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domingo, setembro 25, 2011

Cesária Évora

Há uns anos atrás, quando ainda Timor Leste se tentava livrar dos tentáculos da Indonésia, Ramos Horta passou pelo Brasil na sua incansável caminhada pelo Mundo e, sinceramente, não sei se pela primeira vez. A situação estava efervescente, pois isso tudo se passava após o massacre de Santa Cruz.
Sorrateiramente eu sempre andei envolvido em algo que de alguma forma pudesse ajudar o sacrificado povo timorense. Sempre fiz uma grande propaganda de Timor, explicava a muitos o que foi, o que era e o que aspirava a ser aquele Território. Por incrível que pareça, muita gente culta jamais tinha ouvido falar...
Nessas andanças de Ramos Horta, ele passou aqui por Campinas, mas eu não tive oportunidade de conversar com ele ou, pelo menos, de vê-lo. Mas tentei envolver-me mais e contactei algumas Organizações. Fiz alguns comentários em matérias publicadas na Imprensa e abordei certas passagens de que me lembrava de quando estive cumprindo comissão militar em Díli.
Por tudo isso, pela minha exposição no momento, surgiu um convite da Rádio Transamérica de São Paulo para que eu desse uma entrevista. Claro que de imediato recusei, pois a timidez sempre foi o meu fraco e eu sei que me iria engasgar ou entrar num buraco negro a qualquer momento. Além disso, acho que não seria a pessoa indicada para falar daquele Timor do momento.
Nessa mesma altura recebi um telefonema do então Director da Tv Cultura de São Paulo que me fez algumas perguntas sobre a situação em Timor e, lá pelas tantas, inquiriu-me sobre alguns dados pessoais como, por exemplo, a minha origem portuguesa. Citei-lhe Estremoz, a minha cidade natal e Évora onde mais vivi e estudei.
Não percebi a confusão que ele engendrou naquele momento ao confundir Évora com Cesária Évora e sobre esta tecer alguns comentários, pois a nobra caboverdiana não estava na pauta em discussão e um director de um Canal cultural jamais poderia cometer uma gafe dessas...
Após tudo o que escrevi até aqui nesta crónica só um detalhe assinalado na mesma me trouxe aqui. Exactamente a diva Cesária Évora.
Sim! desta vez é ela o personagem central da peça e vim até ao seu nome passando por Timor e São Paulo porque o seu nome foi citado naquelas situações e até se sobrepôs ao da cidade que é Património Mundial da Humanidade.
Cesária Évora também é Património Mundial para todos aqueles que ouviram as suas maravilhosas interpretações no titmo de mornas e coladeras.
Surgiu na Imprensa que Cesária Évora sofreu um acidente cerebral vascular nestes dias e isso me deixou estupefacto e muito aborrecido. Possìvelmente ela não voltará a cantar, mas teremos sempre o prazer de escutar as suas gravações, ver os seus clips e passar tudo isso e muito mais sobre ela às gerações futuras.

domingo, junho 22, 2008

Cangurus traidores

A Australian Security Intelligence Organization (ASIO, serviços secretos) desclassificou ontem centenas de documentos referentes ao actual Presidente de Timor-Leste, José Ramos-Horta. Mas ainda conserva por desvendar cinco dossiers que tem sobre ele.
Naquilo que o jornal The Canberra Times considerou "um passo em falso diplomático", a ASIO e o ministério australiano dos Negócios Estrangeiros nem sequer teriam consultado ou avisado o chefe de Estado de que iam trazer a público todo o seu passado, desde que, em Outubro de 1974, o começaram a espiar. Foi quando se tornou claro que era o principal representante internacional da causa nacionalista timorense.
A divulgação de ficheiros secretos sobre um Presidente em exercício num país vizinho é algo "sem precedentes", comentou Clinton Fernandes, professor da Universidade da Nova Gales do Sul." Primeiro a Austrália espia a vida de Ramos-Horta, depois Camberra trai Timor para benefício dos militares indonésios e, três décadas depois, divulga os documentos sem sequer se dar ao trabalho de um telefonema para lhe dizer", referiu.
O material vindo a lume revela que, em Maio de 1975, a ASIO contou à sua congénere indonésia BAKIN os contactos que Ramos-Horta tivera com a Comissão Australiana para um Timor-Leste Independente e com o Partido Comunista da Austrália. Sabe-se que o primeiro-ministro australiano do período 1972-1975, o trabalhista Gough Whitlam, achava que Timor-Leste "era demasiado pequeno e economicamente inviável para se tornar independente". Whitlam "lamentará um dia a negociata que fez com Suharto" (o ditador indonésio), para que Jacarta ocupasse Timor-Leste, teria escrito em dada altura Ramos-Horta, segundo uma carta sua incluída nas mais de 550 páginas agora desclassificadas.

