quarta-feira, fevereiro 15, 2017

Esperança



Esta é a minha nova companheira e o seu nome é Esperança. Decorridos três dias de contacto posso garantir-vos que sinto nela algo de maravilhoso neste relacionamento muito sério. Não pintou uma química, mas sim uma onda. Foi muito difícil e morosa esta conquista e tive, até, que apelar aos “Deuses” de plantão que operassem uma espécie de milagre, o que realmente aconteceu.
Há mais de um ano submeti-me aos primeiros exames com o Urologista e no seguimento, com o Infectologista, foi-me diagnosticado um câncer de próstata em pequeno estado inicial. Independentemente da superficialidade do problema, o choque foi muito grande e senti o mundo desabar. Não pensei naquela imbecilidade da costumeira exclamação “porquê isso teria que acontecer comigo!?”, pois acho que acontece com qualquer um, na vertente de que todos somos iguais.
Simplesmente passei toda a minha vida numa espécie de filme mental e debrucei-me nalgumas maldades que cometi, interpretando o acontecimento como um castigo. Mas, como a força de viver é superior a tudo isso, optei por um desvio dos meus pensamentos. Accionei a agulha dos trilhos e a locomotiva tomou outra direção.
Há já uns bons anos passados, contraí uma dívida moral com os meus filhos mais velhos e que vivem do outro lado do Oceano. Pretendo amortizá-la, pois que saldá-la é impossível. Necessito conviver um pouco mais com os meus netos portugueses, para que eles fiquem com uma melhor lembrança do avô. Para isso preciso de mais uns anos de vida.
Os netos brasileiros têm tido o meu carinho na constante convivência. Porém, o mais novinho está muito apegado comigo e eu com ele. Gostaria muito de vê-lo crescer e alcançar muito do que eu sonho que ele venha a conseguir. Para isso, também, preciso daqueles mais anos de vida. Resumindo, amo a vida!
Por último, quero dizer-vos que penso, como sempre pensei, que existem duas coisas que deveriam ser somente administradas pelo Estado e gratuitas --- a Educação e a Saúde. Estes dois pilares do socialismo têm que ser absorvidos por governos que se querem republicanos e democráticos. Povo culto é mais saudável e apto para o trabalho e desenvolvimento do País. Quando tal for uma realidade, ninguém mais esperará um ano, ou até mais tempo, para iniciar um tratamento de doença gravíssima, como foi o meu caso. Todos devemos encampar essa luta.

segunda-feira, fevereiro 06, 2017

Regimento de Cavalaria 3

RC 3 volta a ser prioridade do Exército

Até final de Fevereiro, a unidade mais antiga do Exército em atividade deverá receber perto de centena e meia de homens e mulheres, militares de Portugal que irão compor as fileiras de um esquadrão de reconhecimento, denominado de ‘Nato Response Force’ (NRF18), que irá integrar uma força militar multinacional da NATO. O RC 3 estará, assim, encarregado do aprontamento deste esquadrão que deverá estar preparado para, num prazo de entre 5 a 7 dias, intervir em todo o tipo de cenários
de crise que possam ocorrer em qualquer zona da Europa.
Tendo como missão a recolha de informações no Teatro de Operações (TO), seja ao nível do terreno, seja ao do adversário, o aprontamento desta centena e meia de militares irá fazer-se em três fases e períodos distintos: ano 2017 – fase ‘Stand Up’, criação da força; ano 2018 – fase ‘Stand By’, preparação;
2019 – fase ‘Stand Down’, desmantelamento do esquadrão.
De acordo com o comandante do RC 3, coronel Nuno Duarte, este reforço de recursos humanos – que irá
também coincidir com o aumento de meios, dando-se, por exemplo, o regresso à unidade das viaturas M11 que estavam no Teatro de Operações do Kosovo – irá, não só concorrer para a implementação de uma nova dinâmica na unidade mais antiga do Exército em actividade, como também na cidade anfitriã. “Haverá mais gente na cidade a frequentar as várias áreas de lazer. Mais gente vai conhecer Estremoz, mais gente vai trazer familiares.”, sublinhou o comandante ao Brados do Alentejo.
Ao nosso jornal o coronel Nuno Duarte referiu que o aprontamento de um esquadrão multinacional é também sinónimo de responsabilidade acrescida para a unidade que dirige, uma vez que irá estar responsável por representar Portugal junto dos seus pares de outros países.
“A componente operacional do RC 3 poderá ainda servir de atractivo para os quadros do Exército – oficiais e sargentos – que poderão colocar a cidade de Estremoz no topo das suas preferências”, concluiu o comandante.


