quarta-feira, fevereiro 27, 2013

A Janela

Contrariando uma tendência, hoje começo esta crónica já com título. Acho que pelo simples facto de  a maior parte da história se ter desenvolvido a partir de uma janela.
É a mesma janela cujas grades aparecem na primeira foto desta postagem. As outras duas imagens foram feitas a partir do mesmo andar do edifício e eu só as coloco para darem uma melhor ideia do local. Era um andar com três sacadas para essa Praça do centro da cidade de Évora --- a Praça de Sertório.
Ao lado esquerdo vê-se a actual Caixa Geral de Depósitos (antigo Banco Nacional Ultramarino); no topo, ao fundo, a Igreja do Salvador Velho; do lado direito, o edifício da Câmara Municipal. Não aparecendo nas imagens, mas ponto principal da história, ao lado da igreja fica o edifídio dos Correios.
Nos idos de 1965 e 1966 eu tinha de vinte para vinte e um anos de idade e trabalhava numa daquelas salas como escriturário no então "Escritório de Advogados Camarate, Azevedo e Rapazote". Trabalhava bastante e quase saía fumaça daquela máquina de escrever que não parava o dia inteiro... De entre outras experiências aproveitadas, a de dactilógrafo foi-me muito útil e o é até hoje no teclado do computador. Ali, também decorei muitas frases de latim que me incentivaram a um superficial estudo da língua, mais especìficamente na parte etimológica da língua portuguesa.
Mas... com quase vinte e dois anos, eu jamais tivera uma namorada. Não que não desejasse uma, mas porque a minha timidez não cabía em mim. Fazia tudo para pedir namoro às garotas, mas na hora H eu não conseguia nem ao menos me aproximar...
Quatro lindas raparigas estiveram nas minhas preferências e com quase todas se passou a mesma coisa. Falarei de cada uma noutras crónicas que aqui pretendo escrever, pois que cada caso foi um caso, com o mesmo tipo de fulcro mas de forças e resistências diferentes. Hoje só me lembro do nome de duas das personagens que passaram por esse estágio da minha vida. Da que faz parte da crónica de hoje eu não me lembro. Chamá-la-ei de Désiré --- algo muito desejado na língua fracesa...
Désiré era estagiária nos Correios. Esse estágio demorava alguns meses, não me lembro quantos, e depois cada uma das estagiárias era alocada em algum lugar do país. Esse controle eu tinha, pois todos os dias lia o então "Diário do Governo" (hoje "Diário da República"), no qual eram publicadas todas as matérias referentes a concursos públicos e estágios.
Todos os dias pela manhã Désiré passava sob a minha janela quando se dirigia aos Correios. À tarde fazia o percurso inverso. Eu ficava na sacada vendo ela passar com seu ar gracioso. Era uma moça um tanto ou quanto frágil, mas muito bonita. E tenho a certeza que ela percebia a minha presença.
Esse interesse avivou a minha habilidade de pesquisador e, dentre outras coisas, vim a saber que ela era do Ameixial, uma Freguesia da minha cidade de Estremoz. Epa! éramos conterrâneos e, por isso, efervesceu mais o meu interesse por Désiré...
Coloquei em campo a minha irmã que morava em Estremoz e que conhecia todo o mundo. Nem sei se ela chegou a comentar alguma coisa com a moça, pois sempre gostou de meter o bedelho nessas transas, principalmente sabedora que era do quanto eu era tímido. É possível, até, que eu desejasse isso mesmo, como uma pequena alavancagem na minha empreitada. Mas acho que isso não aconteceu e agora também é impossível saber. A não ser que alguma vez haja um contacto com Désiré.
Sabendo que ela era do Ameixial e que passava todos os fins de semana em casa, fui saber os horários da automotora que fazia a ligação ferroviária entre Évora e Estremoz.Consegui, pois todas essas coisas eu conseguia...
Todas as segundas-feiras eu saía de casa cedinho e caminhava pela arcada em direção à Estação dos Caminhos de Ferro. E todas as segunfas-feiras Désiré caminhava da Estação em direção à arcada. Inevitàvelmente nos cruzávamos em algum ponto desse trajecto. À distância os nossos olhares se fitavam e quando ao lado um do outro passávamos eles se cruzavam parecendo querer dizer algo que jamais foi dito por palavras.
Dali a pouco nos olhávamos nòvamente quando eu já estava na janela do meu emprego e Désiré passava a caminho dos Correios. E todos os dias a Praça do Sertório assistia à nossa silenciosa troca de olhares. E nas segundas-feiras aquela mesma cena. E assim por mais de um ano.
Foi um namoro jamais declarado e silencioso. Um diálogo de surdo-mudos.
Na última vez que estive em Évora, em 2011, dirigi-me algumas vezes à Caixa lá na Praça de Sertório e nalgumas dessas oportunidades sentei-me por ali olhando para aquelas janelas. Lembro-me que passei muito templo nessa contemplação de saudade e a memória viajou por grandes distâncias de mil recordações. Désiré fez parte desses momentos também e, para mim, será eterna. Se ela fôr internauta, como eu, talvez leia a minha crónica e assim tenha confirmadas e esclarecidas as suas deduções e dúvidas de antanho.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Calma!


sábado, fevereiro 23, 2013

Salvé Yoani!