sexta-feira, junho 20, 2008

Dilema

A candidatura de José Ramos-Horta a um cargo das Nações Unidas encerra oportunidades e riscos tanto para o chefe de Estado como para Timor-Leste, segundo opiniões recolhidas pela agência Lusa em Díli.
Familiares de José Ramos-Horta, políticos timorenses e algumas figuras internacionais têm dado o seu conselho ao chefe de Estado sobre candidatar-se ou não a Alto Comissário das Nações Unidas para os DireitosHumanos (ACNUDH). Para o próprio Presidente, a decisão está a ser "um grande dilema", conforme José Ramos-Horta confessou esta semana aos jornalistas.
No círculo familiar e de amigos, os testemunhos recolhidos pela Lusa apontam para uma opinião favorável à ida de José Ramos-Horta para Genebra, sede doACNUDH. "Está na altura de o Presidente pensar um bocadinho nele, sobretudo depois do que se passou em Fevereiro", resumiu uma fonte próxima do chefe deEstado. A 11 de Fevereiro, José Ramos-Horta foi atingido com três tiros num ataque àsua residência em Díli e ficou dois meses convalescendo em Darwin (Austrália), antes de regressar a Timor-Leste a 17 de Abril para reassumir funções.
Um dos homens ouvidos por José Ramos-Horta foi o brigadeiro-general TaurMatan Ruak, chefe de Estado-Maior-general das Falintil-Forças de Defesa deTimor-Leste (F-FDTL). "A qualquer timorense, primeiro é Timor e depois o mundo. Mas a decisão é dosenhor Presidente", resumiu o comandante timorense numa entrevista recente à Lusa. "Ele não é um homem apenas de Timor, é sobretudo um homem com estatuto internacional. Ele sabe-o bem", explicou Taur Matan Ruak, sem desvendar o conselho que deu ao chefe de Estado. "Para nós, os timorenses, estamos com ele qualquer que seja a decisão", acrescentou, fazendo eco de uma posição ouvida pela Lusa de outros líderes timorenses.
José Ramos-Horta está consciente dos desafios e riscos de "um cargo muito difícil e ingrato", se decidir candidatar-se e se for escolhido, segundo admitiu à imprensa. O chefe de Estado timorense pensa, também, que tem o perfil exacto para o cargo, ao referir que "o ACNUDH não deve ser ocupado por alguém que seja apenas jurista. Deve ser para alguém com experiência política e diplomática".
Segundo os comentários recolhidos pela Lusa, a opinião prevalecente entre os pares políticos de José Ramos-Horta é que a saída do chefe de Estado deixa Timor-Leste numa situação de fragilidade institucional. O próprio Presidente explicou que a sua escolha seria mais fácil "se o país estivesse cem por cento estável e (o Presidente da República) não fizesse tanta falta". "Não é claro que a comunidade internacional entenda a saída de Ramos-Horta nesta altura, quase no início do mandato e retirando, com isso, um factor essencial de estabilidade política", afirmou à Lusa um responsável internacional há mais de duas décadas envolvido com o processo timorense. "Também não vejo que o cargo em Genebra seja o que melhor serve as ambições para mais altos voos, que o Presidente continua a ter", acrescentou a mesma fonte, referindo-se a uma eventual candidatura de Ramos-Horta a secretário-geral da ONU, em 2012. "O que melhor serve esse sonho é um desempenho eficaz como chefe de Estado, concluindo a transição da crise de 2006", declarou."Genebra, ao ser um cargo de intercepção de grandes divergências internacionais, por exemplo entre os EUA, a Europa e a China, pode tornar-sea muito curto prazo uma armadilha para Ramos-Horta", comentou ainda a mesmafonte, que conhece o Nobel da Paz timorense desde os anos 1990.
Um elemento das Nações Unidas em Díli, familiarizado com o ACNUDH e com oprocesso de selecção, analisa a escolha do sucessor de Louise Arbour como "uma decisão apenas política dos Estados". "Tudo está nas mãos dos Estados que propõem os candidatos e naquilo que pensam conseguir", explicou a mesma fonte. Este responsável da ONU desvaloriza, por isso, o eventual impacto negativo, na candidatura a Genebra, de um decreto presidencial que colocou em liberdade vários condenados por crimes contra a humanidade. "Infelizmente para o mandato do ACNUDH, as pessoas que poderiam incomodar-se com este perdão presidencial não são aquelas que influenciarão, no fim do dia, a escolha em Nova Iorque", declarou ainda a fonte da ONU.
José Ramos-Horta referiu que o seu nome tem o apoio de "muitos países, grandes e pequenos", citando apenas a Austrália, "porque isso já veio na imprensa" mas referindo capitais como Washington.
Fontes das Nações Unidas confirmaram à Lusa que o nome de José Ramos-Horta foi avançado em primeiro lugar pelos Estados Unidos. A insistência de Washington e Camberra na candidatura de Ramos-Horta levanta, aliás, suspeitas entre alguns dos colaboradores do Presidente. "Talvez o queiram em Genebra como forma de se ver livres dele em Díli", resumiu um assessor do chefe de Estado, sugerindo que José Ramos-Horta é visto como um obstáculo aos interesses americanos e australianos em Timor-Leste.
Mesmo que José Ramos-Horta aceite candidatar-se ao ACNUDH, após uma conversa telefónica com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, existe apossibilidade "forte" de não vir a ser escolhido, notam fontes internacionais em Díli. "Isso seria a pior situação de todas para José Ramos-Horta. Um chefe de Estado não pode correr para perder", concluiu um seu amigo estrangeiro que conhece bem a realidade timorense.

