu monobloco geográfico, travam-se outras guerras e actividades internas e muitas vezes com alvos idênticos. A Guiné é o grande entreposto do tráfico de entorpecentes com tentáculos direcionados a todos os quadrantes. Portugal é uma das principais portas de entrada na Europa. Continuamos irmãos...

segunda-feira, setembro 15, 2008

15 de Setembro de 1969

Mais um 15 de Setembro. Este é o 39º, depois daquele fatídico do ano de 1969 em que o meu irmão faleceu e operação militar nos céus de Mueda em Moçambique. Ou teria sido nas terras e não nos céus? --- Até hoje a informação oficial é a de "acidente" pura e simplesmente.
Versões ouvidas ao longo destes anos se contradizem; nem alguns dos seus companheiros de antanho são unânimes ao tentar explicar o que realmente se passou. Assim, vou convivendo com todas essas incertezas e tentando formar uma imagem própria com os retalhos que conjuminem.
Em alguns sites específicos e blogs dedicados à guerra do ultramar, já aparecem pipocando, aqui e ali ,testemunhos sobre acontecimentos que até então eram ofuscados por uma espécie de neblina artificial. E é nessa expectativa da dissipação das neblusidades que eu finco a esperança de um dia vislumbrar algo de concreto e palpável.
Enquanto os anos vão passando e não me falte o engenho e a arte, sempre irei expressando desta maneira os sentimentos e as lembranças, mais como uma homenagem que o Manuel sempre merecerá.

segunda-feira, julho 07, 2008

O regresso

As cerimónias fúnebres de três portugueses mortos há 35 anos em combate junto a Guidaje, no norte da Guiné-Bissau, estão marcadas para o próximo dia 26 na Capela dos Jerónimos, em Lisboa, informaram à Lusa fontes militares.
As urnas com os restos dos três militares são transportadas para Lisboa num voo da TAP proveniente de Bissau, prevendo-se a chegada para cerca das 22.15 horas de hoje.
A transladação para Portugal dos restos dos três soldados vem culminar um esforço iniciado há dois anos pela Liga dos Combatentes com o apoio da União de Pára-quedistas Portugueses, e dando sequência ao desejo manifestado pelas famílias de recuperar os restos dos três militares. A acolher as urnas com os restos dos três militares estará um pequeno grupo de antigos pára-quedistas e a família de um dos soldados mortos em Guidaje.
As urnas com os restos dos três militares serão transportadas para a Capela do AT1, as instalações da Força Aérea em Figo Maduro, onde ficarão depositadas até às cerimónias fúnebres aprazadas para o próximo dia 26.
Os restos dos três soldados pára-quedistas tinham sido sepultados, juntamente com os de outros sete militares caídos na batalha de Guidaje, em Maio de 1973, junto ao antigo quartel português naquela localidade.
Os três militares, soldados da Companhia pára-quedista 121, foram mortos no dia 23 de Maio de 1973 quando foram vítimas de uma emboscada montada pelo Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) junto a Guidaje.
O quartel de Guidaje estava há duas semanas cercado e submetido a constantes flagelações por parte das forças do PAIGC, num dos episódios mais dramáticos de toda a guerra colonial.
Os pára-quedistas faziam parte de uma força de intervenção, que incluía ainda uma companhia de comandos e uma companhia de fuzileiros, enviada para Guidaje para tentar romper o cerco e aliviar a pressão do PAIGC sobre o quartel.
O processo de recuperação dos restos dos militares portugueses caídos em Guidaje vai prosseguir, estando ainda em curso o processos de exames laboratoriais com vista à identificação definitiva dos restos de outros soldados sepultados em Guidage.
Depois da missa, que será celebrada pelo capelão-chefe da Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, as urnas com os restos dos três soldados serão transportadas num avião militar para o quartel das tropas Pára-quedistas em Tancos.
Os três militares caídos há 35 anos anos na Guiné-Bissau serão então alvo de uma derradeira homenagem militar sendo depois entregues às famílias para serem definitivamente sepultados nos cemitérios das localidades onde residiam, respectivamente em Castro Verde, Caxinas (Vila do Conde) e Cantanhede.
Lusa - Lisboa, 4 de Julho de 2008