In Brados do Alentejo

Incrível!


Segurança


quarta-feira, janeiro 04, 2017

Nova Biblioteca

Câmara de Estremoz avança com projeto de 500 mil euros para instalar biblioteca
Luís Mourinha explicou que a obra vai contar com um financiamento
comunitário de 85%, ao abrigo do programa Portugal 2020.
A Câmara de Estremoz, no Alentejo, prevê avançar este ano com a obra de reabilitação de um edifício para instalar a biblioteca municipal, num investimento de 500 mil euros, disse esta terça-feira o presidente da autarquia, Luís Mourinha.
PUB
Mourinha adiantou que o município pretende reabilitar o edifício onde funcionou antigamente a loja e armazém Luís Campos, que está devoluto e que a autarquia adquiriu, para instalar a biblioteca. O edifício Luís Campos está situado no Largo General Graça, junto ao Lago do Gadanha, no centro histórico da cidade de Estremoz, no distrito de Évora.
Luís Mourinha explicou que a obra, prevista no Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano de Estremoz, vai contar com um financiamento comunitário de 85%, ao abrigo do programa Portugal 2020.
"Esta obra prevê a manutenção da fachada do edifício que vai ser recuperado", adiantou o autarca. Actualmente, a Biblioteca Municipal de Estremoz funciona no edifício dos Paços do Concelho, no Rossio Marquês de Pombal, no centro da cidade.
"A actual biblioteca municipal há muito tempo que deixou de ter capacidade para albergar o enorme acervo e arquivo histórico, pelo que é necessário arranjar um novo espaço", justificou o autarca. Luís Mourinha acrescentou que o projecto vai permitir também criar "melhores condições" para o funcionamento dos serviços da biblioteca e para os seus utentes.