sábado, abril 12, 2008

E TIMOR NÃO ACORDA

Já aqui escrevi algumas vezes a respeito das dúvidas que sustento sobre a real capacidade e interesses das lideranças timorenses. Não gosto de ser repetitivo quanto ao tema, mas há momentos em que sou forçado a bater na mesma tecla.
Ramos Horta nunca me transmitiu confiança em termos de capacidade para ocupar o cargo de Presidente da república timorense. Mesmo que no cargo desempenhe as funções qual rainha da Inglaterra, é sabido que tem poderes decisórios ao abrigo da Constituição. É um homem "fraco" para agir com decisões fortes. É um homem bom mas um dirigente fraco.
Xanana Gusmão é mais perspicaz e não tão ingénuo, ou nada ingénuo. Não confio nele quanto à salvaguarda dos naturais interesses de Timor Leste, ou mesmo na luta por eles. Vejo-o muito abrigado na sombra dos cangurús...
Nada de corridas às armas porque isso só leva o povo timorense a mais e enormes sofrimentos. Mas esse Povo, através de representantes e lideranças outras, tem que começar a movimentar-se nesse atoleiro em que se encontra para alcançar chão firme onde possa caminhar tomando o rumo das urnas em próximas eleições gerais, de preferência antecipadas. Resguardado pelas forças internacionais (não hipócritas), terá que iniciar um ciclo de mais acentuada e madura politização e de discussão dos problemas e ocorrências que amiúde ressaltam.
Uma das maiores empreitadas é fazer todo o possível e o impossível para escancarar as cortinas desse teatro que encenou os atentados aos altos dignatários dos timorenses. Se Ramos Horta agora aventa insinuações sobre a participação de milícias indonésias nos atentados e ilibe o governo daquele país, é de crer, in loco, que tem bases concretas que o fundamentam. Se assim colocadas as coisas e se isso tem alguma veracidade, acredita-se que a própria Indonésia estaria interessada em participar no aclareamento das dúvidas. Se, como diz Ramos Horta agora, os rebeldes Alfredo Reinaldo e Gastão Salsinha tinham apoio dos militares indonésios e fornecimento de material bélico por parte dos mesmos, sendo que esses militares agiam à revelia da instituição, não oficialmente portanto, é imperetrível uma reunião de alto nível dos governantes dos dois países.
As facilidades e protecção que a Austrália sempre ofereceu aos rebeldes, leva-nos a pensar que as autoridades deste país tinham conhecimento dos fornecimentos de material bélico e da sua proveniência. Haveria, então, um conluio entre as duas grandes potências vizinhas?! Repetem-se gestos de amizade e entendimento anteriores quando da ocupação? É difícil acreditar que o governo indonésio desconhecia a movimentação de alguns dos seus militares e das milícias, bem como de alguns cidadãos civis importantes, como, também, a "ignorância" da Austrália sobre a situação.
Recorro ao título de crónica anterior como frase final desta: Acorda Timor!

terça-feira, abril 08, 2008

CADEIRA FRIA

Em Darwin (Austrália), onde ainda permanece em convalescença, Ramos Horta indicou que o presidente interino conseguiu passar por um "teste crucial" e que só quando regressar a Timor, ao local onde foi alvejado, perceberá se está completamente recuperado e preparado para continuar o mandato para o qual foi eleito em 2007.
Na minha modesta opinião, acho que a decisão de renunciar ao cargo já está prematuramente tomada, bastando tão sómente "florear" o ambiente. Mais tarde ou mais cêdo virá a ocupar um outro cargo, quiçá de relações exteriores que parece ser o que mais talhado está. Os muitos anos em que palmilhou por esse Mundo deram-lhe muita experiência e conhecimentos e aliando isso ao que viveu na sua terra nos últimos tempos, nada mais a propósito.

segunda-feira, março 17, 2008

AO DESTINATÁRIO COM CARINHO

De Cavaco Silva para Ramos Horta

"Espero que, em breve, possa regressar a Timor e reassumir a chefia do Estado", escreve o Presidente português na carta dirigida ao seu homólogo timorense e que foi acompanhada por uma garrafa de vinho do Porto de 1949, ano do nascimento de José Ramos-Horta, e pastéis de Belém."Envio-lhe, caro amigo, um contributo para reforço do seu ânimo e prazer do paladar: um Porto de 1949 (ano da sua graça) e pastéis de Belém", adianta ainda Cavaco Silva.
Um vôo de Lisboa a Darwin, com as escalas que forçosamente terá que fazer, não se completará em menos de 20 horas. Acreditando que tenha sido um vôo comercial e presumindo ter havido baldeações, enfim, deve ter demorado ainda mais.
O vinho do Porto com 59 anos de idade, certamente que se trata de um “vintage” e, por isso, poderá manter a sua qualidade inalterada por muito mais tempo. Quanto aos pasteis de Belém...
Em 1968, contava eu seis meses de permanência em Timor, numa das terças-feiras em que recebíamos correspondência através do Serviço Postal Militar (SPM 0036 era o meu endereço...), chegou uma encomenda entre algumas cartas. O conteúdo das cartas já me causava ansiedade e curiosidade; uma encomenda, então, nem se fala. Aquela era remetida pela minha única tia que me considerou sempre como o filho que nunca teve e eu, recìprocamente, a considerava como minha segunda mãe.
A maioria dos meus camaradas abria a correspondência ali mesmo, no SPM de Taibesse. Via as suas expressões de alegria ou tristeza à medida que liam as cartas e acompanhava a troca de idéias entre uns e outros durante o tempo em que esperava a minha vez. Eu levava tudo para abrir em casa, pois morava a cem metros dali, no Bairro dos Sargentos.
Sem sombra de dúvidas que a primeira coisa a ser aberta foi a encomenda. O papel primeiro e depois aquela pequena caixa de papelão. Lembro-me como se fosse hoje que fiquei olhando, incrédulo, para aquele bife empanado...
Por incrível que pareça, não estava putrefacto! Não tinha qualquer cheiro desagradável e até parecia fresco. Claro que o joguei no lixo. Porém, não tive a “obrigação” de explicar aos meus camaradas o motivo da sequência das minhas expressões: ansiedade, perplexidade, acabrunhamento, desânimo, compreensão...

