segunda-feira, setembro 14, 2020
sábado, dezembro 07, 2019
Guerra Colonial
▪ PIOR, ANTÓNIO, MUITO PIOR!
Um último adeus para ninguém e para todos ao mesmo tempo foi acenado e agora, ao longe, apenas se avistam lenços que se agitam como se fossem asas brancas - a cor da paz - acenando a pontos em tom de verde - a cor da esperança - que vão ao encontro da cor negra - a cor da guerra! Para alguns, a cor da morte!
A silhueta da ponte também acabou por desaparecer. A noite chega ao alto mar e com ela vem o frio e a humidade e ao Niassa chega um misto de desconforto e tontura que se apodera da cabeça de António e, provavelmente, de todos camaradas a caminho do desassossego. Só então António se apercebe que esta é uma noite diferente. Diferente de todas as noites que até aí viveu na sua jovem vida! E só então se apercebe, que o chão não é tão firme como habitualmente e que a sua cabeça roda em corpo parado. Uma intensa e áspera brisa cola-se-lhe à face, sacudindo-o do estado de hipnose que até ali estaria mergulhado. Realmente, esta é uma noite diferente e diferentes serão as noites seguintes da sua vida!
Para António e camaradas graduados, o jantar chegou e é servido no salão-restaurante do velho Niassa. Jantar bem confeccionado, a fazer jus à fama dos cozinheiros da marinha.
De início, o Niassa foi construído para transporte de mercadorias. Com o incremento dos negócios na África Portuguesa verificado nas décadas de 40 e 50, foi adaptado para levar cerca de 300 civis comodamente instalados, sendo classificado depois, como barco-misto – carga e passageiros. O regime fascista de Salazar, cuidando dos seus amigos, mandou fazer essa adaptação, de modo a dar boas condições de viagem aos seus homens de negócio. E fez muito bem, pois deve-se cuidar dos amigos. Mas quando a guerra rebentou na década de 60, nunca o Niassa foi preparado para transportar tropas. Nunca preparado para transportar 500, mil ou 2 mil jovens a caminho da guerra. Nem o Niassa, nem outras velhas carcaças que transportavam gente como se fosse gado.
Nas instalações preparadas para os civis, viajam agora os oficiais, os sargentos e a tripulação graduada da marinha, e não sendo tão luxuosas com as de um barco-de-amor, são instalações que permitem uma viagem confortável.
Depois de ver as suas cómodas instalações, António interrogava-se, “como será o refeitório dos soldados? Tão péssimo como os porões onde vão dormir?”
- Pior, António, muito pior! - diz Augusto, já perto das 10 da noite, quando se encontram novamente.
- O refeitório é lá à frente na proa e parece um barco a balouçar!
- Mas é um barco a balouçar! - replica António.
- Sim, é um barco a balouçar, mas parece no meio de tempestade! Foda-se, não conseguimos comer, porque não seguramos o prato e a boca foge-nos. Parecemos baratas tontas com a colher na mão à procura da boca. A boca foge da colher. Não há garfos, só colheres e ainda bem que não há facas. Peguei em dois moletes, abriu-os com a mão e meti dois bocados do que parece ser carne mastigada e saí agarrado aos outros camaradas, tão estonteados quanto eu. Foda-se, é pior que a cena do Ben-Hur, lembras-te do Ben-Hur? Do filme que vimos há tempos? Só nos falta remar com chicote nas costas como no Bem-Hur. Se não for obrigado, não volto ao refeitório. Fico completamente tonto e agoniado! Prefiro comer sandes aqui fora! Diz o meu pai, que o governo se sacrifica pelo povo. Queria vê-los aqui, feito baratas tontas de colher na mão à procura da boca. Sacrificam-se um caralho! Vêm para a televisão com a treta da “conversa em família” e é assim que nos fodem!
- Então, não comeste nada?
- Comi apenas uma sande de carne mastigada, mas não tenho fome. Estou agoniado e só preciso apanhar um pouco de ar, mas aqui na coberta está muito frio. Fui de novo ao beliche onde vou dormir. Quase desmaiei a descer aquela enorme escadaria até chegar ao porão. O calor e o cheiro são insuportáveis. Acho que não vou conseguir pregar olho até chegar a Bissau.
*
Facilmente se compreende, que instalar beliches no porão de carga e colocar o refeitório na proa, não são os melhores sítios de um barco, nem para dormir, nem para comer, antes pelo contrário. Na verdade, são os piores. Mas que importa aos políticos de um regime, que apenas se preocupa com os seus amigos?
