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sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Sucata


giacomettiUma das minhas ocupações profissionais, ao longo da minha vida, foi a de sucateiro. Foi na época de grande  crise económica (1980) em que perdi o que foi o meu último emprego e passei a trabalhar por conta própria.
Sempre gostei das coisas direitas e, mesmo sem ter um espaço físico à altura e específico, abri firma com tudo legalizado. Como muita coisa que fiz, entrei de curioso com a força e a vontade e fui conhecendo os meandros dessa actividade. Grandes máfias existem nesse campo…
Aliando o útil ao agradável, fui-me embrenhando e cada vez mais apaixonado ficava por certas peças descartadas como sucata e que eram, na verdade, obras de arte e antiguidades valiosas. Criei gosto pelo ramo.
Eu próprio cheguei a criar agumas obras utilizando pedaços de metais. Algumas eu guardei e a maioria acabou mesmo por voltar a ser sucata depois que passei horas olhando para elas e ter concluído tratar-se de algo horripilante…
Porém, repentinamente e tantos anos depois, mostro-me arrependido desses actos. Quem me garante que alguma dessas muitas obras que fiz, até mesmo esculturas em bronze derretido, não valeria 1 milhão de dólares!?
Não estou voando muito alto quando cito 1 milhão, pois faço uma comparação com os 103 milhões pagos no leilão da Sotheby’s em Londres pela escultura “Homem andando” de Giacometti e que, diga-se de passagem e sinceramente, é uma verdadeira droga de mau gosto.
Não sou mais sucateiro profissional, mas mantenho o hábito de guardar tranqueiras e vendê-las depois. É o caso das latinhas e cerveja que tomo diàriamente. Assim, estou a par dos preços dessas commodities e pasmo quando o cara do ferro velho me paga o bronze a 20 paus o kg e me lembro da escultura do suiço…

sábado, novembro 28, 2009

Dilema

O meu computador tem um génio complicado. Geralmente apresenta problemas graves na véspera dos meus dias de folga. Nesse comportamento eu posso concluir duas coisas: ou ele vem cozinhando o problema até ao limite e posterga esse limite para o dia tal e de modo a que dedique a minha folga para a sua manutenção, ou escolhe o dia para me sacanear como vingança de tanta porrada que lhe dou nas teclas.
Seja como for, continuamos companheiros e eu acabo de levar tudo para o lado bom da vida. E por tudo isso, ele, ou mais exactamente o seu teclado, acabou por merecer esta crónica. Se alguns cronistas se inspiram em pequenos detalhes por vezes estapafúrdios ou muito subtis, como por exemplo a simples observação dum joelho de mulher bem torneado que acaba por originar o derrame de mil palavras, num verdadeiro tratado sobre tudo o que se passa para cima ou para baixo, porque não concentrar-me num teclado?
A torre foi directamente para o técnico. O teclado ficou comigo. Estava seboso e achei que deveria fazer uma limpeza em vez de ocupar o meu tempo com outra tarefa qualquer. Afinal, gosto dessas minúcias, do desmontar e montar, enfim.
Ao retirar todas as teclas, vislumbrei um monte de poeira e outros lixos e não sei como tudo aquilo ali foi aninhar-se. Tinha até pelos do meu cachorro, mas aqui a coisa é compreensível, pois em muitos momentos ele me faz companhia olhando para a tela do monitor e pensando sabe-se lá o quê…
Depois de limpar tudo minuciosamente e de recolocar  nos seus respectivos lugares, comecei a examinar as teclas e fui pensando, pelo desgaste de cada uma, quais as mais e as menos usadas. Ocupação de quem não tem mais nada que fazer, ou o início de uma piração pelo mergulho e escafandragem nessas águas. Um exercício de raciocínio para prevenção a doenças futuras da 3ª idade…
No frigir dos ovos, cheguei a uma conclusão interessante: gastei 3 horas do meu tempo nessa terapia ocupacional e que em termos monetários daria para comprar 3 teclados novos e brilhantes. Talvez por assim ser, muitas pessoas descartam objectos em plena capacidade de funcionamento, inflando depósitos de sucata e lixões muitas vezes com reciclagem mínima. Não chega a ser um dilema numa análise fria.