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

TIMOR E OUTRAS VERGONHAS DO IMPÉRIO

Detesto o “politicamente correcto” dos tempos correntes: tem um cheiro a bafio, a corrupção moral e material, a União Nacional do Estado Novo. Timor e todo o processo por que passou desde a revolução de 25 de Abril de 1974 até à sua constituição como Estado independente, em 20 de Maio de 2002, e daí até à actualidade, constitui em Portugal um caso típico da prática dessa subserviente atitude mental do “politicamente correcto”, por parte de sucessivos governos, de todas as formações políticas e, mais grave ainda, pela quase generalidade da comunicação social que, na sua função de formadora de opinião pública, induziu até muitos portugueses - em alguns casos por falta de melhor informação e noutros por manifesto oportunismo político - a vestir-se de branco, sair à rua, acender velas e dar as mãos em intermináveis cordões humanos para derramar lágrimas de crocodilo por uma terra que uma grande parte, porventura, nem saberá bem onde fica.
É evidente que estão bem patentes na nossa lembrança acontecimentos dramáticos como o massacre de Santa Cruz e, posteriormente, a acção de destruição, de política de terra queimada, levada a cabo pelas forças indonésias e, sob a sua protecção, pelas milícias timorenses e, por isso mesmo, poder-se-á afirmar que, em sintonia com todo o mundo civilizado, aí sim, a totalidade da nação portuguesa, incluindo eu próprio, cidadão anónimo e contribuinte fiscal que nada deve ao Estado, não podia deixar de se indignar perante a barbárie dos acontecimentos. Lá como cá, sempre o povo sofredor!
Quando se pretende ser formador de opinião, mandam a ética e a deontologia profissional que se faculte toda a informação disponível sobre o assunto, sob pena de se incorrer na ignóbil atitude de manipulação, tão característica e criticada no regime de Salazar e agora frequentemente aplicada pela “ditadura de partidos” que nos governa e pela comunicação social que temos, a qual, sistemática e deliberadamente, confunde opinião publicada com opinião pública e que, tal como frequentemente faz em relação a outras matérias, tem vindo a arrogar-se o direito de falar sobre a questão de Timor em nome de “todos os portugueses”, como se milhões de portugueses, anónimos como eu, alguma vez lhe tivessem passado poderes de representação em matéria de opinião ou fossem um bando de imbecis incapazes de opinião própria, ao mesmo tempo que omitiu parte da informação, porque era “politicamente incorrecto” dá-la a conhecer. Vem isto a propósito do “Relatório da Comissão de Análise e Esclarecimento do Processo de Descolonização de Timor”, um documento produzido por aquela Comissão, nomeada pelo Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas em 27 de Julho de 1976, e entregue ao Presidente da República e Chefe do Estado- Maior General das Forças Armadas, Senhor General Ramalho Eanes, em 1 de Fevereiro de 1977. Posteriormente, em 1981, esse documento foi mandado imprimir, em forma de livro, com 303 páginas, pela Presidência do Conselho de Ministros, sem qualquer classificação de segurança que impedisse a sua consulta, como se pode ver da capa respectiva aqui incluída, mas nunca nenhum órgão de comunicação fez qualquer referência pública ao seu conteúdo. Nele reside, todavia, toda a informação indispensável à formação de opinião do povo português sobre a descolonização de Timor, muita da qual, desde 1975, tem vindo a ser sistematicamente branqueada.
A título de rápido enquadramento dos vergonhosos méritos da colonização portuguesa e embora sabido, recorde-se aqui que os portugueses aportaram a Timor por volta de 1514 e por lá ficaram até que, em 1975, da forma mais desastrada, como se pode ler no Relatório, a Administração Portuguesa local literalmente fugiu do território, abandonando nos paióis grande quantidade de armas e munições - de que a Fretilin, o partido dessa sinistra figura política chamada Ramos Horta (a quem, como homem, daqui desejo as rápidas melhoras), não tardou a apoderar-se e a utilizar numa guerra fratricida que se cifrou em dezenas de milhares de mortos - e, mais grave ainda, abandonando no terreno militares portugueses que viriam a ser feitos prisioneiros pela Indonésia, como se, quando o barco se afunda, a regra não fosse que o comandante deve ser o último a abandoná-lo.
Nesses 461 anos de presença portuguesa, a população nativa foi mantida no mais profundo “obscurantismo”, simbolicamente transportado pelos timorenses para a sua actual bandeira nacional através do triângulo de cor negra que a integra, em paralelo com o triângulo amarelo que, alegadamente, pretende representar “o rasto do colonialismo português”. Estas são as quase únicas marcas históricas da presença portuguesa porque e, mais não digo, de acordo com os números oficiais, Portugal conseguiu, ao longo de quase cinco séculos, ensinar a língua portuguesa a apenas 5% da população, deixando uma marca cultural sensivelmente igual a zero. Quer se queira quer não, segundo insuspeitos observadores internacionais, a Indonésia, que não tinha qualquer reivindicação territorial sobre Timor-Leste – apenas informou Portugal que, após o golpe anticomunista de 1965 no seu próprio país, não toleraria a instalação de um regime comunista em Timor-Leste, nem a criação de um pólo de instabilidade na área - fez mais pela educação do povo de Timor-Leste em 25 anos que Portugal em cinco séculos. Embora irrelevante, deixo bem claro que não sou pró nem contra a Indonésia e que, como português, assumo apenas, profundamente envergonhado, a minha parcela de responsabilidade por essa miserável falta de legado histórico.
Todavia, o tempo não anda para trás. Todas as colonizações, a portuguesa e as outras, foram feitas ao sabor das respectivas épocas, foram as possíveis e não as desejáveis. Os líderes nativos timorenses disso devem ter tido profunda consciência, porque por várias vezes se revoltaram contra Portugal e, no pós-25 de Abril, uns tentaram a integração de Timor-Leste na Indonésia, outros declararam unilateralmente a independência do território, todos atentando contra a soberania portuguesa, como consta do referido Relatório.
Efectivamente, a UDT (União Democrática Timorense) liderada pelos Srs. Lopes da Cruz e João Carrascalão, a APODETI (Associação Popular Democrática de Timor), O KOTA (Klibur Oan Timur Aswain) e o Partido Trabalhista, constituindo o sector politicamente mais conservador de Timor, pediram (pág. 253), em 7 de Setembro de 1975 e em nome do povo que lhes não conferira mandato (“Nós, o povo de Timor Oriental…”) a integração na Indonésia, por documento com 31 artigos, que termina com “Viva a República Indonésia”e “Viva a 27ª Província Indonésia” (leia-se, Timor-Leste).