Vocês, leitores das minhas crônicas e de outras postagens de cariz diverso, certamente não sabem, mas eu tenho um relacionamento muito estreito com Cuba. Até o simples gesto de apontar ou comentar sobre a Ilha já me envolve de uma maneira muito especial. Não diria agradabilíssima, mas mais para o lado do romantismo, pois neste aspecto se encaixam até as agruras.

Não conheço Cuba, mas nutro  ganas intensas de conhecer o que presumo ser uma maravilhosa e encantadora ilha do Caribe. Todavia, sabedor que sou da eterna situação complicada, o que me leva a nutrir esse interesse?

Tenho uma amiga em Havana desde o início da década de 60. Por motivos óbvios, não citarei nomes nem situações que possam levar até ela. Infelizmente a situação é essa. Muita coisa eu  gostaria de comentar com a minha amiga nas centenas de cartas que lhe enviei ou, mais recentemente, nos  e-mails. Mas não! Existe uma linha do bom senso que me impede de abordar alguns assuntos que fariam parte do trivial em qualquer contacto abrigado na liberdade de expressão. Isso para não a prejudicar.

Sigo há muito tempo tudo o que Yoani Sánchez escreve no Twitter e no blog. Assim, tenho conhecimento de muita coisa que se passa na Ilha de Fidel, principalmente aquelas que oficialmente jamais seriam dadas a conhecer ao mundo.

Pela minha idade avançada e pelo longo e árduo caminho palmilhado, tenho a vivência suficiente para discernir o que é bom e o que é mau, o certo e o errado, o falso e o verdadeiro, etc., etc..

Vivi 45 anos sob o tacão de duas ditaduras. Essas agremiações partidárias ou governamentais de jovens, como Juventude Socialista e outras de nomes parecidos não possuem mais que partículas desse conhecimento adquirido. Não poderiam vir para as ruas exocrinar a paciência de quem quer que seja, principalmente em manifestações violentas como estas a que se propuseram em relação à visitante cubana. É lógico que tudo isso é orquestrado pela batuta de entidades governamentais e até diplomáticas (!), infelizmente.

Esse ódio para com Yoani é algo artificial; é coisa que eles não saberiam explicar se sobre tal inquiridos. Alguns nunca ouviram falar de Yoani, pelo que vi em algumas imagens na tv...

No Twitter, por exemplo, actores como  José de Abreu (petista de carteirinha) baba a sua raiva como um cachorro raivoso em relação à blogueira cubana. Um dia estará na merda lá no asilo dos artistas e nem mesmo os seus amigos viadinhos lhe ligarão alguma. Outra que também não sabe o que diz é a senadora Vanessa Grazziotin.   


Nasceu em Videira SC e casou com um ex deputado do Amazonas que agora ocupa pasta na Secretaria de Estado da Produção Rural. Este encontra-se sob investigação em inquérito instaurado pela P.R. do Distrito Federal por emprego de funcionários fantasmas enquanto deputado federal. Tudo muito boa gente…
Ela apoiou a Juventude Socialista nos protestos e diz em relação à vinda de Yoani: “Quem critica as manifestações não conhece o que era Cuba antes e o que é agora”. E será que ela conheceu Cuba antes?... Claro que não, pois nem nascida era. 

E actualmente, se conheceu, foi em visita de medico --- muito rápida. E mais adiante ela continua: “Cuba não é mais o quintal dos ianques que usavam o país para se diverter”. Isso, na realidade, é o que sempre se diz, entre outras coisas,  para justificar a Revolução Cubana.

Imagino esse tipo de pessoas visitando Cuba. Claro que não vão lá como simples e anônimos turistas; normalmente vão credenciados e, por isso, devem ter uma recepção e acompanhamento especial. Mesmo assim, ficam enjoados muito ràpidamente e sentem na pele a falta de bens básicos ou até mesmo de pequenos bens de luxo a que estão habituados no dia a dia. Voltam rapidinho, mas não têm a coragem de denunciar os podres...