In Público

segunda-feira, dezembro 26, 2016

Arqueologia no Alentejo

PÚBLICO - Uma inesperada virtualidade do projecto Alqueva está a revelar-se à medida que vão sendo conhecidos os resultados do Plano de Minimização de Impactos no Património Arqueológico (PMIPA). “Quase de repente e no espaço de duas décadas, passámos para uma nova realidade sobre o passado histórico do Alentejo”, observa o arqueólogo Miguel Serra, frisando que o avanço no conhecimento científico “é tal que a todo o momento aparecem novos dados que, nalguns casos, colocam em causa a informação entretanto recolhida”, assinala o investigador que participou em vários levantamentos arqueológicos na área sob influência do Alqueva.
Mas subsistia uma lacuna: a população das aldeias de Beja, que durante anos olhou à distância o trabalho de dezenas de arqueólogos envolvidos nos trabalhos do PMIPA, comentava com frequência: “Eles chegam, retiram e levam e nós sem saber o que é que eles andam a fazer.” Foi este lapso de informação que Miguel Serra procurou, em parte, reparar, transmitindo o conhecimento histórico acumulado entre 1995 e 2016 através da iniciativa “12 Lugares, 12 Meses, 12 Histórias — A Idade do Bronze na região de Beja”, organizada pela Câmara de Beja em parceria com a empresa de arqueologia Palimpsesto.
Assim, entre Janeiro e Dezembro de 2016, uma vez por mês e sempre a um sábado, foram programadas para as 12 freguesias do concelho de Beja percursos pedestres, que variaram entre os 4,5 e os 14,5 quilómetros. Os itinerários escolhidos contemplaram alguns sítios onde houve alguma descoberta arqueológica de artefactos da Idade do Bronze, para além da observação e interpretação da paisagem.   
Na véspera de cada caminhada, à noite, era realizada na sede das juntas de freguesia uma conferência sobre os sítios arqueológicos identificados no local, e datados de entre o ano 2000 e 800 a.C.. “Tivemos conferências com meia dúzia de pessoas e outras com dezenas de participantes, quase sempre marcadas com debates intensos que se prolongavam durante horas”, refere o arqueólogo. Ficou patente o desconhecimento sobre os resultados das pesquisas arqueológicas relativas à Idade do Bronze realizadas nas 12 freguesias. Com efeito, a informação recolhida “não tem sido divulgada para além de relatórios técnicos”, acentua Miguel Serra. Uma situação que quis mudar.
Este esforço de transmissão de conhecimento acabou por recompensar os dois lados porque, durante as discussões, surgia, por vezes, a indicação de vestígios arqueológicos que a população conhecia há muito e que tinham sido encontrados, na maior parte das vezes, no decorrer de trabalhos agrícolas.
Com estas visitas, cresceu a sensiblização e tornou-se recorrente o desejo de ver parte do património arqueológico exposto nas terras onde foram realizadas descobertas, assim como os locais onde foram recolhidos acessíveis a quem os quisesse visitar. “Que pena essas coisas não ficarem à vista para outros verem”, era um lamento comum, que demonstrava o secreto desejo de ver na terra gente vinda de fora para contemplar o património descoberto.
Por se tratar de intervenções arqueológicas de salvamento devido às obras de Alqueva, as acções passam pela recolha das peças, faz-se a avaliação do seu contexto cronológico e geográfico e depois os locais onde foram descobertos são inevitavelmente destruídos para a instalação das infra-estruturas de rega.
Emília Pereira, 67 anos de idade, que participou num dos percursos pedestres, confessou ao PÚBLICO a sua desolação por não ver “as tais ruínas dos romanos”, pensando talvez que os vestígios descobertos tivessem a monumentalidade que se observa, por exemplo, em Itália, no Egipto ou na Grécia. No entanto, os esclarecimentos prestados por Miguel Serra acabavam por situar os mais frustrados na verdadeira dimensão daquilo que a caminhada a pé se propunha alcançar, ou seja, conhecer a história das comunidades que viveram naqueles mesmos locais durante a Idade do Bronze, como faziam o culto dos mortos ou como ocupavam a paisagem.
No decorrer de uma das caminhadas, o arqueólogo pára junto a uma linha de água e descreve como ele próprio participou no levantamento de um povoado que ali existiu e de onde é possível observar, à distância de alguns quilómetros, a cidade de Beja. Na altura em que a comunidade da Idade do Bronze ali esteve instalada, a colina onde hoje se situa a capital do Baixo Alentejo “terá permanecido desabitada até à Idade do Ferro”, explicou Miguel Serra, perante a surpresa de alguns dos caminhantes.
O arqueólogo continua a contar como há 2000 anos “surgiram povoados abertos na planície com as suas cabanas redondas e silos escavados na rocha e cemitérios com sepulturas em pedra assinaladas por estela gravadas ou câmaras subterrâneas contendo mortos e dádivas.”  
Esta época é marcada pela importância dada à exploração dos ricos recursos naturais do território que é hoje a região de Beja e pela sua ocupação extensiva, como o provam as centenas de sítios arqueológicos actualmente conhecidos. Ao longo da Idade do Bronze, as comunidades encontravam-se envolvidas num processo transformador de larga escala que abrangeu todo o ocidente peninsular e que implicou uma grande abertura destas populações ao exterior.
Miguel Serra realça a presença de material oriundo do Egipto nas sepulturas daquela época, postas agora a descoberto, e revela que as primeiras peças de bronze identificadas no sudoeste peninsular, onde se insere a região de Beja, “vieram do oriente antes da chegada dos Fenícios”, assim como “o âmbar, da região do Báltico.” Naquela época da pré-história já se realizavam “trocas de produtos, de ideias, de tecnologias e até de pessoas” vindas de grandes distâncias, referiu o investigador, que consegue espantar quem o ouvia quando frisou que “os povos que aqui viveram durante a Idade do Bronze não eram assim tão primitivos como por vezes se pensa.”
Umas vezes à chuva e outras sob o intenso calor do verão, quase 600 participantes ficaram a conhecer melhor a sua terra. Outros vindos do
Algarve, Alto Alentejo, Lisboa e até do estrangeiro aprofundaram os seus conhecimentos sobre a pré-história do sul de Portugal.
Miguel Serra admite que Beja possa ser “dos poucos locais do país a discutir a Idade do Bronze” dado o grau de conhecimentos já veiculado.
Ao todo, foram percorridos mais de uma centena de quilómetros pelas 12 freguesias do concelho de Beja. Nas 13 conferências realizadas participaram cerca de 250 pessoas. Durante os percursos pedestres foram visitados 21 sítios arqueológicos e outros 102 foram mencionados no decorrer dos debates. Os números surpreendem o arqueólogo, que não anteviu a vontade das comunidades de hoje conhecerem como viviam as que as antecederam.
Terminada a última caminhada da iniciativa “12 Lugares, 12 Meses, 12 Histórias — A Idade do Bronze na região de Beja”, no passado dia 17 Dezembro na freguesia de São Matias, ficou a expectativa em muitos dos quase 600 participantes — na sua esmagadora maioria com idades acima dos 50 anos e alguns rondavam os quase 80 anos — de poderem vir a participar em novas caminhadas para conhecer mais sobre a história da sua terra. Ficam a aguardar que a Câmara de Beja dê continuidade à experiência que custou aos cofres municipais 1500 euros. Uma das caminhantes com 68 anos expressou ao PÚBLICO o seu orgulho em conhecer “o importante passado histórico” da terra onde nasce, a qual “não foi ensinado na escola” dos filhos e netos, mas que ele agora pode ensinar.
    