Mas, pior ainda é a atitude mental destes líderes de Timor-Leste, muito reveladora do que o povo timorense deles pode esperar no futuro, alguns deles actualmente altos dignitários daquela nova nação que, como refere o Relatório, após terem solicitado a integração de Timor-Leste na Indonésia, no documento de “Proclamação da Integração” de 30 de Novembro de 1975 (pág. 269) justificam-se nos termos seguintes, “... Admitindo que, por via da acção colonialista de Portugal e da Holanda (para quem Portugal perdeu a metade ocidental da mesma ilha) a qual, ao longo de quase 500 anos separou profundamente os laços de sangue, afinidade étnica, moral e cultural com o povo indonésio da ilha de Timor”; “...Em nome do Todo Poderoso, pelos motivos atrás apontados, proclamamos solenemente a Integração de todo o território da antiga colónia portuguesa de Timor na Nação Indonésia, em virtude de isto constituir a expressão mais elevada dos sentimentos”. Desavergonhadamente, não se coibiram sequer de terminar o referido “Pedido de Integração”, escrevendo, em nome do Povo (!), no respectivo artigo 31º (o último), a seguinte barbaridade: “...O Povo de Timor Oriental solicita ao Governo da República da Indonésia que todos aqueles que se distinguiram pela preservação do ideal timorense oriental em reencontrar os seus irmãos da parte ocidental de Timor sejam publicamente agraciados”. Isto é, reservem-nos lá uns “tachos” no pós-integração!
Semelhante, na sua gravidade, a este pedido de integração, recorde-se aqui também a declaração unilateral de independência de Timor-Leste feita um pouco antes pela Fretilin de Ramos Horta. Sobre ela, eu diria apenas que, em 11 de Novembro de 1965, o Sr. Ian Smith, da então Rodésia, declarou em Salisbury a independência unilateral daquele território colonial inglês. As autoridades do Reino Unido retiraram ao Sr. Ian Smith a qualidade de cidadão inglês e, penso que até à sua morte, em 20 Novembro de 2007, sobre ele impendeu um mandado de captura nas fronteiras do Reino Unido, por traição à pátria inglesa.
Como se a asneira não bastasse, lê-se no Relatório que “…foram repatriados para Portugal (a expensas do governo português, pasme-se!...) alguns refugiados de Timor que se encontravam na Indonésia, alguns dos quais com graves responsabilidades contra a Administração Portuguesa”, isto é, traidores da soberania portuguesa.
Do lado português, é preciso que seja dito que a Comissão autora do Relatório nele incluiu também uma proposta de sanções do foro exclusivamente militar contra vários dos mais destacados elementos do Exército Português em Timor, a qual “…o Governo deliberou não divulgar…”, apesar de recomendação em contrário da própria Comissão e também de um parecer oficial do Senhor General Carlos de Azeredo, este transcrito até para o seu livro “Trabalhos e Dias de um Soldado do Império” (págs. 483 a 493): “… Em face da gravidade dos acontecimentos de Timor… sou de parecer que a manutenção da confidencialidade de um assunto que transcende o próprio âmbito militar, reverte em inaceitável prejuízo para o prestígio das FORÇAS ARMADAS PORTUGUESAS, que não podem ser confundidas com alguns dos seus membros, cuja responsabilidade urge definir em conformidade com as Leis e através dos Tribunais”, depois de ter também feito notar que “… no que se refere às Propostas do Relatório, falta aludir ao apuramento das responsabilidades de muitas entidades…”.
Nunca ninguém veio dizer claramente aos portugueses qual foi a intervenção de Portugal no processo de descolonização que se seguiu ao 25 de Abril. Ainda que tardiamente, porém, e como consta do Relatório, é necessário que os portugueses saibam que, em relação a Timor, ainda que tendo defendido o direito do povo timorense à autodeterminação, Portugal recomendou também, expressa e reiteradamente, em sucessivos contactos bilaterais, que a Indonésia anexasse Timor-Leste, sugerindo mesmo formas de se atingir esse objectivo. Por exemplo, sugerindo que “...a Indonésia melhorasse a sua imagem junto das populações de Timor e que fornecesse apoio económico, o que ajudaria a uma possível escolha, o povo de Timor, a seu favor”; que “...Portugal nada fará para dificultar a integração de Timor na Indonésia...” e que “...Portugal nada fará para que uma das opções seja a ligação a Portugal”. Esta é uma das páginas mais negras deste processo de descolonização que, a todo o custo, se tem tentado branquear.
Para quê as lágrimas de crocodilo? Muito pragmaticamente e segundo a imprensa da época, veio secá-las o Senhor Dr. Jorge Sampaio, quando, na sua visita à Austrália, depois de, como Presidente da República Portuguesa, ter assistido às cerimónias da independência de Timor-Leste, declarou à SBS australiana que “Portugal não tem quaisquer interesses económicos ou estratégicos em Timor Leste”, tendo-se empenhado na luta pela independência por “razões emocionais...”.
Razões emocionais são sempre maus fundamentos para a política externa ou interna de qualquer país e a portuguesa dos tempos recentes tem, com demasiada frequência, sido guiada por emoções e paixões de uns senhores que nos governam, mas cuja noção de Estado deixa muito a desejar e por uma comunicação social que, salvo raras e honrosas excepções, pratica um jornalismo de “causas”, ao sabor dos interesses dos seus mentores e mandantes. Convenhamos, os timorenses, ou antes, os líderes de Timor-Leste, tiverem finalmente, nos últimos anos, a independência que tanto desejavam para o “seu” querido povo. Do meu ponto de vista de cidadão anónimo, com direito à minha opinião, não existe dívida histórica para com Timor. E, publicamente, manifesto a minha indignação por afirmações como aquela feita pelo então Primeiro-Ministro, Sr. Eng. António Guterres, que, em resposta a um jornalista, afirmou oportunamente em directo na televisão que “…para Timor não há limitação orçamental”. Ele e os seus antecessores e sucessores, esqueceram-se que, ao serem eleitos democraticamente, assumiram, como primeira responsabilidade, garantir a segurança e o bem estar de todos os portugueses e que existe, sim, dívida histórica da nação portuguesa para com os milhares de civis (homens, mulheres e muitas inocentes crianças) barbaramente chacinados pelos terroristas angolanos em 15 de Março de 1961 e para com os seus familiares; existe dívida histórica para com o milhão de refugiados das ex-colónias, espoliados de todos os seus bens sem qualquer contrapartida e rotulados depreciativamente de “retornados” e, por vezes, marginalizados até pela sociedade portuguesa de forma não muito diversa daquela como se marginalizam actualmente os imigrantes; existe dívida histórica para com os combatentes das Forças Armadas, os seus órfãos, as suas viúvas; existe dívida histórica para com significativos sectores da sociedade portuguesa, normalmente de avançada idade, que ajudaram a desenvolver Portugal, mas que, no início deste século XXI, vivem no limiar da miséria, não dispondo alguns deles sequer de energia eléctrica que lhes dê algum conforto, qualidade de vida e acesso à informação; existe dívida sistemática da nação para com os deficientes, os das Forças Armadas e todos os outros, tantas vezes abandonados a si próprios, e para com tantos outros portugueses.