segunda-feira, outubro 22, 2007

REGRESSO A CASA

A Liga dos Combatentes (Portugal) e o Governo da Guiné Bissau assinaram um acordo que vai permitir a trasladação dos restos mortais de três pára-quedistas portugueses mortos na guerra naquele território em 1973.
Os homens foram sepultados num cemitério militar, sem condições. Há vários anos que as famílias pediam autorização para trasladar os corpos. O acordo chegou entre os dois países no Dia Nacional do Combatente.
A demora explica-se com guerras, com razões diplomáticas que ainda agora se ultimam para que em Novembro, data prevista, os corpos dos três caçadores pára-quedistas regressem a Portugal. Estão sepultados num cemitério militar provisório. O novo acordo assinado pretende alterar a situação e preservar memórias.
Fora do território português existem registos de 6 mil militares em iguais circunstâncias. Mais de metade em Angola, Guiné e Moçambique. Homens cuja memória foi lembrada nas cerimónias do Dia do Combatente.
In TVI-Televisão (Portugal)
Muitos anos já se passaram e, finalmente, abre-se uma luz para se começar a resolver este que é um grande drama para muitas famílias portuguesas. Só se lamenta o desinteresse de vários governos de Portugal em se empenharem na solução deste grande problema e presta-se homenagem à Liga dos Combatentes que chamou a si a empreitada de alma e coração. Fica viva a esperança que muitos outros nossos camaradas voltem ao seu torrão natal, o máximo possível deles, pois que todos será inviável devido a outros factores.

sexta-feira, setembro 07, 2007

REGIMENTO DE CAVALARIA 3

O Regimento de Cavalaria 3 (RC3), de Estremoz, a unidade que mobilizou o maior número de militares para a guerra nas antigas colónias portuguesas, iniciou dia 5 as comemorações dos 300 anos de existência.
De acordo com o RC3, as celebrações vão ter o seu ponto alto a 14 de Setembro com uma cerimónia militar comemorativa do dia da unidade, no Rossio Marquês de Pombal.
O programa comemorativo dos 300 anos da unidade inclui várias actividades de âmbito militar, cultural e desportivo, entre as quais colóquios, espectáculos musicais, um festival folclórico e exposições de artes plásticas. As celebrações arrancaram hoje com uma marcha a cavalo entre as cidades de Elvas e Estremoz.
O RC3, de Estremoz, foi a unidade que mobilizou o maior número de militares para a guerra nas antigas colónias portuguesas, cerca de 42 mil homens, integrando 42 batalhões e 18 companhias, e a que registou o maior número de mortos - 485.
Considerada uma das unidades militares mais influentes na revolução do 25 de Abril de 1974, o RC3 participou com um esquadrão de reconhecimento, comandado pelo capitão Andrade Moura, com 120 homens nas movimentações militares que derrubaram a ditadura.
O Regimento de Cavalaria 3 «Dragões de Olivença» tem origem numa das mais antigas unidades do Exército, fundada em 1707, em Olivença.
O RC3 está instalado em Estremoz há 132 anos, desde 05 de Abril de 1875. O dia da unidade é celebrado, habitualmente, a 15 de Setembro, data em que decorreu a Batalha de Fuente de Cantos, em 1810.
Diário Digital - Lusa

quinta-feira, junho 21, 2007

MOPEIA (MOÇAMBIQUE) 38 ANOS DEPOIS...

Completam-se hoje 38 anos sobre o dia em que ocorreu o maior acidente com o exército português na então Província de Moçambique, durante o período da guerra colonial. Na travessia do rio Zambeze, em Mopeia, a virada de um batelão que transportava uma companhia, deixou 103 mortos. Entre estes estava um conterrâneo de Estremoz --- Joaquim Manuel Cantante Cheira.
A todos aqueles meus camaradas de armas presto aqui a minha homenagem.