Alqueva dá mas também tira
A transformação do modelo agrícola na zona sob influência do Alqueva está a privar muitas das comunidades que nela residem de poder circular. Como o PÚBLICO constatou nas caminhadas que acompanhou, muitos caminhos naturais e vicinais estão a desaparecer. Cancelas e arame farpado vedam as passagens e ninguém controla este ascendente desmesurado que cerceou os acessos ao rio Guadiana
“Algumas das caminhadas que foram efectuadas já não são repetíveis porque os caminhos já não existem” refere Miguel Serra, explicando que numa delas “tivemos que abrir e fechar 14 cancelas na sua maioria de aparcamentos de gado para chegar a um sítio arqueológico que estava no nosso itinerário.”
Caminhos naturais estão cortados por manchas de olival sem fim ou por aparcamentos de gado que se seguem uns aos outros e que foram percorridos pelas comunidades locais ao longo de séculos.
O arqueólogo alerta para uma das sequências deste estado de coisas. “Se não houver condições de acesso aos sítios a informação sobre eles morre, até porque os indivíduos munidos de detectores de metais delapidam sítios arqueológicos importantes” por se encontrarem, como é óbvio, isolados.

In Público


sexta-feira, dezembro 16, 2016

Embraer KC-390

Quando pela primeira vez vi a foto do avião Embraer KC-390, surpreendeu-me ver na fuselagem, além da brasileira, as bandeiras de Argentina, Portugal e República Checa. Não sabia o porquê disso e até cheguei a perguntar numa postagem no Facebook, mas ninguém me respondeu. Também não corri atrás dessa informação fazendo uma pesquisa.
Actualmente, como diariamente esse avião aparece na mídia, principalmente no transporte dos sobreviventes do acidente com o time do Chapecoense, procurei e descobri...
O KC-390 é um projeto desenvolvido para a produção de um jato militar de transporte e que substituirá o C-130 dos EEUU.


Para o desenvolvimento e produção da aeronave, a Embraer firmou parcerias com a Argentina, Portugal e República Tcheca. A empresa brasileira fornece a seção dianteira da fuselagem com a cabine de pilotagem, asas, seção intermediária da fuselagem e estabilizadores vertical e horizontal. Executa também a integração dos comandos de voo, softwares, aviónica e equipamentos como os trns de pouso. A Argentina fornece as portas do trem de pouso dianteiro, porta dianteira direita, parte da rampa de acesso traseira, flaps  e cone de cauda. Portugal fornece a seção central da fuselagem, sponson e portas do trem de pouso principal e lleme de profundidade. A República Tcheca fornece a porta dianteira esquerda, portas traseiras, parte da rampa de acesso traseira e seção traseira da fuselagem.

sexta-feira, novembro 25, 2016

Comandos


Romãs


Acredito que uma das coisas mais gostosas da vida é, com quase 100 anos de idade, voltar a fazer algo que muito fiz na minha infância --- "roubar" fruta do quintal alheio.

Lembro-me tão bem como se hoje tivesse acontecido que, naqueles tempos de tenra idade, na minha cidade natal de Estremoz (Portugal), subia o muro do quintal da D. Conceição, atrás da Rua dos Telheiros, e lá mesmo abocanhava aquelas  lindas e saborosas romãs. Enormes e muito doces. Rachadas de  maduras, era porta de entrada para as formigas que eu acabava  de incluir no bolo alimentar e saborear. Só me apercebia de  algo diferente por causa de um gostinho acre. Dizia-se que  comer formiga fazia os olhos bonitos e talvez seja por isso que  eu me envolvi com algumas belas mulheres muitos anos mais  tarde...

 Há anos que na minha rua, aqui no Brasil, existe um terreno  murado cheio de árvores de frutos diversos, de muitas espécies; pitangas, carambolas, nêsperas, ameixas, laranjas, limões, acerolas, romãs, etc., etc., tudo perdido porque o proprietário faleceu e os herdeiros só esporàdicamente aparecem.