Sempre por limitação orçamental. Todavia, entre outras enormidades e apenas a título de exemplo, existiu cabimento orçamental para a aparente máfia do futebol - li em alguma imprensa, a propósito do Euro 2004, que, entre estádios e as acessibilidades respectivas, o Estado Português gastou, em moeda antiga, cerca de 200 milhões de contos - e para que o Estado Português perdoe significativas dívidas externas de países ex-colónias portuguesas dirigidos por uma classe política que, à custa do seu querido povo, acumulou ilegitimamente fabulosas fortunas pessoais, ao mesmo tempo que iniciativas de inúmeras entidades em Portugal tentam captar donativos para crianças e adultos que por lá morrem de doença e até de fome. As sociedades verdadeiramente democráticas vivem com a verdade, por mais incómoda que ela possa ser. As que se dizem democráticas, como a portuguesa, vivem do “politicamente correcto”, um comportamento atávico, tipicamente nacional, que leva a que, como eu próprio tenho testemunhado ao longo de décadas de Estado Novo e, posteriormente, durante a 3ª República, se constituam frequentemente “comissões de inquérito” para esclarecer situações que, pela sua gravidade, interessam à totalidade da Nação, mas cujas conclusões à Nação nunca são facultadas. Como, aliás, foi o caso deste Relatório da Descolonização de Timor, de que sou co-autor. Por isso mesmo, eu, cidadão anónimo, convido daqui o Sua Excelência o Senhor Primeiro-Ministro, que tanta coragem tem revelado em afrontar interesses instalados e a forçar reformas impopulares nunca antes tentadas, a promover a publicação e colocação nas montras das livrarias da VERSÃO INTEGRAL do “Relatório da Comissão de Análise e Esclarecimento do Processo de Descolonização de Timor”, para finalmente esclarecer a Nação sobre essa importante matéria. Mercê do processo corrente de branqueamento da história, neste Portugal de brandos costumes que parece desconhecer a sua própria dignidade nacional, os traidores da Pátria Portuguesa viraram todos heróis. No entanto, dos milhares de militares que, nos três teatros de operações ultramarinos, morreram ao serviço da Pátria, muitos nunca foram devolvidos às suas famílias e por lá se encontram sepultados em cemitérios abandonados e cheios de mato. E tal não aconteceu por falta de cobertura orçamental: aconteceu porque a generalidade dos políticos portugueses nutria e continua a nutrir o maior dos desprezos pelos seus militares.
Foi paradigmático o caso dos restos mortais do Tenente-Coronel Maggiolo Gouveia, distinto oficial do Exército Português, preso, torturado e, em Dezembro de 1975, fuzilado pela mesma Fretilin, partido da simpatia do Sr. Ramos Horta, que foram convenientemente abandonados em Timor-Leste em vala comum e esquecidos por sucessivos governos que nunca, por sua iniciativa, promoveram, como deviam, a sua trasladação para Portugal. O mesmo Ramos Horta que é hoje (imagine-se!) um ilustre Prémio Nobel da Paz e que, em Junho de 2006, todo o mundo viu “de braço dado” com o major Alfredo Reinado, agora morto em condições que estão por explicar, aparentemente conspirando contra Mário Alkatiri, o primeiro-ministro do seu próprio país, cujo governo acabou por cair. Apesar de tudo isso, essa sinistra figura, tem sido sistematicamente bajulada pela generalidade dos políticos portugueses.
Roma não pagou mas, ao mesmo tempo que, como nação, maltrata, vilipendia e persegue até os seus militares, todos aqueles que doaram uma vida inteira ao serviço do bem comum, Portugal paga principescamente aos seus traidores. Foi particularmente infeliz e ofensivo que uma figura pública como Almeida Santos, em tempos a segunda figura na hierarquia do Estado Português, se tenha prestado a apresentar na FNAC, em 14 de Novembro passado, o livro “Memórias em Voo Rasante” do ex-alferes Jacinto Veloso que, de Moçambique, desertou em 1963 para a Tanzânia tripulando um avião militar que roubou (teve vergonha de se assumir como desertor e traidor e, nos convites para a apresentação do livro, escreveu que “… abandonou Moçambique aos comandos de um avião…”), levando também consigo os códigos secretos das comunicações da Força Aérea Portuguesa em Moçambique, pondo, portanto e deliberadamente, em risco as vidas dos seus camaradas da Força Aérea. A quem quis ver, Almeida Santos ofereceu um refinado exemplo de branqueamento da traição e da história.
Sejamos claros. Não há dívida histórica a colonizado nenhum. Na epopeia colonizadora portuguesa, não há nada para esconder ou branquear. No caso em apreço, há sim que assumir, com toda a humildade, que a colonização de Timor foi a vergonha do Império, mas que é tarde para corrigir esse facto.
Concordando plenamente que “Portugal não tem quaisquer interesses económicos ou estratégicos em Timor-Leste”, como cidadão contribuinte fiscal, digo eu (e, comigo, dirão seguramente milhões de outros portugueses a quem, tal como a mim, nunca ninguém pediu a opinião), chega de regabofe, nem mais um euro (ou um GNR) para Timor, nem para qualquer outro teatro de operações onde não esteja directamente em jogo a nossa segurança nacional, seja ele a Bósnia, o Afeganistão, o Iraque, o Kosovo ou o que for, onde, como tem sido o caso, as graves situações de guerra, de instabilidade interna e de consequente existência de centenas de milhares de cidadãos refugiados se tem ficado a dever, quase sistematicamente, ao “terrorismo de Estado” praticado pelos Estados Unidos, à margem de toda a legalidade internacional, transformando o mundo actual, que já não era muito seguro, num verdadeiro inferno. Feito o estrago, esses imperialistas invocam então a solidariedade das alianças formais para praticamente exigir que países como Portugal venham ajudar a limpar a porcaria que eles fizeram. E, lamentavelmente, esquecendo que o nosso País está atolado num défice orçamental que custa aos portugueses os olhos da cara, sucessivos governos que até, em flagrante incumprimento da lei, devem de remunerações aos militares uma enorme soma de dinheiro, insistem em gastar milhões de contos nessas operações ditas de manutenção da paz, procurando aparentemente, como Vicente Jorge Silva magistralmente sintetizou no Diário de Notícias de 26 de Julho de 2006, “o reconhecimento da patética insignificância da nossa política externa”.
E, finalmente, aos timorenses deixo um conselho: agora que são detentores da vossa independência, com a qual se libertaram definitivamente do “colonialismo português”, agora que são livres, deixem-nos em paz, façam as revoluções que quiserem e, em momentos de aflição como é o actual, não nos peçam mais GNR, mas sim, rejubilem, cantem com alegria o vosso Hino Nacional que, para quem não saiba, reza assim:
“Pátria, pátria, Timor-Leste nossa nação.
Glória ao povo e aos heróis da nossa libertação.
Pátria, pátria, Timor-Leste nossa nação.
Glória ao povo e aos heróis da nossa libertação.
VENCEMOS O COLONIALISMO.
Gritamos: abaixo o imperialismo.
Terra livre, povo livre,
não, não, não à exploração.
Avante, unidos, firmes e decididos.
Na luta contra o imperialismo,
o inimigo dos povos,
até à vitória final,
pelo caminho da revolução!”
Fernando Paula Vicente