Tinha pois, razão de ser, a indignação do camarada Augusto.
- Diz o meu pai – repetia Augusto – que os tipos do governo são pessoas de bem, pessoas decentes que olham pelo povo e que fazem o melhor que podem! Fazem… um caralho! Gostava de os ver aqui nesta pocilga, esses “heróis“ que nunca puseram os pés em África e se estão nas tintas para quem vai defender a Pátria. Na vinda, se não viermos num caixão, mandam-nos vir a nado! E as tuas? Como são as vossas instalações?
- As nossas são aceitáveis. São ali na parte central, nos camarotes.
- Pois! És um sortalhão. Eu não quis estudar e agora fodo-me! Sorte do caralho!
- Deixa, não te apoquentes. São apenas cinco ou seis dias de viagem. Sorte, mesmo sorte, é regressarmos sãos e salvos, isso é que é sorte. O resto é passageiro e não tem tanta importância. São apenas cinco dias da viagem!
in, GERAÇÃO DE 70 / Época das Chuvas
Romance sobre a Guerra Colonial Portuguesa em África
Capítulo 4 de 34
angelinosantossilva@gmail.com
terça-feira, janeiro 10, 2017
sábado, janeiro 07, 2017
sexta-feira, agosto 21, 2015
Começo do Ultramar Português
Conquista de Ceuta
22 de Agosto de 1415
quinta-feira, junho 21, 2012
Portugalidade
Existem muitas opiniões sobre a colonização portuguesa no Mundo. Principalmente sobre o que fôram os últimos 60 anos e durante os quais se desenrolaram as guerras de libertação. Mas não é exactamente esse o ponto do assunto de hoje. O assunto recai sobre essa mesma colonização, mas com relação a Timor-Leste, que foi diferente de tudo o mais.quinta-feira, janeiro 26, 2012
sexta-feira, fevereiro 11, 2011
Veteranos
segunda-feira, março 02, 2009
Uma cajadada...
segunda-feira, julho 07, 2008
O regresso
terça-feira, novembro 27, 2007
FILHOS DA PÁTRIA
Muito se tem lido e ouvido sobre as missões dos militares portugueses noutros países na actualidade. Uns os consideram mercenários, outros heróis, enfim. Eu não vou dar aqui a minha opinião a tal respeito por não ser a questão a focalizar.
A verdade é que os três ramos das Forças Armadas Portuguesas são hoje profissionalizadas e constituídos por voluntários o que constitui uma diferença abismal em relação aos tempos da Guerra Colonial quando a maioria era arregimentada compulsivamente e obrigada a cumprir comissões no Ultramar, com o que totalizavam
Naquele tempo diàriamente morriam alguns nas várias frentes de batalha, outros em acidentes ou com doenças adquiridas. Hoje também se verificam algumas baixas, mas sem comparações a assinalar.
Num destes últimos dias faleceu um dos nossos soldados no Afeganistão, vítima de um acidente. Estava integrado numa força de intervenção da ONU e da qual Portugal faz parte. Soldado paraquedista, de 22 anos --- Sérgio Pedrosa.
Ontem o seu corpo chegou a Portugal e numa base da Força Aérea tiveram início as cerimónias fúnebres com a presença de autoridades militares e de familiares. E é aqui que eu me proponho a fazer as comparações com os tempos passados.
Muitos dos meus camaradas foram enterrados nos próprios campos de batalha mercê das dificuldades logísticas do momento. Outros, cujos corpos foram resgatados, ficaram em cemitérios locais hoje totalmente abandonados porque as famílias não tinham posses para pagar as despesas de transladação. Muitos outros voltaram nos seus esquifes à sua terra natal e a maioria sem quaisquer cerimoniais oficiais.
Pessoalmente, eu encontrava-me a cumprir missão em Timor quando o meu irmão faleceu
Muitas das feridas abertas com a Guerra Colonial ainda não cicatrizaram. Alguns dos corpos que jaziam na África foram recentemente entregues aos seus familiares, mas isso em virtude de grandes e complexas negociações entre Associações de ex-combatentes e os Governos locais. Nunca por uma decisão do Estado português que continúa omisso em relação aos soldados de antanho e agindo de modo diferente aos de hoje.
