segunda-feira, fevereiro 24, 2020

quarta-feira, fevereiro 12, 2020

Cachola



Em dias de matança do porco, e para aproveitamento do sangue, é confeccionado um dos pratos mais típicos da gastronomia alentejana. Não há, ou melhor, não havia matança de porco sem que, ao almoço, em família e com os ajudantes na matança, se degustasse este tradicional prato.

INGREDIENTES
·                     Miudezas de porco (Fígado ou cachola, bofe ou pulmões, coração e rins);
·                     1 Redenho (gordura que envolve as tripas);
·                     1 Moleja;
·                     Sangue do porco acabado de matar;
·                     Vinagre de vinho;
·                     Dentes de alho;
·                     Pimenta em grão;
·                     Colorau;
·                     Cravinho moído;
·                     Cominhos;
·                     Louro;
·                     Laranjas;
·                     Sal;
·                     Pão de trigo alentejano.

PREPARAÇÃO
1-Num alguidar coloca-se uma boa quantidade de vinagre, alho esmagado e sal.
2-Aquando da matança do porco apara-se o sangue, mexendo sempre, com uma colher de para, para que, o sangue não coalhe.
3-Ao lume e num tacho grande, temos já água morna (á temperatura do sangue). Adiciona-se o sangue, alhos pisados, e os restantes temperos. Nunca parando de mexer.
4-Num outro tacho, já com o redenho derretido, juntam-se as miudezas cortadas aos bocadinhos e barradas com alho e sal. O mesmo se faz com a moleja.
5-Tempera-se um pouco mais com especiarias e deixa-se refogar. Retifica-se de sal.
6-Retira-se um pouco de caldo e adiciona-se ao sangue, sem nunca parar de mexer.
7-Depois de bem dissolvido, aos poucos, junta-se o sangue às miudezas e moleja. Mexendo sempre, para que o caldo possa engrossar e cozer. Também há quem coloque umas rodelas de laranja nesta fase, para melhorar o seu sabor.
8-Numa terrinha grande, fatia-se o pão, regasse com o caldo e serve-se com as miudezas à parte, ou em conjunto, se for a opção.
Acompanha com rodelas de laranja e um bom vinho tinto alentejano.


Queijos do Alentejo


quinta-feira, janeiro 30, 2020

Família


Alentejo




Alentej


AlentejoMonsaraz


AlentejoÉvora – Joe Price



AlentejoMonsaraz e o Alqueva


AlentejoMarvão – José Flacho

Alentejo

Castelo de Vide

domingo, dezembro 08, 2019

Lisboa


Fala português!