Major-General da Força Aérea Portuguesa (Reformado)

Co-autor do “Relatório da Comissão de Análise e Esclarecimento do Processo de Descolonização de Timor”

Lisboa, 18 de Fevereiro de 2008

Publicado em www.portugalclub.org

terça-feira, fevereiro 12, 2008

PAZ ATRAVÉS DA FIRMEZA E JUSTIÇA

Em declarações à Lusa em Bruxelas, a eurodeputada socialista, Ana Gomes, manifestou a sua "emoção e perturbação" pelos ataques José Ramos-Horta e Xanana Gusmão e também "algum alívio por Reinado estar morto".
Segundo a antiga diplomata, o major rebelde, que terá liderado o ataque contra a casa do Presidente timorense era "um criminoso e um indivíduo desequilibrado", um "Rambo" idolatrado pelos "gangs" de jovens desempregados.
Ana Gomes não percebe, por isso, as atitudes "demasiado apaziguadoras" adoptadas pelas autoridades timorenses - Ramos-Horta chegou recentemente a encetar conversações com o líder rebelde - e também pelas forças australianas e da própria ONU. Esta atitude "não poderia dar bons frutos, como demonstram os dramáticos episódios de hoje", lamentou, lembrando o papel central assumido pelo antigo comandante militar, que se rebelou contra as chefias militares na crise que atingiu Díli na Primavera de 2006."Este dramático episódio mostra que não é possível lidar com criminosos de forma frouxa e espero que sirva de lição.
A tentação de ser demasiado apaziguador é prejudicial, mina a gestão da justiça e as bases do direito fundamental", comentou Ana Gomes, que espera a partir de agora "mais firmeza das autoridades de Timor e de quem lá está a apoiá-las". A antiga embaixadora de Portugal em Jacarta considera que é necessário continuar a seguir atentamente outros revoltosos e os "gangs" que apoiavam Reinado, mas manifestou-se convicta de que estes desmobilizarão sem a sua liderança, tanto mais que este foi morto quando atentava contra a vida do Presidente de Timor.
Newsletter "Público"

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

ACORDA TIMOR!

Os últimos acontecimentos em Timor não são de todo uma grande surpresa, pois algo estava na forja há muito tempo. A surpresa foi a magnitude das ações. Esta é uma opinião minha e formada a partir de detalhes conhecidos através da imprensa internacional nas notícias de última hora e que associei ao que de estranho se passou durante muito tempo com relação ao major Reinaldo. Afinal, foragido da Justiça e conhecido o seu paradeiro por muita gente importante, porque razão nunca se colocou côbro a essa situação esdrúxula? Será porque os australianos lhe davam cobertura?--- Mas, se assim é, a gravidade da situação é muito maior, pois deduz-se haver conivência no que se passou agora. Muita coisa terá que ser descortinada e os timorenses teem direito de saber o que acontece no seu País.