Nunca liguei para aquela fartura e tão pouco alguma vez pensei em pular o muro. Mas lamentava o desperdício quando pensava na multidão de pessoas carentes ávidas de saborear algo a que não têm acesso.

Mercê de um problema de saúde que carrego e para o qual a romã é um dos melhores "medicamentos" naturais, que dizem ser muito eficaz, comprei alguns desses frutos importados, muito caros, e comecei a "namorar" aquelas amadurecendo por cima do muro...

Lembrei-me que tinha um cano de ferro bem comprido entre os badulaques que costumo guardar. Tinha, também, um suporte de extintor da minha velha kombi. Cortei este e soldei-o naquele. Fiz uma garra longa e nenhuma romã escapou. Todas maduras, inclusivamente as bem pequenas. Ainda por lá ficaram muitas mais a aguardar-me para uma segunda apanha...

segunda-feira, novembro 14, 2016

Bolota



Em tempos de guerra e carestia a bolota substituía na alimentação o cereal que escasseava. Em tempos de bonança dava-se ao gado. Hoje em dia, mais que novidade resgatada do passado, a bolota é uma bomba de saúde.
Quando Alfredo Sendim, proprietário da Herdade do Freixo do Meio, em 1995 tomou consciência da quantidade de quercus que o seu montado tinha, e do eventual desperdício de alimento potencial que ficava no chão, resolveu dar-lhes bom uso:
“A bolota é um dos alimentos mais equilibrados para o ser humano que a natureza nos oferece”, diz-nos. “Já foi o nosso principal alimento, há seis séculos. Sendo extremamente equilibrada e promotora de saúde, a bolota de qualquer Quercus [carvalhos, sobreiros, azinheiras, freixos] tem um equilíbrio extraordinário entre proteína, hidratos de carbono e gordura. Esta ultima é idêntica ao azeite. Os seus hidratos de carbono não têm glúten e são de cadeia longa, o que promove um bom índice glicémico. É fortemente antioxidante, prébiotica e anti-inflamatória, através do ácido cloragénico.”
A Herdade do Freixo do Meio pediu a participação do Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto para ser estudado o efeito deste ácido, abundante na bolota, sobre as doenças neurológicas degenerativas. O ácido cloragénico tem um enorme efeito no combate aos radicais livres, o que torna a bolota, no mínimo, interessante do ponto de vista clínico e com potencial para futura aplicação em doenças como o Alzheimer.
Estas e outras conclusões foram apresentadas ao público no “Symposium: A Bolota, o futuro de um alimento com passado” que a Herdade efetuou em março passado. O objetivo deste foi divulgar o conhecimento e as práticas atuais em torno da valorização deste recurso essencial, pelo que foram apresentados resultados de uma investigação aplicada sobre as características nutricionais e funcionais da bolota, o potencial económico da fileira, os aspetos tecnológicos, bem como os aspetos histórico-sociológicos.
A bolota substitui diretamente a farinha de cereais, a batata e a amêndoa, por exemplo. Diz-nos o engenheiro Alfredo Sendim que neste symposium “foram saboreados pão, bolos, bolachas, pastéis de nata, bombons, filhoses, doçaria regional, sopa, croquetes, hambúrgueres, enchidos, pratos confecionados, café, licor, aguardente, cerveja, Gin, gelado, iogurte, …” todos realizados com a bolota como base de trabalho.
Perante tão longa lista de predicados perguntámos ao engenheiro que razões haveria para que a bolota não fosse já um produto de uso comum. Respondeu-nos, diplomaticamente “erro humano, desconhecimento”. As razões na realidade podem ser mais profundas: erro humano e desconhecimento serão certamente as razões que podemos apontar a uma geração mais jovem. Para todas as outras, será certamente a memória de tempos difíceis, quando a bolota era o último recurso. Jennifer Paterson, a morena das Two Fat Ladies, aponta a mesma razão para o facto de muitos ingleses de mais idade não gostarem de coelho. Quando se comia determinada coisa em tempos de pobreza, quando melhoramos a condição de vida a primeira coisa que fazemos é deixar de comer essa mesma coisa que nos traz lembranças da fome.
Alfredo Sendim defende mesmo a o uso da bolota como motor económico para a região, uma vez que “tem um potencial superior ao da cortiça”.
Se não estiver nos seus planos dar por agora um salto ao Alentejo, pode conhecer os derivados de bolota do Freixo do Meio, e toda a sua restante oferta biológica, na loja da Herdade no Mercado da Ribeira, em Lisboa
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JOÃO GALVÃO  --- in www.delas.pt