Transcrevo aqui artigo do jornalista Nelson Motta para o jornal “O Estado de S. Paulo”:

Se os eficientíssimos serviços de repressão cubanos, que há anos espionam Yoani Sanchez dia e noite, tivessem descoberto a menor prova de suborno, a "agente milionária da CIA" já estaria presa. É sintomático que, para eles, alguém só discorde do governo se levar dinheiro. Freud diria que estão falando deles mesmos.
Antigamente eles queriam ser mais realistas que o rei, hoje tentam ser mais tirânicos que os tiranos, como mostraram os protestos contra Yoani em Recife, Salvador e Feira de Santana, não só com gritos e faixas, mas esfregando dólares falsos no seu rosto e puxando os seus cabelos.
Admitamos que existem verdades nas várias correntes, da esquerda e da direita, do mesmo modo que haverá mentiras dos dois lados, é interessante que se exponham para que a Sociedade possa analisar e formar a sua própria opinião. Tem que haver liberdade de expressão e de movimentação. É isso que eu defendo quando me coloco ao lado de Yoani. Não tenho procuração para a defender e não ganho dinheiro com isso. Já senti na pele o beliscão de ditaduras terríveis,  por muitos anos, e isso me aviva o quanto é maravilhoso o sentimento de Liberdade.
 




segunda-feira, fevereiro 11, 2013

Habemus Papam

No próximo conclave, após o dia 28 de Fevereiro, é só escolher um dessa meia dúzia e gritar "habemus papam brazilianus"

domingo, fevereiro 10, 2013

Guarda ao Paiol

Gosto muito de ver as charges do "Zé da fisga" publicadas em páginas dos veteranos militares portugueses. E hoje, enquanto apreciava a da ilustração da minha crónica, afloraram-me recordações dos tempos em que prestei serviço militar no Destacamento da Ameixoeira (Forte da Ameixoeira), em 1967.
Normalmente o Oficial de Dia andava desarmado e só colocava o cinturão com a pistola Walter ou a Parabellum nas formações da Parada ou no evento do hastear e arriar da bandeira. E ali, na parte externa do Destacamento, só portava o seu bastão ou vergalho, uma velha tradição da cavalaria copiada pelos de outras armas e serviços, principalmente os denominados "chicos", os militares de carreira.
Aqui na ilustração, fazendo uma pequena alteração nas divisas (galões), colocando os 3 traços rectos e não em forma de vê, teríamos, fiel, a imagem  do capitão que, naquela época, era também o comandante do Destacamento. Esqueci o seu nome e só me lembro que era escritor, autor de pelo menos um livro --- "Cartas de Angola". Lembro-me, sim, que ele tinha residência para os lados da linha de Cascais. O outro capitão era o Amorim que vivia nas Galinheiras.
Eu era Cabo Miliciano e seria promovido a Furriel assim que embarcasse para o Ultramar. Por isso mesmo, os Cabos Milicianos faziam todo o serviço dos Sargentos.
Ainda no campo das adaptações na ilustração, em vez da fisga no bolso imagine-se uma daquelas mesmas pistolas referidas e em vez da morena africana a bela Belarmina que todas as tardes ali passava de regresso a sua casa na Azinhaga das Galinheiras, vindo do serviço que tinha lá para os lados de Alvalade.
Todas as tardes Belarmina comigo conversava durante algum tempo nos dias em que eu estava de Sargento de Dia ou Sargento da Guarda. Nos outros dias encontrávamo-nos no Café do Raimundo.
Quando o Oficial de Dia não era o Comandante do Destacamento e sim o Capitão Amorim ou algum dos Alferes e Aspirantes, tudo corria às mil maravilhas. Mas quando o meu serviço coincidia com o do Comandante, saía faísca no relacionamento, pois eu também não era flor que se cheirasse... E foi numa dessas ocasiões em que eu estava num papo gostoso com Belarmina que ele, acho que num acesso de ciúmes ou inveja, simplesmente me proibiu de ficar lá fóra e só desempenhar as minhas funções intra muros.
Jamais nutri ódio por ele. Certamente já não está entre os vivos, pois a diferença de idades era enorme. Todavia,  confesso que já procurei o seu livro na Internet, mas sem sucesso.
Jamais reencontrei algum dos camaradas daquele tempo. Só uma vez reencontrei Belarmina quando regressei de Timor.
Assim, uma simples charge encontrada na Internet, se adapta tão perfeitamente a situações por mim vividas há tanto tempo.

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Adeus Cigarro!

Há precisamente 3 anos, neste dia 4 de Fevereiro, eu fumei o último cigarro da minha vida. O primeiro eu havia fumado quando tinha 9 anos de idade. Foram 56 anos agarrado a esse vício terrível.
Claro que sofri todos os efeitos colaterias --- os bons e os maus. Engordei bastante, mas passei a sentir-me muito melhor.
Posso garantir a todos os renitentes fumantes que o abandono do cigarro só depende de ter opinião e personalidade. Eu intercalei algumas coisas no lugar do cigarro, principalmentea castanha do Pará; nada de doces.
Fumantes, abandonem aquela ideia que o cigarro é um grande companheiro nos momentos de solidão. Eu passei por tudo isso e concluí que tal não é mais que uma ilusão. Força!

sábado, fevereiro 02, 2013