TIMOR EM PERIGO!

O bispo resignatário de Díli, D. Ximenes Belo, disse esta segunda-feira à TSF que está «profundamente triste» com os últimos acontecimentos em Timor-Leste que feriram com gravidade o presidente timorense, Ramos Horta.
Para D. Ximenes é com «infelicidade» que observa que «o esforço feito nos últimos dois anos não teve qualquer efeito». O bispo apela ainda à «calma» e pede aos timorenses que respeitem o Estado de direito.
As Nações Unidas apelaram à população em Díli para restringerem os movimentos e não saírem de casa se não for estritamente necessários.
O embaixador português Ramos Pinto afirmou à SIC Notícias que a situação em Díli está «calma» e não há relatos de confrontos. Contudo, aconselhou a comunidade portuguesa - via sms - a permanecer em casa e a circular o mínimo possível.
O líder do Partido Socialista de Timor-Leste (PST), Avelino Coelho, condenou esta segunda-feira os ataques ao presidente e ao primeiro-ministro timorenses, sublinhando que qualquer ataque àquelas personalidades é um «atentado à segurança do Estado», escreve a Lusa.
Avelino Coelho, antigo membro do Conselho de Estado, afirmou estar «preocupado com a estabilidade no país», mas sublinhou acreditar que o Governo irá «tomar as medidas necessárias».
«Qualquer ataque a um presidente ou a um primeiro-ministro é um atentado à segurança do Estado. É preocupante e estou preocupado, mas acredito que o governo de Xanana Gusmão irá tomar as medidas necessárias para estabilizar o país», sublinhou o líder do PST.
Afirmando não dispor ainda de «muitos pormenores», Avelino Coelho recusou responsabilizar o governo por um «eventual desleixo» em relação ao major Alfredo Reinado, supostamente líder do grupo armado que atacou quer o presidente José Ramos-Horta quer o primeiro-ministro Xanana Gusmão.
«Pelo contrário, ao longo destes últimos meses, o governo deu sinais claros de que queria ver a situação resolvida e disse isso mesmo aos peticionários» que estiveram sempre ao lado de Reinado, sustentou o antigo candidato presidencial.
Avelino Coelho, ex-deputado, responsabilizou a «intransigência» de Reinado, que, segundo fontes oficiais e policiais, foi morto na emboscada que protagonizou, face às constantes aberturas do executivo de Díli na tentativa de resolver o problema.
Notícias: PortugalDiário
Fotos: Internet

segunda-feira, outubro 08, 2007

RAMOS HORTA EM BERLIM

Ramos Horta foi orador convidado na entrega dos prêmios Quadriga, em Berlim, no dia em que se comemorou a data da Reunificação Alemã. O presidente de Timor entregou os prêmios atribuídos a Aicha El-Wafi, uma muçulmana mãe de um terrorista condenado, e a Phyllis Rodriguez, uma católica mãe de uma das vítimas daquele. No seu discurso disse:
“É para mim uma honra ser o orador convidado para celebrar e constatar públicamente a impressionante reconciliação entre Aicha El-Wafi e Phyllis Rogriguez”.
Os laços de amizade desenvolvidos a partir de uma tragédia são uma inspiração para todos nós”.
“Honrar aqueles que promovem a unidade e a aproximação do mundo de hoje é, de facto, uma excelente escolha para comemorar o Dia da Reunificação Alemã”.
”De certa maneira, ambos os acontecimentos nos recordam que devemos abrir o coração ao pedão e o espírito aos contributos que todos os seres humanos podem dar em prol da paz nas nossas comunidades”.
A cerimónia de entrega dos prêmios teve este ano a participação de diversas personalidades e de entre elas o ministro dos Negócios Estrangeiros da França, Bernard Kouchner, com quem Ramos Horta teve um encontro de trabalho. Vale a pena registar aqui, também, partes de entrevista que deu a jornalistas espanhóis, destacando o que afirmou sobre a actual situação na Birmânia e em oposição às idéias dos Estados Unidos e de alguns outros países, cujos dirigentes apóiam a adopção de sanções com vista a forçar uma abertura para a democracia.
Sobre a Birmânia disse que “a prioridade é fazer com que a parte militar e a civil, esta encabeçada por Aung Sang Suu Kyi (lider oposicionista e também Prémio Nobel da Paz) se sentem para dialogar e cegar a um consenso. Sempre foi a estratégia de Suu que jamais respondeu com mensagens subversivas ou de ódio aos militares e sim com ofertas de diálogo”.
O chefe da junta militar da Birmania (Mianmar), o general Than Shwe, afirmou à noite, através da televisão oficial do país, que está disposto a reunir-se com Suu Kyi uma vez abandonada a confrontação.
Ramos Horta crê que esta diosposição ao diálogo por parte de Than Shwe pode ser fruto de uma intervenção de alguns sócios da ASEAN, “os únicos que têm o poder econômico e político para fazer mudar o rumo da situação”.
“Eu, como Prémio Nobel, tentarei mobilizar outros Nobel em apoio de Suu Kyi, mas sou consciente que essa acção não passará de um acto simbólico”.
“Na Ásia há uma outra forma de fazer as coisas e o meu próprio país é um exemplo. Se os militares indonésios não tivessem aceitado retirar-se de Timor, hoje não seríamos um país independente. E mais que ressentimento, há agradecimento”.
“As relações entre Díli e Yakarta são boas, quase fraternais, não obstante os crimes cometidos durante a ocupação, algo que pode chocar o ocidente mas que reflecte a indosincracia da Ásia”.
Sobre a situação em Timor, Ramos Horta reconheceu que muito há que fazer e mostrou-se confiado em que a renovação da missão da ONU no seu país se renove a cada ano até 2012.
Disse, também, que Timor necesita de mais ajuda e cooperação de alguns países.