DIGNIDADE DE SER SOLDADO
A guerra colonial acabou há quase 34 anos. Foi há muito tempo, dirão alguns dos meus leitores; só passaram três dezenas de anos, dirão outros. Terão todos razão, porque se trata de uma situação de garrafa meia cheia ou meia vazia. Tudo depende da perspectiva pela qual se olha o problema. Por exemplo, foi há muitos anos, se pensarmos que a grande maioria dos actuais oficiais generais (majores-generais e tenentes-generais ou contra-almirantes e vice-almirantes) já não combateram na guerra colonial ou, no caso dos mais antigos, fizeram-no como alferes acabados de sair da Academia Militar. Contudo, não foi há tantos anos assim, se pensarmos que a maioria dos capitães de Abril são, agora, recém-reformados que ainda não atingiram os 70 anos de idade, estando, por conseguinte, distantes do chamado tempo médio de vida. Este facto, aparentemente, paradoxal parece, também, estranho, porque a maioria dos cidadãos já esqueceu que a guerra colonial durou 13 anos, quer dizer, cerca de mais de 1/3 da carreira normal de um militar do quadro permanente.
Quem, como eu, entrou na Academia Militar em Outubro de 1961 — seis meses depois do início da guerra — e foi promovido a alferes em 1965 e avançou para África em 1966, para cumprir uma comissão de serviço de 24 meses — sempre prolongados por via da demora na substituição — em 1974 já levava 8 anos de guerra, enquanto um alferes de 1960 tinha 13 e um alferes de 1973 somente um. Analisando as respectivas idades, temos que o alferes de 1960 teria, nessa altura, entre 20 e 23 anos — entre 33 e 36, em 1974; o de 1965 entre 29 e 32 aquando da Revolução dos Cravos; e o de 1973, entre 20 e 23.
Repetindo o raciocínio para a actualidade vemos que o primeiro terá agora entre 67 e 70 anos; o segundo, entre 63 e 66 anos; e o terceiro, entre 54 e 57. Claro que estou a excluir desta análise todos os que eram tenentes e capitães em 1961 e que terão actualmente entre 70 e 76 anos de idade.
A estes homens --- se lhes associarmos os sargentos dos quadros permanentes que em 1961 tinham à volta de
É esta visão que os jovens governantes de Portugal parece não terem. Para eles, a guerra foi um acontecimento que já se passou há muitos, muitos anos e dela ouviram falar vagamente aos pais ou a algum parente. Eles não percebem que agora. ainda há custos de guerra que têm de ser pagos. Custos que são mais visíveis em cada um dos militares reformados e cujas idades estão compreendidas entre os quase 60 anos e os que sobrevivem aos 75.
Todas as medidas que afectam os militares reformados com idades próximas dos 60 anos são acções sobre os custos da guerra, são injustiças cometidas sobre quem esteve disponível para servir em todas as circunstâncias e em todos os momentos. Todas as medidas que afectam as pensões e as poucas regalias que se lhes haviam dado como recompensa do muito que esses militares ofertaram à Pátria, são nódoas que caiem na Democracia portuguesa, no brio e na honra de toda a Nação, porque, todos os que por lá andaram nessa guerra, se mais não fizeram não foi por cobardia ou falta de vontade… Foi porque o mundo e a razão dos povos esteve contra eles. Esses adversários eram demasiado poderosos para se deixarem vencer.
Se o senhor ministro da Defesa Nacional tivesse memória e consciência do que foi o sacrifico do seu próprio Pai — oficial do Exército — e o de todos os seus camaradas, se tivesse estudado a guerra à qual não foi, se não tivesse a ambição e a vaidade de se alcandorar ás cadeiras do Poder para se pavonear, já teria pedido a demissão e ter-se-ia recolhido ao magistério de onde nunca deveria ter saído. Não tem vergonha. Tem vaidade. Por isso fica instalado lá no gabinete, no Restelo, sem honra e sem o respeito de todos quantos serviram uma Pátria que ele nos quer fazer crer serve também. Não serve, porque lhe falta a coragem de se bater por quem se bateu. Não serve, porque compactua com os seus colegas que negam aos antigos combatentes as mais modestas migalhas que tanta falta lhes fazem. Não serve, porque cauciona a perseguição a todos os militares que lutam, como podem e sabem, pela defesa da dignidade de ser SOLDADO.
segunda-feira, outubro 22, 2007
REGRESSO A CASA
sexta-feira, outubro 19, 2007
LEAL SENADO
Macau foi um território ultramarimo dos portugueses em tudo diferente dos demais, principalmente por nunca ter sido uma conquista militar e sim uma doação da própria China como reconhecimento a serviços prestados no século XVI.