“Fala português!” Artigo académico mostra falta de preparação de universidades para estudantes brasileiros e timorenses
O trabalho inclui testemunhos de vários estudantes oriundos do Timor e do Brasil que se queixam de professores que criticam a linguagem que usam, as traduções que lêem e lhes pedem mesmo para começar a “falar português”.
Foto
Acolhimento aos estudantes estrangeiros em 2018 na Universidade do Porto
As universidades portuguesas não estão preparadas para o actual boom de alunos estrangeiros oriundos de outros países de língua oficial portuguesa como é o caso do Brasil e de Timor. O alerta é de Juliana Chatti Iorio, uma investigadora brasileira a viver em Portugal há 20 anos, e uma das autoras de um artigo recente sobre as falhas no acolhimento destes estudantes internacionais.
O trabalho, publicado na Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana, resulta de dois projectos de pesquisa e inclui testemunhos de vários estudantes oriundos do Timor e do Brasil. Ao todo, foram feitas mais de 50 entrevistas em profundidade e recolhidas 449 respostas de inquéritos. Em comum, há queixas sobre a falta de “apoio efectivo e afectivo na chegada ao país”, devido à falta de sensibilização dos professores para as dificuldades que os alunos enfrentam e casos em que professores se viram para alunos brasileiros e lhes pedem para “falar português”.
“Eu estava usando um termo da psicologia que é usado no Brasil e o professor disse ‘fala em português’. Eu disse que estava falando e ele disse ‘não, isso aí é brasileiro, fala português correcto'", é um dos exemplos dados por uma aluna de 24 anos que em 2014 escolheu Portugal como destino de intercâmbio.
 “Ainda há muito a ser feito, como uma maior atenção às dificuldades de brasileiros e timorenses com o português de Portugal”, lê-se nas conclusões do artigo académico que Juliana Chatti Iorio assina juntamente com Sílvia Garcia Nogueira (Universidade Estadual da Paraíba, Brasil).
Resultados não surpreenderam 
Em entrevista à agência Lusa, Juliana Chatti Iorio, que trabalha no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) e Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT) da Universidade de Lisboa, disse que não ficou surpreendida com os resultados. Nota, porém, que não tem queixas sobre o seu próprio acolhimento anos antes.
"Quando entrei para o mestrado, em 2003, havia cinco estrangeiros na minha sala. Era outra realidade. Hoje, há cursos em Portugal que têm mais estudantes estrangeiros do que portugueses, e eu penso que muitas faculdades ou institutos não estavam preparadas para isso”, disse. 
“Não me refiro só à logística, mas sobretudo à compreensão das diferentes culturas que pretendem receber. Se estão abertas para receberem estudantes de diferentes culturas, os professores, funcionários, enfim, a comunidade docente e discente tem que estar aberta para conhecer e procurar entender estas diferentes culturas”, defendeu.
Juliana Chatti Iorio admite que muita coisa tem sido feita para atrair os estudantes internacionais.“Algumas [universidades] já têm núcleos de estudantes internacionais (muitas vezes, núcleos de estudantes brasileiros, africanos, etc), os departamentos de relações internacionais começam a estar mais preparados para dar repostas, sobretudo as que tangem às burocracias exigidas aos estudantes que vêm de outros países”, reconheceu.
Mas a investigadora diz que falta trabalho ao nível das relações humanas. “Devido mesmo ao choque de culturas, acaba por ser um problema, uma vez que muitos funcionários e professores não conhecem a cultura desses alunos e muitos desses alunos também não conhecem a cultura em Portugal”, defendeu. 
"Portugal não dá o devido valor à língua"
No artigo lê-se ainda que “a não-aceitação da língua portuguesa falada e escrita por esses estudantes, bem como os casos de discriminação sofridos em sala de aula por parte de alguns professores, evidenciou que ainda muito trabalho deverá ser feito para desconstruir a representação de que o português é imune ao racismo e possui uma predisposição para o convívio com outros povos e culturas”.
A investigadora explica que, à chegada, os alunos brasileiros depararam-se com algumas dificuldades que não estavam à espera, nomeadamente ao nível da compreensão do português. “Muitas vezes, os próprios professores não aceitam a língua portuguesa falada e escrita no Brasil, discriminando mesmo o seu uso em sala de aula e não permitindo o uso de livros cuja tradução seja feita no Brasil”, disse.
Nesse sentido, prosseguiu, “a discriminação é notada quando um professor se vira para um aluno brasileiro e diz, por exemplo, ‘fala português!’". “Portugal não dá o devido valor à língua portuguesa a partir do momento em que permite o uso do inglês em sala de aula, que não luta pela afirmação da quinta língua mais falada no mundo e a partir do momento em que possui muito mais ferramentas em inglês para acolher os estudantes Erasmus do que para acolher os estudantes lusófonos”, considerou.
E, acrescentou, “ainda age como se fosse a “metrópole” a ditar as regras do uso da língua portuguesa às suas “colónias”, quando inferioriza a maneira como a língua portuguesa é utilizada pelos outros países lusófonos”.
Mas a investigadora diz que falta trabalho ao nível das relações humanas. “Devido mesmo ao choque de culturas, acaba por ser um problema, uma vez que muitos funcionários e professores não conhecem a cultura desses alunos e muitos desses alunos também não conhecem a cultura em Portugal”, defendeu. "Portugal não dá o devido valor à língua"
No artigo lê-se ainda que “a não-aceitação da língua portuguesa falada e escrita por esses estudantes, bem como os casos de discriminação sofridos em sala de aula por parte de alguns professores, evidenciou que ainda muito trabalho deverá ser feito para desconstruir a representação de que o português é imune ao racismo e possui uma predisposição para o convívio com outros povos e culturas”.
A investigadora explica que, à chegada, os alunos brasileiros depararam-se com algumas dificuldades que não estavam à espera, nomeadamente ao nível da compreensão do português. “Muitas vezes, os próprios professores não aceitam a língua portuguesa falada e escrita no Brasil, discriminando mesmo o seu uso em sala de aula e não permitindo o uso de livros cuja tradução seja feita no Brasil”, disse.
Nesse sentido, prosseguiu, “a discriminação é notada quando um professor se vira para um aluno brasileiro e diz, por exemplo, ‘fala português!’". “Portugal não dá o devido valor à língua portuguesa a partir do momento em que permite o uso do inglês em sala de aula, que não luta pela afirmação da quinta língua mais falada no mundo e a partir do momento em que possui muito mais ferramentas em inglês para acolher os estudantes Erasmus do que para acolher os estudantes lusófonos”, considerou.
E, acrescentou, “ainda age como se fosse a “metrópole” a ditar as regras do uso da língua portuguesa às suas “colónias”, quando inferioriza a maneira como a língua portuguesa é utilizada pelos outros países lusófonos”.


sábado, dezembro 07, 2019

Guerra Colonial


CAPITULO 4
A PONTE FICOU PARA TRÁS
▪ PIOR DO QUE A CENA DO BEN-HUR.
▪ PIOR, ANTÓNIO, MUITO PIOR!
A ponte com o nome do “herói” que nunca pôs os pés em África, ficou para trás e dela apenas se vê a silhueta.
Um último adeus para ninguém e para todos ao mesmo tempo foi acenado e agora, ao longe, apenas se avistam lenços que se agitam como se fossem asas brancas - a cor da paz - acenando a pontos em tom de verde - a cor da esperança - que vão ao encontro da cor negra - a cor da guerra! Para alguns, a cor da morte!

A silhueta da ponte também acabou por desaparecer. A noite chega ao alto mar e com ela vem o frio e a humidade e ao Niassa chega um misto de desconforto e tontura que se apodera da cabeça de António e, provavelmente, de todos camaradas a caminho do desassossego. Só então António se apercebe que esta é uma noite diferente. Diferente de todas as noites que até aí viveu na sua jovem vida! E só então se apercebe, que o chão não é tão firme como habitualmente e que a sua cabeça roda em corpo parado. Uma intensa e áspera brisa cola-se-lhe à face, sacudindo-o do estado de hipnose que até ali estaria mergulhado. Realmente, esta é uma noite diferente e diferentes serão as noites seguintes da sua vida!
Para António e camaradas graduados, o jantar chegou e é servido no salão-restaurante do velho Niassa. Jantar bem confeccionado, a fazer jus à fama dos cozinheiros da marinha.
De início, o Niassa foi construído para transporte de mercadorias. Com o incremento dos negócios na África Portuguesa verificado nas décadas de 40 e 50, foi adaptado para levar cerca de 300 civis comodamente instalados, sendo classificado depois, como barco-misto – carga e passageiros. O regime fascista de Salazar, cuidando dos seus amigos, mandou fazer essa adaptação, de modo a dar boas condições de viagem aos seus homens de negócio. E fez muito bem, pois deve-se cuidar dos amigos. Mas quando a guerra rebentou na década de 60, nunca o Niassa foi preparado para transportar tropas. Nunca preparado para transportar 500, mil ou 2 mil jovens a caminho da guerra. Nem o Niassa, nem outras velhas carcaças que transportavam gente como se fosse gado.
Nas instalações preparadas para os civis, viajam agora os oficiais, os sargentos e a tripulação graduada da marinha, e não sendo tão luxuosas com as de um barco-de-amor, são instalações que permitem uma viagem confortável.
Depois de ver as suas cómodas instalações, António interrogava-se, “como será o refeitório dos soldados? Tão péssimo como os porões onde vão dormir?”
- Pior, António, muito pior! - diz Augusto, já perto das 10 da noite, quando se encontram novamente.
- O refeitório é lá à frente na proa e parece um barco a balouçar!
- Mas é um barco a balouçar! - replica António.
- Sim, é um barco a balouçar, mas parece no meio de tempestade! Foda-se, não conseguimos comer, porque não seguramos o prato e a boca foge-nos. Parecemos baratas tontas com a colher na mão à procura da boca. A boca foge da colher. Não há garfos, só colheres e ainda bem que não há facas. Peguei em dois moletes, abriu-os com a mão e meti dois bocados do que parece ser carne mastigada e saí agarrado aos outros camaradas, tão estonteados quanto eu. Foda-se, é pior que a cena do Ben-Hur, lembras-te do Ben-Hur? Do filme que vimos há tempos? Só nos falta remar com chicote nas costas como no Bem-Hur. Se não for obrigado, não volto ao refeitório. Fico completamente tonto e agoniado! Prefiro comer sandes aqui fora! Diz o meu pai, que o governo se sacrifica pelo povo. Queria vê-los aqui, feito baratas tontas de colher na mão à procura da boca. Sacrificam-se um caralho! Vêm para a televisão com a treta da “conversa em família” e é assim que nos fodem!
- Então, não comeste nada?
- Comi apenas uma sande de carne mastigada, mas não tenho fome. Estou agoniado e só preciso apanhar um pouco de ar, mas aqui na coberta está muito frio. Fui de novo ao beliche onde vou dormir. Quase desmaiei a descer aquela enorme escadaria até chegar ao porão. O calor e o cheiro são insuportáveis. Acho que não vou conseguir pregar olho até chegar a Bissau.
*
Facilmente se compreende, que instalar beliches no porão de carga e colocar o refeitório na proa, não são os melhores sítios de um barco, nem para dormir, nem para comer, antes pelo contrário. Na verdade, são os piores. Mas que importa aos políticos de um regime, que apenas se preocupa com os seus amigos?
Tinha pois, razão de ser, a indignação do camarada Augusto.
- Diz o meu pai – repetia Augusto – que os tipos do governo são pessoas de bem, pessoas decentes que olham pelo povo e que fazem o melhor que podem! Fazem… um caralho! Gostava de os ver aqui nesta pocilga, esses “heróis“ que nunca puseram os pés em África e se estão nas tintas para quem vai defender a Pátria. Na vinda, se não viermos num caixão, mandam-nos vir a nado! E as tuas? Como são as vossas instalações?
- As nossas são aceitáveis. São ali na parte central, nos camarotes.
- Pois! És um sortalhão. Eu não quis estudar e agora fodo-me! Sorte do caralho!
- Deixa, não te apoquentes. São apenas cinco ou seis dias de viagem. Sorte, mesmo sorte, é regressarmos sãos e salvos, isso é que é sorte. O resto é passageiro e não tem tanta importância. São apenas cinco dias da viagem!
                  
Angelino dos Santos Silva
in, GERAÇÃO DE 70 / Época das Chuvas
Romance sobre a Guerra Colonial Portuguesa em África
Capítulo 4 de 34
angelinosantossilva@gmail.com